terça-feira, 13 de janeiro de 2015

‘Eu era herói, hoje sou bandido’, diz capitão do exército sobre período militar


Imagem: Thomaz Fernandes / G1
O capitão Carlos Gomes da Silva vivenciou o golpe de 1964, que ele chama de revolução, como sargento em São Leopoldo (RS). Hoje na reserva depois de atuar em Presidente Prudente (SP), Piracicaba (SP) e Campinas (SP), ele crê que o fim da ditadura também provocou uma inversão de papéis no imaginário brasileiro. "Eu era herói e hoje sou bandido. E quem antes era bandido virou herói." O militar atua como vereador em Piracicaba.


Gomes não apoia grupos que pedem a volta da ditadura militar, mas crê que a história não mostra pontos benéficos da intervenção militar. "Não houve uma revolução, houve uma evolução, nós não podemos distorcer a história. Quando falam de tortura para mim, eu acredito que houve, mas nunca presenciei e nunca pratiquei. Minha preocupação sempre foi com a instituição militar."

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Atuando em um dos locais de maior tensão do golpe militar, Gomes recorda-se de ter sido chamado pelo comandante em São Leopoldo para anunciar o golpe. "Ele (o comandante) convocou todos e expôs a situação do país e perguntou a todos qual era o posicionamento. Alguns falaram que defendiam a Constituição, logo o presidente, e na minha vez eu disse que estava ali para seguir ordens. Uma parte foi para casa e eu fiquei."

'Melhor fase'

Integrado ao grupo de "revolucionários", ou golpistas, o capitão relatou ter feito viagens para defender pontos estratégicos do estado e acompanhado manifestações pró-golpe em Porto Alegre (RS). "Foi a minha melhor fase no Exército, pois eu entrei do lado certo sem saber, apenas para cumprir ordens."

Primeiro aluno durante o período de formação militar, vencedor de inúmeras medalhas em competições de tiro, condecorado com medalhas como as Estrelas de Bronze, Prata e Ouro por 30 anos de serviços prestados, a carreira de Gomes sempre foi ascendente e marcada pela atuação no Tiro de Guerra de diversos municípios.

'Fim do rancor'

Sobre o período em que os militares ficaram no poder, Gomes crê que há um rancor entre a população e o Exército oriundo do período. Avaliando a ditadura, ele crê que se Artur da Costa e Silva, presidente entre 1967 e 1969 que entrou para a história por promulgar o Ato Institucional Nº 5, tivesse convocado eleições a imagem do militarismo seria diferente.

"Havia um pensamento do general Costa e Silva de passar para a democracia. Se isso tivesse acontecido, o Exército, hoje, estaria sendo visto de outra maneira. Seria como poder moderador que colocou a casa em ordem e do tipo: 'estava desorganizada, organizei, mas continua sendo sua (povo).'"

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Revolução ou golpe?

Enquanto militares institucionalizaram a palavra revolução e a data oficial da tomada de poder em 31 de março, historiadores defendem que o ato foi um golpe militar e que aconteceu em 1º de abril. Gomes defende que o evento foi uma "revolução democrática". "A família conclamou a revolução. Articularam uma enormidade de gente na rua em uma época sem internet. E ninguém quebrou vidros ou amassou carros. Eu lembro de ter visto muitas mulheres e crianças à frente", disse.

Hoje afastado de suas obrigações militares, Gomes é vereador pelo PP. Como ocupante de um cargo eletivo, ele defende o voto. "Eu acho que não é por aí (golpe militar), tem que ter eleições, vá votar, cobre gente decente nos partidos. Militar tem que ficar no quartel."

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Thomaz Fernandes
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