sábado, 28 de fevereiro de 2015

Delator entrega à Lava Jato provas de propina na Diretoria de Serviços


Imagem: Reprodução / Veja
O primeiro delator da Operação Lava Jato entre o grupo de 11 operadores de propina na Diretoria de Serviços, o engenheiro Shinko Nakandakari, entregou à Justiça Federal cópias dos documentos que guardava sobre o pagamento de propina a Renato Duque, ex-diretor da área entre 2003 e 2012 – indicado para o cargo pelo ex-ministro José Dirceu – e seu ex-braço-direito Pedro Barusco.

São cópias de e-mails trocados por ele com executivos da empreiteira Galvão Engenharia – uma das 16 acusadas de cartel pela Lava Jato – com orientações de propina, discussões de contratos e registros em contabilidade paralela de valores pagos no esquema de corrupção na Petrobrás.

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Em dois e-mails recebidos por Shinko, em meses distintos de 2009, um diretor da Galvão enviou ao operador de propina na estatal petrolífera uma planilha anexada com o nome “CONTROLE DE MEDIÇÕES – RECEBIDO”. O documento tem seis colunas.

Imagem: Reprodução


As duas últimas de “%” e “Valor devido” registram “todos os valores e percentuais de propina que deveriam ser pagos, separados por obra”, explicou Shinko. São ao todo oito tabelas diferentes no documento, referente cada uma a um contrato.

A que tem o maior valor de propina é a de um contrato no Gasoducto Caiúnas-Reduc: R$ 1,6 milhão em propina, referente a 1,5% dos valores pagos pela Petrobrás à Galvão entre agosto de 2008 e maio de 2009. Há propina ainda em três contratos nas obras do Complexo Portuário e Industrial do Pecém, no Ceará, na Refinaria Landulpho Alves, na Bahia, no Gasoduto Cacimbas-Catu (Gascac), entre a Bahia e o Espírito Santo, no Gasoduto Japeri-Reduc, no Rio, e no Terminal Aquaviário de Ilha Comprida.

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Shinko é importante figura para a Lava Jato elucidar como atuou os indicados do PT no esquema de corrupção na Petrobrás. Ele afirmou em sua delação premiada, no dia 19, que entregou dinheiro “em espécie diretamente” a Duque e a Barusco, que era gerente de Engenharia e uma espécie de contador e operador da propina do chefe.

Contratado a partir de 2008 pela Galvão para “facilitar” a entrada da empreiteira no cartel que atuava na Petrobrás, segundo ele afirma, Shinko apontou que repassou R$ 5,4 milhões de propina da empreiteira por contratos da Diretoria de Serviços. Apresentou parte das notas usadas também para receber os valores, por uma empresa em nome de dois filhos.

Codinomes. Outro material revelador para os investigadores da Lava Jato entregue por Skinko são cópias dos e-mails trocados com um ex-diretor da Galvão. Neles, os dois “tratavam de valor que iriam ser pagos a Renato Duque e Pedro Barusco, para que concordassem com os aditivos que seriam celebrados entre a Galvão e a Petrobrás”.

Num dos casos, os dois tratam de “aditivos” nas obras do Complexo Pecem”. “As aprovações no Jurídico e Diretoria serão monitorados diretamente pelo ZÉ com apoio do João”.

As expressões “nosso amigo” e “Zé” usadas nos e-mails referem-se a Pedro Barusco. “Nobre” e “João” eram as formas usadas para falarem de Renato Duque.

No conteúdo dos e-mails, Duque, Barusco e os registros de propina são dissimulados com uso frequente de codinomes e expressões codificadas.

Sob o risco de ser preso como outros acusadores de operarem propina na Petrobrás, Shinko decidiu colaborar e decodificou o material, entregue à Lava Jato.

Em um dos e-mails, de 9 de março de 2009, Shinko e o ex-diretor de Óleo e Gás da Galvão Luiz Augusto Distrutti falam sobre processos de licitação que saíram em três unidades da Petrobrás, entre elas a Replan, em Paulínia (SP).

Imagem: Reprodução


A “influência de Zé/João” nos processos “é grande”, explica Shinko – amigo de longa data de Barusco e de outro operador da área de Serviços, Mário Góes.

No mesmo e-mail, Shinko escreveu: “O Zé comentou que a última contra-partida foi com relação ao recebimento de Novembro/2008 e informou-me que é muito importante a eliminação da defasagem, segundo a mesma linha da CNO e QG”.

Shinko afirmou que os dizerem “os diretos de Dezembro/2008”, “programar JANEIRO/2009” e “FEVEREIRO/2009”, significam pagamento de propina. Em outros dois e-mails dos dias 6 de março de 2009 e 2 de abril de 2009, os dizeres são repetidos. Shinko entregou cópias desses e-mails.

As siglas são identificadas por outros dois delatores – Júlio Camargo e Augusto Ribeiro – como as abreviações de Construtora Norberto Odebrecht e Queiroz Galvão – duas outras empreiteiras acusadas de cartel na Lava Jato. As duas negam relação com o esquema de corrupção e cartelização.

Shinko é alvo de um inquérito específica da Lava Jato e é importante figura para revelar os esquemas de corrupção na Diretoria de Serviços.

Em sua delação, ele afirmou que Duque recebeu propina em mãos em dois restaurantes em hotéis de luxo, em Copacabana e Ipanema, no Rio. “R$ 1 milhão, no período de julho de 2011 e março de 2012, (foi) entregue em espécie diretamente a Renato Duque.”

COM A PALAVRA, A DEFESA

Por meio de seu advogado, o ex-diretor de Serviços Renato Duque nega o recebimento de propina, “jamais tendo mantido relacionamento ilícito com o senhor Shinko Nakandakari”.

O advogado Renato Moraes, defensor do ex-diretor, declarou que seu cliente está “à disposição das autoridades competentes para prestar os esclarecimentos necessários sobre sua gestão à frente da Diretoria de Serviços da Petrobrás”.

A Galvão Engenharia informou que “os pagamentos feitos (a Shinko) resultaram de prática de extorsão e concussão, conforme relatado às autoridades competentes”. Segundo a Galvão Engenharia, por meio de sua assessoria de imprensa, “o sr. Shinko Nakandakari nunca foi funcionário da empresa”.

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Ricardo Brandt e Fausto Macedo
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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