quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Cantora Adriana Calcanhoto publica desabafo sobre o PT: "O sonho acabou"


Imagem: Wikimedia Commons
A cantora Adriana Calcanhoto em sua coluna no jornal O Globo, publicou um relato-desabafo sobre sua relação com o Partido dos Trabalhadores. De militante apaixonada, a cantora passou pelo desencanto, abandonou o partido, e hoje afirma: "Serei alienada ou apolítica, que é melhor para mim do que ser amoral". Aos militantes, ela manda o recado: "eu sou vocês ontem". 


Leia abaixo o texto de Adriana Calcanhoto: 

Aos 15 anos, estudante secundarista em Porto Alegre, interessada especialmente nas causas indígena e trabalhista, devorando qualquer texto dos irmãos Villas Boas ou de Darcy Ribeiro que encontrasse pela frente, me apaixonei pelo movimento de criação do Partido dos Trabalhadores. Era o ano de 1980, e eu vendia broches que eram estrelinhas vermelhas com “PT” escrito em branco. Era o que podia fazer como contribuição para a concretização do grande sonho, aquele trabalho de formiguinha que o militante secundarista pode fazer, dando tudo de si. Usava meu broche de estrelinha do lado esquerdo do peito, no duplo sentido. Tirava o broche antes de chegar em casa para não ter que confrontar a família, de direita, entre outras manobras anticonflito. Até que um dia nasceu finalmente o PT, o inacreditável aconteceu. Grande privilégio do ponto de vista histórico fazer parte daquilo. Meu herói era Olívio Dutra, e meu lema era “com o Olívio onde o Olívio estiver”.
Veja também:
'O PT começou a morrer', diz jornalista
'O fim do PT está próximo', diz historiador
Lula tem 'plano B' para derrota de Dilma, relata jornalista
'Temos censura que não tivemos nem na ditadura. Esperava o PT ético, mas abriu os caminhos do roubo', diz Antônio Fagundes
'A única resposta dos petistas é te acusar de ser do PSDB', diz Danilo Gentili
Wagner Moura faz severas críticas ao PT e avisa que deixará o país
Dias antes de morrer, José Wilker gravou vídeo criticando políticos brasileiros; assista
Rapper Eduardo, ex-Facção Central, faz duras críticas a Lula e Dilma; veja o vídeo
Paulo Coelho se diz decepcionado com Copa e detona Ronaldo: 'imbecil'
"Nunca tinha passado por uma traição e o PT me traiu", disse Irene Ravache
Jornalista acusa 'Black Blocs' de serem 'milícia informal montada pelo PT' e gera polêmica; veja vídeo
Em vídeo, universitários fazem juramento de nunca votar no PT; assista
PT processa blogueira que chamou partido de ‘quadrilha’ e pede R$50 mil por danos morais; veja vídeo que deu ensejo ao processo
PT censura, na Justiça, vídeo de nordestino que dá 'lição de moral' em Lula e Dilma
'Não votem no PT, não se deixem enganar!', gritam policiais federais em protesto; assista
Delegado se revolta e desabafa contra o PT; assista ao vídeo

Gostava do comunismo e gosto ainda hoje. Do lado bom, do lado utópico, do lado Ferreira Gullar, do lado Oscar Niemeyer do comunismo. Li “O capital”, mas repudio ditadores que não respeitam os direitos humanos. Revelou-se utópico, mas para mim antes utopia que acomodação ou o trabalho escravo do qual o capitalismo com tanta naturalidade lança mão.
Dada hora o PT trincou e acabou rachado. Começou a ter alas e facções demais e tornou-se, para meu gosto, excessivamente “partido”. Mesmo ligada à causa trabalhadora e filiada ao PT em Porto Alegre, sempre me senti mais ligada a quadros do que a agremiações. Já morando no Rio de Janeiro, fiz campanha voluntária à Presidência da República de Roberto Freire, pelo PCB, no primeiro turno nas eleições de 1989. Tinha 23 anos, liguei para o comitê e perguntei: “Posso ajudar?”. Seguia acreditando nas ideias do PT, votei em Lula no segundo turno e chorei dois dias de desgosto com a vitória de Fernando Collor. Passou o tempo, e o PT foi ficando cada vez mais dividido, pesado, paquidérmico, carregando alas divergentes que foram evidentemente minando a força interior do partido e sua chama. Tempos depois a ala radical do PT, de tão radical, chegou, por exemplo, a ser contra a candidatura pelo partido à Presidência da República de figuras migradas de outros partidos, caso da presidenta Dilma, oriunda do PDT. Não gosto de fanatismo. Fui deixando a cada dia de me sentir representada pelo PT. Não achei a escolha do cinismo boa opção. Não gostei de ver o Lula em palanques com Sarney e Paulo Maluf, que ele execrava nos mesmos palanques quando eles não estavam presentes, aquele PT não me representava mais.
O desmatamento aumentou. A nascente do Rio São Francisco secou. O governo não relaciona uma coisa à outra. O governo permanecerá no governo porque a cada eleição vai pagar carros com alto-falantes para circular pelas ruas das cidades mais pobres do Nordeste informando que a oposição, vencendo a eleição, vai acabar com o Bolsa Família. O povo tutelado, acuado. São inegáveis as boas coisas realizadas pelo PT, são transparentes, menos gente passa fome. Mas e essa confusão na Petrobras?

Veja também:
Danilo Gentili denuncia que PT usou calúnia contra sua mãe para se apoderar de instituição de caridade
Poeta Ferreira Gullar critica duramente o PT e a realização da Copa: 'Uma vergonha, tem razão quem protesta'
Danilo Gentili publica no Facebook severas críticas ao PT e gera grande repercussão
Danilo Gentili fala, no Facebook, sobre PSDB, PT e técnicas de militantes
Latino rejeita fazer música para Copa por ser contra PT
Fernando Gabeira diz que 'discurso do governo é 80% mentira e 20% malandragem'
'O PT usa técnicas nazistas para manipular', acusa Rachel Sheherazade; assista
'O que me irrita é o PT, a situação do país, a corrupção, a ineficiência', diz Bruno Gagliasso
'Mudamos de uma ditadura para outra, disfarçada de democracia', diz Roger, do Ultraje
Prefeito do PT que pintou quase toda a cidade de vermelho é punido
Ator diz que PT está instalando autoritarismo, populismo e quer o poder a todo custo; assista
'O PT está fazendo de tudo para levar o país ao caos social e à guerra civil', diz colunista sobre conflito com militares


A Educação em cujo país o lema do governo agora é “Pátria educadora” tem o responsável pela pasta definido no balcão de loteamento de cargos, um deboche, uma ofensa à memória de Paulo Freire e ao esforço das pessoas comprometidas com a educação no país, considero inaceitável, mas e daí? Quem sou eu? Apenas uma cidadã, que paga impostos, que é muitas vezes bitributada, que gera empregos, que para no sinal vermelho, ou seja, uma otária, que acredita em princípios éticos. Se o governo despreza a ética por que o povo seria ético? Mas eu não caio nessa. O chanceler escolhido pela presidenta para assumir o posto em Washington, com habilidades conhecidas para amenizar bilateralmente os ânimos, botar as coisas nos eixos e ajudar a promover a visita da presidenta aos Estados Unidos em setembro, já começa com um problema a resolver. O ministro foi empossado sem o aval dos EUA, uma formalidade a ser cumprida, já descumprida pelo governo brasileiro na largada, obrigando o primeiro ato do novo chanceler a ser uma quebra de protocolo. As primeiras ações do novo governo contradizem em tudo o que foi dito na campanha, a massa de manobra, massinha de modelar. Ai, cansa.
Quando um dos maiores tesouros do PT, a então senadora Marina Silva, deixou a legenda, eu já estava no Partido Verde. Agora não estou em lugar nenhum. Ou melhor, mudei-me para a desesperança. Serei alienada ou apolítica, que é melhor para mim do que ser amoral. Semana passada, juntando em caixas roupas, livros e coisas que não uso mais para doar, atirei num caixote de bugigangas aquela minha estrelinha vermelha do PT, o sonho acabou. Pode a militância entupir à vontade minha caixa postal com deselegâncias, eu sou vocês ontem. Hoje eu sou Charlie.

Veja também: 


Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...