sábado, 23 de agosto de 2014

Aplicativo para celular vai fiscalizar a urna eletrônica


Imagem: Emília Silberstein/UnB Agência
Líder da equipe que encontrou falhas de segurança nas urnas eletrônicas brasileiras em 2012, o professor do curso de Ciência da Computação da Universidade de Campinas Diego Aranha arrecadou mais de R$ 40 mil para a criação do ‘Você Fiscal’, um aplicativo para celulares que vai fiscalizar as eleições deste ano. O programa será usado para detectar qualquer tentativa de fraude ou erro na etapa final da eleição, o processo chamado totalização, que envolve a soma dos resultados parciais produzidos por urnas eletrônicas em todo o país. O dinheiro foi captado no Catarse, um site de financiamento coletivo.

A ideia é simples. Às 17h, quando a votação se encerra, os mesários são obrigados a fixar o boletim de urna na porta da seção eleitoral. O documento traz a contagem de votos naquela seção, separado por candidato. Com o aplicativo, será possível fotografar os boletins e enviar para a equipe da Unicamp. Lá, os pesquisadores vão comparar o boletim publicado com o resultado daquela mesma urna registrado e divulgado pelo site Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se alguém fraudar a urna depois da emissão do boletim, o aplicativo descobre. Quanto mais pessoas tirarem fotos, melhor será o resultado. Quem não tem um smartphone compatível com o aplicativo pode tirar manualmente as fotos do boletim e enviar pelo site do Você Fiscal. O aplicativo não exigirá qualquer tipo de cadastro; as fotos serão publicadas de forma anônima, sem informar quem as enviou.

O aplicativo é uma resposta à decisão do TSE, que não fará nenhum teste de segurança antes das eleições de outubro. Em 2012, uma equipe de três técnicos da Universidade de Brasília (UnB), liderada por Diego Aranha, conseguiu descobrir a ordem em que 950 votos haviam sido digitados, sem precisar abrir a urna, em apenas uma hora. O erro permitia reordenar os votos cadastrados pela urna a partir do Registro Digital do Voto (RDV), um arquivo que é disponibilizado aos partidos. Com essa informação mais a ordem de votação em uma seção eleitoral, seria possível descobrir quem votou em quem. O experimento aconteceu num teste de segurança público promovido pelo próprio TSE.

Números

Em 2014 serão usadas mais de 500 mil urnas eletrônicas em mais de 430 mil seções eleitorais espalhadas pelo país. Essa será a décima eleição em que os equipamentos serão utilizados. A primeira vez foi em 1996. “As urnas usadas no Brasil, com armazenamento puramente eletrônico dos votos, não fornecem evidências para o eleitor de que seu voto foi registrado de maneira correta. Na prática, confiamos incondicionalmente nos funcionários da Justiça Eleitoral”, diz o inventor do aplicativo.


Em relação à integridade dos resultados, apesar de nenhum experimento ter sido executado por falta de tempo (e interesse posterior do TSE), os pesquisadores descobriram que o compartilhamento massivo e armazenamento inseguro de uma chave criptográfica pelas 500 mil urnas abre a possibilidade de adulteração do software de votação para que ele não se comporte de maneira honesta. “E isso não precisa necessariamente ser feito urna a urna, mas em alguns pontos centralizados de distribuição do software. Caso o software de votação seja manipulado com sucesso, o resultado pode ser alterado arbitrariamente, sem refletir a intenção do eleitor”, alerta o especialista.

Para Aranha, o Brasil deveria usar as urnas em operação em outros países, que combinam a votação eletrônica com a cédula tradicional, para que os resultados não dependam somente do software.

Gabriel Azevedo
Gazeta do Povo
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