quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Suspeito de envolvimento no caso Petrobras, Vaccari vira alvo no PT


Imagem: Alan Marques / Folhapress
O assunto não estava na pauta, mas surgiu na manhã de segunda (20), durante reunião de 18 dos principais dirigentes do PT, em São Paulo.

Alguém falou sobre as denúncias de corrupção na Petrobras e João Vaccari Neto, tesoureiro do partido, foi direto ao ponto que tanto atormenta os petistas: "Nunca operei com Paulo Roberto."

A luz amarela piscou no PT depois que o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa citou Vaccari, no mês passado, como um dos operadores do esquema de desvio de recursos da estatal investigado pela Operação Lava Jato.

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Desde então, o nome do tesoureiro petista parece estar em toda parte quando o tema é corrupção no governo federal. Suspeita-se que cobrava pedágio das empreiteiras com contratos na Petrobras, intermediava negócios com fundos de pensão de estatais e recebia comissão para resolver problemas em Brasília.

Conforme revelou a Folha, em fevereiro o tesoureiro esteve numa empresa do doleiro Alberto Youssef, que confessou participar do esquema na Petrobras, dias antes das prisões da Lava Jato. Deixou o lugar quatro minutos depois, mas até hoje não explicou o motivo da visita.

O suposto papel do bancário de 55 anos no esquema ainda precisa ser comprovado pelas autoridades, mas evocou no PT o fantasma de Delúbio Soares, o tesoureiro petista condenado e preso por causa do mensalão.

Vaccari não deu entrevista para esta reportagem. Oficialmente, o partido também evita o tema, para não correr riscos na reta final da disputa pelo Palácio do Planalto.

DISCRIÇÃO

Como Delúbio, Vaccari é cria do movimento sindical e visto como um soldado do PT. A militância o fez abandonar as aulas de economia na PUC-SP, após dois anos de curso.

Filho de agricultores do interior do Paraná, mudou-se para São Paulo e começou a carreira como escriturário do antigo Banespa, aos 19 anos. Dois meses depois, filiou-se ao Sindicato dos Bancários, do qual foi presidente.

Além de tesoureiro do PT, Vaccari é conselheiro da Itaipu desde 2003 e recebe R$ 21 mil por mês para comparecer a seis reuniões por ano.

Casado e pai de uma médica, leva uma vida discreta segundo quem o conhece. Gosta de cachorro, de cozinhar e mora há anos na mesma casa em Moema, bairro na zona sul da capital paulista.

Nos momentos de folga, costuma ir com a mulher para o apartamento que a família possui no litoral sul de São Paulo. Dois anos atrás começou a fazer exercícios para emagrecer por recomendação médica. Perdeu 15 quilos.

"A camisa dele até fechava, não acreditei", brinca um amigo. Vaccari acabou desistindo e engordou outra vez.

No PT, a função de Vaccari desde 2010 é arrecadar dinheiro, pagar as contas do partido e repartir verbas de campanha em anos eleitorais. Desde que virou tesoureiro, angariou R$ 628,6 milhões para a sigla. Nesse trabalho, é considerado um profissional extremamente cuidadoso.

Empresários que estiveram com ele disseram à Folha que Vaccari prefere guardar os detalhes importantes das conversas na memória. Quando é melhor anotar, rabisca códigos que ninguém mais entende em folhas soltas que depois enfia nos bolsos.

As reuniões ocorrem nas sedes do PT em São Paulo ou em Brasília. Em algumas ocasiões, Vaccari marca encontros no Sindicato dos Bancários, na capital paulista. Em outras, vai pessoalmente até o escritório dos doadores.

MOCHILA

Um empresário que pediu para não ser identificado disse à Folha que, quando a contribuição é feita em espécie, o tesoureiro guarda o dinheiro, sem contar, numa mochila preta que carrega com ele. Quantias maiores vão para contas indicadas por Vaccari.

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Ligado ao grupo do ministro das Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, que também presidiu o Sindicato dos Bancários nos anos 90, contou com o aval do ex-presidente Lula para assumir a secretaria de finanças do PT.

Mas não é a primeira vez que o nome de Vaccari aparece em escândalos. Ele é réu num processo em que é acusado de desviar dinheiro da Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo), quando era presidente. Os recursos teriam financiado campanhas eleitorais.

O petista reconhece má gestão na cooperativa, mas nega os desvios e diz que seu trabalho na Bancoop foi sanear problemas deixados pela administração anterior.

Vaccari é respeitado no PT, mas não é unanimidade. Não se dá com o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, de quem foi suplente no Senado, e brigou com o deputado Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma, e o ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins.

A desavença com Franklin foi no fim do ano passado, quando o tesoureiro se recusou a contratar uma empresa indicada pelo ex-ministro para prestar serviços para a campanha de Dilma.

A encrenca com Edinho e Mercadante é de 2010, quando Vaccari não concordou em assumir a dívida da campanha do ministro, então candidato ao governo paulista.

A equipe de Dilma tem certeza de que o caso Petrobras dará dor de cabeça. Se o envolvimento de Vaccari ficar comprovado, os riscos para o PT tendem a aumentar.

BANCOOP

Vaccari é réu em processo criminal na Justiça em que é acusado de formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, durante o período em que foi presidente da Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo)

O petista reconhece que no passado houve má gestão na cooperativa, mas nega desvios e diz que só entrou na cooperativa para sanear problemas deixados pela administração anterior

PETROBRAS

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef disseram ao Ministério Público Federal que Vaccari era o encarregado de distribuir para o PT recursos desviados de obras executadas pela estatal

Em nota, Vaccari afirmou que "nunca tratou de assunto relativo ao partido com Paulo Roberto Costa"

ITAIPU

No debate presidencial da Record, no domingo (19), Aécio Neves (PSDB) perguntou a Dilma Rousseff (PT) por que, diante das acusações contra Vaccari, a presidente o mantinha como conselheiro de Itaipu

Vaccari é conselheiro desde 2003 e recebe R$ 21 mil por mês para ir a seis reuniões por ano. O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, também é conselheiro da empresa, ao lado de um representante do Itamaraty e de um diretor da Eletrobras, entre outros indicados pelo governo

O CAIXA

Desde que assumiu a tesouraria, Vaccari arrecadou R$ 628,6 milhões para o PT

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Marina Dias e David Friedlander
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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