segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

'O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder', diz Frei Betto, sacerdote e fundador do PT


Imagem: Portal do Servidor

Em entrevista ao jornal Zero Hora, Frei Betto teceu críticas ao modo de condução do PT, bem como ao seu foco na obtenção de poder. Leia trechos abaixo:

O contraste do olhar sereno com o semblante sério resume a trajetória de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto: mesmo diante de injustiças e dificuldades, ele jamais perdeu a fé e a esperança. Foi assim nos quatro anos em que esteve preso durante o regime militar, por apoiar a luta armada contra a ditadura, e nos cinco anos seguintes em que morou na periferia de Vitória, no Espírito Santo, quando decidiu ficar no Brasil. 


Aos 69 anos, o escritor mineiro, religioso dominicano e assessor de movimentos sociais é hoje reconhecido mundialmente por sua luta pela justiça social e pelos direitos humanos. Em janeiro, recebeu da Unesco o Prêmio José Martí, por seu trabalho marcado pela "oposição a todas as formas de discriminação, injustiça e exclusão". 

Frei Betto recebeu ZH no Convento Santo Alberto Magno, no arborizado bairro Perdizes, zona oeste da capital paulista, onde reside há mais de 30 anos. Ele fez dois pedidos: que a entrevista não fosse registrada em vídeo - costuma dizer que o "olho canibal" das câmeras o agride - e que a repórter, se possível, se adiantasse. A conversa começou com meia hora de antecedência para que o homem que diz não ter rotina pudesse cumprir rigorosamente a agenda apertada do dia. 

Autor de 57 livros que se define como escritor compulsivo, Frei Betto tem um perfil que provoca dúvidas. Há quem diga que ele é padre e filiado a partido político, mas não é e nunca foi nem uma coisa nem outra. Quando olha para o passado, o frade diz que o cárcere, na verdade, o libertou, pois serviu como um "grande retiro espiritual e literário". Participou da criação do PT e, embora classifique os governos Lula e Dilma como "os melhores da história republicana", não poupa críticas ao partido, que diz ter sido picado pela mosca azul.

Na entrevista, ele conta como nasceu a amizade de mais de 30 anos com Lula, analisa os 10 anos de governo do PT, conta como conheceu e indicou Joaquim Barbosa ao Supremo Tribunal Federal (STF) e fala sobre o pontificado do Papa Francisco.


Leia, abaixo, alguns trechos da entrevista:


Sobre a eleição de Lula em 2002, o senhor começa o livro "A mosca azul" com a frase: "Ainda bem, meu pai partiu antes", e diz que ele não suportaria "ver tantos sonhos esgarçados". O governo Lula lhe decepcionou?

Os governos Lula e Dilma são os melhores da nossa história republicana, mas eu esperava muito mais. Lula teria condições, no primeiro ano de governo, com todo o apoio popular que recebeu, de ter feito uma reforma agrária. É uma demanda histórica, até hoje não cumprida. Estamos com 10 anos de governos do PT, com todos os avanços que teve, com a inclusão econômica de milhões de brasileiros miseráveis e pobres, mas não tivemos nenhuma reforma de estrutura. Então, como meu pai esperava também muito mais, daí essa frase. Penso que o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Permanecer no poder passou a ser mais importante do que criar uma alternativa civilizatória para a nação Brasil.

Estou convencido de que, se a Dilma não apresentar bons índices de possibilidade de vitória eleitoral em 2014, Lula voltará. E, se ela for eleita, também estou convencido de que ele volta a ser candidato em 2018.

Por que ainda em 2014?

Porque se ela apresentar índices negativos, com o risco de a Presidência ir para as mãos de outro candidato, o "volta, Lula" haverá de funcionar.

Cleidi Pereira
Zero Hora
Editado por Folha Política

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