segunda-feira, 28 de abril de 2014

FMI reduz projeção de crescimento do Brasil em 2014 para uma das piores do mundo, contrariando discurso do governo brasileiro


Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Enquanto o mundo retoma a curva do crescimento, o Brasil vai na direção contrária. Em relatório divulgado ontem, o Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou a estimativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do país pela quarta vez consecutiva. A alta projetada para este ano é, agora, de apenas 1,8%, praticamente a metade dos 4% previstos em abril do ano passado. Em janeiro, ou seja, há apenas três meses, a taxa prevista ainda era de 2,3%. 


Em Washington, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, respondeu: "É difícil um órgão ter a capacidade de observação de todos os países do mundo com a propriedade que temos domesticamente. Provavelmente, o FMI nem sequer abriu os dados de janeiro a março de 2014". Para ele, o Fundo está com uma visão do passado e deve ter se baseado em dados do último trimestre de 2013. 

O documento Panorama Econômico Global, elaborado pelo Fundo, mostra que o Brasil avança em ritmo bem mais lento do que a média mundial. Entre os países emergentes, o aumento pífio projetado para a economia brasileira só não é menor que o da Rússia - que está à beira de uma guerra, enfrenta fuga de capitais e sofre sanções econômicas da União Europeia e dos Estados Unidos por ter anexado a Crimeia. Na América Latina, só estamos mais bem colocados que a Argentina e a Venezuela, dois países às portas de uma convulsão social. 

Pelas contas do FMI, a economia russa vai crescer 1,3% este ano, a Argentina não passará de uma alta de 0,5% e a Venezuela deve mergulhar numa recessão de 0,5%. "O Brasil não vive a crise econômica e política atravessada por Moscou. Isso mostra que é preciso se preocupar com a situação econômica brasileira. Esse ajuste da projeção do FMI reflete o aumento da desconfiança na economia do país pelos investidores e confirma que o problema maior é a falta de capacidade de gestão interna", analisou o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. 

Na avaliação dele, o Fundo ratifica o que o mercado pensa em relação ao país. "O estudo do FMI reflete a gangorra do humor na bolsa por conta das aprovações ou desaprovações da presidente Dilma (Rousseff)", disse ele. 

"Na verdade, a gente está colhendo o que plantou com a política errada de tentar estimular apenas a demanda doméstica", resumiu o economista-chefe do BES Investment Bank, Jankiel Santos. "É preciso que o governo tome uma atitude mais consistente para recuperar a confiança. O lado fiscal continua uma desgraça, a inflação está cada vez mais perto de 6% e o governo sinaliza que pode encerrar o ciclo de aperto monetário, o que está errado", acrescentou. 

Ao contrário do mercado, que prevê aumento mais acentuado no custo de vida este ano, o Fundo reduziu a perspectiva de inflação do Brasil de 6,3% para 5,9%, na comparação com o relatório de outubro de 2013. Para 2015, a expectativa é de que esse índice seja ainda menor: 5,5%. "Essa redução ocorre porque a metodologia do FMI não contabiliza a expectativa de aumento dos preços que estão represados, como os de tarifas públicas e de combustíveis. A fórmula deles é mais simples e considera que, se há um corte no crescimento, haverá demanda menor, e isso ajudará a reduzir os preços", explicou Jankiel. 

O relatório do FMI avalia ainda que o déficit nas contas externas do Brasil deve atingir 3,6% do PIB neste ano e aumentar para 3,7% em 2015 - níveis superiores à média prevista para os países sul-americanos, de 2,8% e 2,9%, respectivamente. O desemprego, que ficou em 5,4% no ano passado, voltará a crescer, passando para 5,6%, em 2014, e para 5,8% no próximo ano. 

Cada vez pior 
Projeções mostram economia brasileira em situação bastante desconfortável 

Ladeira abaixo 
Estimativas caem pela 
quarta vez seguida 

Períodos Previsão para o PIB (em %) 
Abril 2013 4,0 
Julho 2013 3,0 
Outubro 2013 2,5 
Janeiro 2014 2,3 
Abril 2014 1,8 

Na lanterna 
O país cresce abaixo da média global e continua figurando entre as nações com as menores taxas de crescimento 

Previsões para 2014 (em %) 
Mundo 3,6 
Economias desenvolvidas 2,2 
Economias emergentes 4,9 
América Latina e Caribe 2,5 
Estados Unidos 2,8 
Zona do Euro 1,2 
China 7,5 
Peru 5,5 
Índia 5,4 
Paraguai 4,8 
Colômbia 4,5 
Chile 3,6 
México 3,0 
Uruguai 2,8 
África do Sul 2,3 
Brasil 1,8 
Rússia 1,3 
Argentina 0,5 
Venezuela -0,5 

Rosana Hessel
Correio Braziliense
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...