sexta-feira, 31 de outubro de 2014

“Plebiscito sobre reforma política jogaria o país num labirinto”, afirma cientista social


Imagem: Reprodução / Implicante
Um dos principais cientistas sociais do país, o carioca Luiz Werneck Vianna viu com preocupação a iniciativa da presidente Dilma Rousseff, logo no primeiro discurso depois de reeleita, de propor, mais uma vez, uma reforma política pela via do plebiscito. 


O caminho correto para uma reforma, diz Werneck Vianna, é pela via do Congresso Nacional. Se o governo insistir na tese do plebiscito, ele acredita que poderemos ir para uma situação parecida ao dos tempos do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964. Nela, um Executivo enfraquecido tenta se fortalecer mobilizando setores da sociedade contra o Legislativo. A despeito dessa preocupação, Werneck vê um momento de virada na sociedade brasileira, em que a democracia poderá se aprofundar no país. Ele adverte, porém, que esse momento poderá se tornar “péssimo”, se as lideranças políticas não souberem jogar direito. Ele falou com ÉPOCA durante o encontro anual da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), em Caxambu (MG).

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Como avalia os ensaios para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff? É boa a proposta de reforma política por meio de um plebiscito?
Essa proposta é inviável. Ela jogaria o país no labirinto. Nem responsável é, porque ela é inteiramente incapaz de dar uma solução ao problema. Você precisa de uma reforma política que faça as coisas andar e não de uma que paralise o país, que oponha um Executivo, mobilizador de setores da sociedade, a um Legislativo, pressionado a aprovar determinado projeto. Isso não vai a lugar nenhum. A via correta para a reforma política é a congressual.

Dilma saiu enfraquecida politicamente dessas eleições?
Saiu.

Não é uma contradição que ela fale em diálogo e coloque a carta do plebiscito na mesa de negociação, quando ela está enfraquecida?
Sim. É contraditório falar em diálogo e vir com uma proposta de reforma política via plebiscito. Se ela for nessa direção, atenção, eu estou falando na condicional, se ela for nessa direção, isso quer dizer que ela vai procurar apoio na sociedade para se fortalecer contra o poder Legislativo, contra a oposição. Lembra um pouco os tempos do Jango, com suas reformas de base. É o Executivo tentando realizar reformas contra o Legislativo.

Há diferentes diagnósticos sobre a influência das jornadas de junho de 2013 nas eleições. Qual é a sua opinião?
Foi muito grande. A agenda dessa campanha, com a discussão das políticas públicas de saúde e principalmente de educação, derivou das manifestações de junho.

A polarização política entre PT e PSDB tende a permanecer?
Acho muito difícil que nós nos convertamos numa estrutura bipartidária, mas a polarização pode permanecer, sim. Nos Estados Unidos, a polarização entre democratas e republicanos está aí desde sempre. No Reino Unido, entre conservadores e trabalhistas, também. Por que não pode permanecer no Brasil? Pode, sim. A questão é outra: seria desejável? No nosso caso, eu acho que não. A existência de outras forças políticas pode reforçar a ligação do sistema político com a sociedade civil complexa e heterogênea que temos. No mundo real, o brasileiro tem se mostrado avesso a estruturas políticas muito simplificadoras.

O que achou do acirramento de ânimos provocado por essa eleição?
Esse acirramento não foi bom, porque ele não se deu em torno de questões substantivas. Ele foi muito personalizado, fulanizado. Isso é ruim, porque não educou a sociedade.

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Como observador da nossa política há muitos anos, o que lhe chama a atenção nessas eleições?
Nós estamos num momento de uma grande virada. A democracia brasileira criou condições de se enraizar. Mais agora do que em qualquer outro momento. Está claro para a sociedade, eu penso, que as reformas e as mudanças sociais derivam do processo eleitoral – e não de ações externas ao processo eleitoral. Vale dizer: as eleições no Brasil são uma forma superior de luta da agenda social. As pessoas vizualizaram, por experiência própria, que o caminho de conquistas sociais está no aprofundamento da democracia política.

Isso já não existia antes?
Já existia. Mas pegou mais força, mais consistência, mais densidade.

Que tipo de consequência isso pode ter?
A sociedade precisa se organizar, os partidos precisam melhorar suas estruturas para que o debate político ganhe mais consistência.

É um bom momento para o país, então?
É um bom momento, do ponto de vista sociológico. Se será um bom momento de verdade, dependerá da ação dos atores políticos. Se eles jogarem de forma desastrada, pode ser um mau ou até um péssimo momento. Se insistirem nesse caminho da reforma política pelo plebiscito, os atores políticos estarão jogando no sentido de turvar e obstaculizar as belas possibilidades de aprofundamento da democracia, com que contamos agora.

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Guilherme Evelin 
Época
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