quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Relator pede cassação do mandato de Vargas por elo com doleiro


Imagem: Reprodução / Estadão
O deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo no Conselho de Ética contra André Vargas (sem partido-PR), pediu nessa terça (5) no Conselho de Ética a perda do mandato do ex-petista, acusado de envolvimento com o doleiro Alberto Youssef.

Após uma tumultuada sessão na tarde dessa terça-feira, em que Vargas e Delgado trocaram acusações, o Conselho de Ética retomou os trabalhos à noite e o pessebista leu seu parecer pela cassação do parlamentar. Caso a maioria dos membros do Conselho aprovem o relatório proposto por Delgado, a perda de mandato de Vargas - que se desfiliou do PT e não disputa a reeleição neste ano - precisará ser chancelada pelo Plenário da Casa. A votação no Conselho de Ética, no entanto, deve ocorrer só nas próximas semanas, uma vez que houve um pedido de vistas conjunto nesta madrugada.

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Youssef está preso pela Polícia Federal no âmbito da operação Lava Jato, deflagrada em março e que apura um esquema de lavagem de dinheiro suspeito de movimentar cerca de R$ 10 bilhões. A ligação do deputado com Youssef veio a público quando foi revelado, no início do ano, que ele pegou carona em um jatinho do doleiro. Além do mais, ele é apontado pela Polícia Federal como o responsável por indicar um ex-assessor do Ministério da Saúde para trabalhar no Labogen, laboratório que, de acordo com a PF, centralizava o esquema de lavagem de dinheiro comandado por Youssef. O laboratório havia fechado uma parceria com a pasta para o fornecimento de remédios, operação desfeita após a investigação da PF. Vargas nega ter feito essa indicação.

"Como se vê, o deputado Vargas insere-se no contexto da imensa rede criminosa especializada na lavagem de dinheiro e na evasão de divisas", disse Delgado em seu voto. "O deputado representava, perante a administração pública federal, os interesses das empresas controladas por Alberto Youssef e seus testas-de-ferro. Ora intermediando reuniões, ora cobrando favores, ora abrindo portas, André Vargas foi a pedra de torque que permitiu à Labogen percorrer, sem percalços, todo o iter burocrático necessário para ver aprovada a sua Parceria para Desenvolvimento Produtivo com o Ministério da Saúde", concluiu o socialista.

Em seu voto, Delgado, aliado do candidato do PSB à presidência Eduardo Campos, critica ainda o PT. Sem nomear o partido adversário, ele afirma: "quando se pensava que a engenhosidade do grupo político que atualmente ocupa as posições de governo para o aparelhamento do Estado, a apropriação privada das oportunidades de contratação pública e a perpetração de crimes contra a administração pública e o sistema financeiro havia se exaurido com o esquema debelado na Ação Penal 470 (mensalão), vêm à tona novos fatos que dão conta de que a Hydra de Lerna chamada corrupção está viva e espalhou cabeças pelos mais diversos órgãos da administração pública federal".

Vargas disparou críticas contra a condução da relatoria por Delgado, disse que as acusações se basearam apenas em notícias veiculadas pela imprensa e que todos as declarações das testemunhas ouvidas foram no sentido de absolvê-lo. "A única coisa se que tem contra este deputado e que força a cassação são as notícias de jornais", disse. "Todos os depoimentos corroboraram que não houve tráfico de influência", disse o parlamentar.

O parlamentar também queixou-se que não foi convocado a depor no colegiado, que tinha arrolado testemunhas que ainda precisavam ser ouvidas e que seu direito de defesa estava sendo cerceado. "Não houve quebra de decoro parlamentar", disse. Delgado, por sua vez, afirmou que o ex-petista foi chamado a prestar esclarecimentos por diversas vezes, sem nunca comparecer. Para o relator, a defesa de Vargas tem agido no sentido de protelar o processo.

Pressão. As denúncias contra Vargas fizeram com que o parlamentar, ainda no início do ano, renunciasse ao cargo de vice-presidente da Câmara. Ele também foi pressionado pelo PT a abrir mão do mandato para evitar danos às campanhas pela reeleição da presidente Dilma Rousseff, do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo de São Paulo e da ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann ao governo do Paraná. Isolado, ele pediu a desfiliação do partido, mas não renunciou ao mandato.

Ricardo Della Coletta
O Estado de S. Paulo
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