terça-feira, 15 de outubro de 2013

'Algumas instituições jornalísticas se corromperam ao fazer acordos com governos', diz Glen Greenwald


Imagem: Evaristo Sá / AFP
O jornalista americano Glen Greenwald, 46, declarou que algumas instituições jornalísticas em todo o mundo se corromperam ao fazer acordos com diferentes governos, deixando de lado a publicação de histórias de interesse público.


A declaração foi dada nesta segunda-feira (14) pelo jornalista do jornal britânico "The Guardian" na Conferência Global de Jornalismo Investigativo e 8º Seminário da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que acontece na zona sul do Rio.
Greenwald ficou conhecido, mundialmente, com as reportagens para o jornal britânico e outras publicações do mundo sobre os documentos produzidos pela NSA (agência de segurança nacional) dos Estados Unidos cedidos pelo ex-espião Edward Snowden. O jornalista já revelou em suas reportagens que a NSA espionou a presidente Dilma Rousseff, a Petrobras e o Ministério das Minas e Energia. Atualmente, Edward Snowden vive na Rússia.

"Instituições jornalísticas se corromperam mas há jornalistas muito bons. É importante que nos piores lugares haja jornalistas inteligentes, independentes e fazendo o melhor trabalho contra essas forças. Por exemplo, no Brasil, a Globo é muito criticada, por boas razões, pela sua conduta. Mas não há como negar que há impacto nas reportagens feitas e na seriedade da jornalista Sônia Bridi, uma profissional muito inteligente e com ética do que é o bom jornalismo", disse Greenwald, que no Brasil vem publicando o seu material no jornal "O Globo" ou na TV Globo.

Ao tratar do que chamou de "corrupção das instituições jornalísticas", Greenwald falou do jornal "The New York Times", que durante 15 meses teve a informação de que o governo americano investigava, sem autorização, cidadãos americanos, dentro dos Estados Unidos. "Eles deixaram o Bush [George W. Bush] ser reeleito. Eles obedeceram o ditador. Essa informação só vazou porque um dos jornalistas que tinha essa informação cansou de esperar e resolveu escrever um livro. Aí, o New York Times não quis ficar para trás na história. Isso mudou muito o que eu pensava", disse.

Glen Greenwald também criticou a conduta de repórteres em entrevistas ou coberturas de eventos. "Também vejo muito jornalista no mundo que, durante entrevistas, começa a gritar e a ser crítico com pessoas que não têm poder ou que desafiam os poderosos, que estão a serviço dessas instituições. O futuro do jornalismo é muito interessante. Mesmo com as instituições [os jornais] fazendo essas coisas horríveis, elas estão pressionadas a mudar de conduta", analisou.

Para uma plateia de cerca de 200 pessoas formada por estudantes universitários e jornalistas da Europa, Estados Unidos, Ásia e América Latina, o jornalista americano que aos 17 anos foi candidato a vereador e depois se formou em Direito antes de resolver ser jornalista falou sobre os contatos com Snowden, a espionagem, o sigilo da fonte e o futuro da profissão.

"Não sei de onde vem essas regras que dizem que não devemos estar próximos às fontes ou não ter qualquer contato ou amizade. Bem, o fato de haver regras não quer dizer que eu tenha que seguí-las. Me preocupo com o Snowden como ser humano. Converso com ele todos os dias. Apoio o que ele fez e não vou fingir que sou um robô", comentou.

Greenwald disse ainda que a decisão de publicar, em diferentes momentos, o material cedido por Snowden aconteceu pela grande quantidade de documentos que precisa analisar. Ele ainda declarou que medidas de segurança foram tomadas (não informou quais) para a proteção dos documentos, mesmo que algo aconteça com ele ou com Edward Snowden.

"Outras pessoas do mundo possuem este material além de mim. Neste primeiro estágio preferimos assim. Nem o Wikileaks divulga tudo o que tem de uma vez só. A verdade virá e não pode ser parada. Não tem como parar isso. O que fazemos para proteger os materiais que temos? Não quero falar sobre isso", declarou. 
 
Marco Antônio Martins 
Folha de S. Paulo
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