sábado, 9 de agosto de 2014

Entidades pedem apuração do uso de rede oficial para crítica a jornalistas


Imagem: Reprodução
Entidades representativas de jornalistas, emissoras de rádio e televisão, jornais e imprensa, cobraram nesta sexta-feira (8) investigação sobre a autoria de críticas, realizadas a partir da rede de internet do Palácio do Planalto, aos perfis dos jornalistas Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão na Wikipédia.


A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) condenaram o episódio.

Leia também: 

A Wikipédia é uma enciclopédia virtual e gratuita alimentada por colaborações de usuários da internet. Qualquer pessoa pode alterar o conteúdo desses artigos e o registro de edições é armazenado a partir do endereço de IP, um número de identificação atribuído a cada aparelho conectado à internet.

Reportagem publicada nesta sexta-feira (8) pelo jornal “O Globo” revelou que de dentro do Planalto, foi escrito na Wikipédia que Miriam Leitão fez análises "desastrosas", que defendeu o ex-banqueiro Daniel Dantas e ainda que ela cometido “um dos maiores erros de previsão” sobre o crescimento o PIB brasileiro durante a crise financeira internacional de 2009.

Sobre Sardenberg, foi escrito que é crítico dos cortes de juros feitos nos governos Lula e Dilma e que é irmão de Rubens Sardenberg, "economista-chefe da FEBRABAN, instituição que tem grande interesse na manutenção de juros altos". Depois, foi acrescentado que "a relação familiar denota conflito de interesse".

A vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, disse que é preciso investigar se as alterações partiram de um agente público. "É preciso haver apuração para saber quem usou computador público para fazer essas alterações, o que não é atribuição de um agente público. Caso seja confirmado, é uma atitude condenável e necessita uma punição aos responsáveis", disse a vice-presidente da entidade.

Por meio de nota oficial, a Abert disse que condena "todo o ato de adulteração de dados ou informação falsa contra qualquer cidadão". Para a associação, o episódio é "ainda mais inaceitável" porque visa atingir profissionais da imprensa. "Para a Abert, é de fundamental importância a apuração das denúncias pelo Palácio do Planalto e a garantia do direito à veracidade dos fatos", informou a entidade.

Também em nota, o vice-Presidente da ANJ, Francisco Mesquita Neto, disse que a entidade condena a alteração e pede apuração sobre o caso. Segundo ele, "continham críticas e afirmações inverídicas e desqualificadoras em relação aos dois profissionais".

O presidente da ABI, Tarcísio Holanda, também em nota, expressou preocupação com o caso, e disse que as adulterações "tiveram claro objetivo de denegrir a imagem dos dois profissionais e devem ser apuradas com rigor pelo Palácio do Planalto".

"A ABI entende que este fato insólito, sem precedentes no regime democrático em voga no país, é inaceitável e compromete o direito à liberdade de expressão. A intervenção direta da Presidência da República nos remete ao período da ditadura, quando expedientes como estes, ao lado de ações violentas, foram usados para perseguir e silenciar jornalistas críticos ao governo", escreveu.

Por meio de nota, a Secretaria de Comunicação da Presidênca informou que, por razões técnicas, "é impossível" localizar os computadores de onde partiram as alterações, que, segundo "O Globo", foram feitas em maio de 2013. A nota informa que até julho deste ano, os conteúdos da rede de internet do Palácio do Planalto eram arquivados por no máximo seis meses.

Jornalistas reagem

Ao G1, Carlos Alberto Sardenberg disse que considera as alterações feitas em seu perfil uma “ofensa”. Ele disse que pretende, juntamente com seus advogados, analisar se o episódio pode ser configurado como crime.

“Vamos exigir que o governo esclareça. A alteração que foi feita no perfil tem data e hora. Então, dá para investigar. É uma ameaça à liberdade de imprensa, é o fim do mundo, é inacreditável pensar que tem funcionários do governo se dedicando a fazer esse tipo de coisa”, declarou o jornalista.

"Se quiserem fazer um debate sobre política econômica, tudo bem, não tem problema nenhum, podem criticar minhas posições. O que é inadmissível é um órgão do governo patrocinar uma coisa clandestina, que é por baixo do pano”, concluiu.

A jornalista Miriam Leitão disse ter ficado “chocada" com a revelação e destacou que todas as alterações realizadas em seu perfil são mentirosas.

“Todas as inclusões são mentiras, calúnia e difamação. É inadmissível que num Estado democrático de direito o governo se aproprie dos recursos e dos funcionários públicos para fazer esse tipo de ataque a uma pessoa, seja ela qual for. Não falo apenas por mim. Estou mais chocada como cidadã e democrata do que como jornalista”, declarou.

Para Miriam Leitão, a questão não é pessoal. Segundo ele, está em jogo o país e a instituição. "O governo existe para defender os brasileiros e para governar o Brasil. Ele não pode ser usado, a máquina pública não pode ser usada, para atacar um cidadão, seja ele qual for. Se atacar com mentiras, é ainda mais grave", afirmou.

De acordo com a jornalista, houve "um desvio de função seriíssimo" porque o governo usa recursos públicos.

"Nós financiamos o governo, [que] usa recursos públicos, funcionários públicos, a máquina, o aparato da Presidência da República para entrar na Wikipedia para colocar mentirar contra pessoas que supostamente são contra o governo", declarou.

Procuradoria Geral da República

O PPS anunciou que o líder do partido na Câmara, deputado Rubens Bueno (PR), protocolou representação na Procuradoria Geral da República. Na representação, ele pede que o caso seja investigado. Segundo a assessoria do PPS, Bueno também apresentou na Câmara requerimento para que o ministro Thomas Traumann, da Comunicação Social, dê informações sobre o episódio.


Durante um evento nesta sexta em Brasília, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou nesta sexta que desconhecia a denúncia e que, inicialmente, a suspeita de que computadores conectados à rede de internet da Presidência tenham sido usados para criticar jornalistas não é um fato que "desperta a atuação" da Procuradoria. Segundo Janot, a denúncia pode vir a ser investigada pelo Ministério Público do Distrito Federal.

"O fato deverá ser apreciado pelos colegas da Procuradoria Regional do DF, e deve ser enfrentado também no âmbito discplinar próprio da previsão do serviço público. Fica difícil a gente fazer uma avaliação sem conhecer os fatos", disse o procurador-geral.

Padilha

No mês passado, o jornal “Folha de S.Paulo” revelou que, entre 2008 e 2014, computadores registrados em nome do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) e da Presidência da República incluíram elogios e retiraram críticas do perfil na Wikipédia do candidato ao governo de São Paulo pelo PT, Alexandre Padilha. Ele comandou o Ministério da Saúde durante o governo Dilma Rousseff.

Leia abaixo a íntegra da nota divulgada pela Abert:

Nota à imprensa:
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão condena todo o ato de adulteração de dados ou informação falsa contra qualquer cidadão.
Revela-se ainda mais inaceitável, quando um episódio objetiva atingir profissionais da imprensa, principalmente ao envolver servidores do Estado.
Para a Abert, é de fundamental importância a apuração das denúncias pelo Palácio do Planalto e a garantia do direito à veracidade dos fatos.
DANIEL PIMENTEL SLAVIERO
Presidente

Leia abaixo a íntegra da nota divulgada pela ABI:


A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) expressa sua preocupação pelo episódio de alteração dos verbetes sobre os jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg na enciclopédia livre online Wikipédia por computadores da Presidência da República.
Tais adulterações, denunciadas pelo jornal O Globo nesta sexta-feira, 8 de agosto, tiveram claro objetivo de denegrir a imagem dos dois profissionais e devem ser apuradas com rigor pelo Palácio do Planalto.
A ABI entende que este fato insólito, sem precedentes no regime democrático em voga no País, é inaceitável e compromete o direito à liberdade de expressão. A intervenção direta da Presidência da República nos remete ao período da Ditadura, quando expedientes como estes, ao lado de ações violentas, foram usados para perseguir e silenciar jornalistas críticos ao Governo.
Rio de Janeiro, 8 de agosto de 2014
Tarcísio Holanda
Presidente da ABI


Leia abaixo a íntegra da nota da ANJ:

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) condena a alteração dos perfis dos jornalistas Míriam Leitão, colunista de O Globo, e de Carlos Alberto Sardenberg, da rádio CBN e da Rede Globo, na enciclopédia virtual Wikipedia, a partir da rede interna da Presidência da República. As alterações, efetuadas no mês de maio do ano passado, continham críticas e afirmações inverídicas e desqualificadoras em relação aos dois profissionais.
A ANJ espera que o Palácio do Planalto apure o ocorrido e tome as devidas providências.
Brasília, 08 de agosto de 2014.
Francisco Mesquita Neto
Vice-Presidente da ANJ, responsável pelo Comitê de Liberdade de Expressão

Priscilla Mendes
G1
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...