quinta-feira, 27 de março de 2014

Embaixador da Ucrânia pede que Brasil não fique "em cima do muro"


Imagem: Ueslei Marcelino / Reuters
Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, nesta quarta-feira (27), em Brasília, o embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, cobrou que o governo brasileiro não se mantenha "em cima do muro" em relação à anexação da Crimeia, que era território autônomo ucraniano, à Rússia.

O país rechaça o referendo que votou a favor da incorporação da Crimeia à Federação russa no último dia 16 e voltou a tratá-lo como "inconstitucional". Nesta quarta, a Assembleia Geral da ONU também aprovou resolução taxando a consulta de "ilegal".

Já o governo brasileiro tem procurado se abster de comentários sobre o impasse internacional que se estabeleceu entre a Ucrânia e Rússia, na contramão da maioria dos países do Ocidente.

Cobrando uma postura afirmativa do Brasil, Tronenko citou a Argentina, o México, o Panamá e a Costa Rica como exemplos de países que se manifestaram pela integridade territorial da Ucrânia.

 "O mundo e o Brasil devem ajudar a Ucrânia a enfrentar essa agressão flagrante. Pedimos que não fiquem em silêncio. A Ucrânia está pronta para dialogar e envolver negociadores internacionais, somos um povo de paz. Mas nunca vamos ceder e comprometer a nossa soberania. Ninguém está pedindo ao Brasil para comprar uma briga por causa da Ucrânia, mas não queremos que nosso parceiro estratégico fique em cima do muro, um país que pretende ocupar um lugar no Conselho de Segurança da ONU", afirmou o embaixador, em português -- Tronenko é casado com uma brasileira.

Esta não é a primeira vez que a Ucrânia apela para uma postura mais afirmativa do Brasil com relação ao caso. Em artigo publicado na imprensa brasileira, Rostyslav Tronenko pediu que o Brasil não fique em silêncio diante da anexação da Crimeia pela Rússia.

"Se isso for feito com a Ucrânia, qualquer coisa pode ser feita para qualquer outro país. Se for permitido que isso aconteça, então não existem regras e não há leis", escreveu.

Em entrevista ao UOL no último dia 8, Tronenko chegou a declarar ter "esperança de que Brasil também apoiará as aspirações do povo ucraniano para buscar a solução pacífica do conflito"  -- algo que não aconteceu.

'Brics' motiva silêncio do Brasil


A última manifestação da diplomacia brasileira sobre o assunto foi na última quarta-feira (19), em nota protocolar afirmando que a crise deveria "ser equacionada pelos próprios ucranianos". A posição foi reforçada, no mesmo dia, pelo chanceler Luiz Alberto Figueiredo em Paris.

O argumento do Itamaraty para o silêncio diante da maior crise entre Ocidente e Moscou desde o fim da Guerra Fria é o de que o Brasil não costuma interferir em impasses políticos de outros países.

Mas, segundo especialistas ouvidos pela agência de notícias alemão Deutsche Welle, a posição brasileira reflete interesse político e econômico maior e tem como pano de fundo a estreita ligação do Brasil com a Rússia e com o grupo dos Brics (bloco de cooperação política formado por Brasil, Rússia, Índia e China).

"O Brasil está invocando uma noção vaga de 'não ingerência', um posicionamento que apresenta claras incongruências com o que o Brasil desempenhou em crises na América Latina, além de uma inflexão quanto ao papel que projetava para si durante o governo Lula", opina Marcos Troyjo, diretor do BricLab da Universidade de Columbia (EUA) e professor do Ibmec/RJ.

O especialista diz ainda que o Brasil, não apenas pela crise na Crimeia, vem perdendo brilho no cenário internacional. Há, para ele, percalços que abrangem três campos das relações internacionais: o econômico-comercial, o político-militar e o dos valores. E as consequências, afirma, são grandes: o "soft power" brasileiro irradia com menos força.

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