sábado, 28 de março de 2015

“Ver a Dilma sangrar não tem preço”


Imagem: Alberto Wu/Futura Press
Na CPI da Petrobras, os tucanos e a ala rebelde do PMDB lutam para que a Comissão centre seu foco no PT e – especialmente – na presidente Dilma Rousseff. Os principais cargos na CPI foram ocupados por oposicionistas. O presidente é o deputado Hugo Motta, do PMDB, afilhado político do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. O vice-presidente é o tucano Antônio Imbassahy, um dos principais líderes da oposição (oficialmente, os tucanos trabalham contra o impeachment e pela “legalidade”. Na prática, querem ver sangue). Maioria na liderança da Comissão, a brigada anti-PT armou uma estratégia, inspirada no nome de uma bandeira de cartão de crédito (“Ver a Dilma sangrar não tem preço”, diz um dos integrantes do grupo). A ideia é concentrar os depoimentos em três personagens ligados ao PT: Renato Duque, ex-diretor da Área de Serviços da Petrobras, indicado pelo ex-ministro José Dirceu; João Vaccari, tesoureiro do partido, não se sabe até quando; e Ricardo Pessôa, presidente da construtora UTC, apontado em delações premiadas como coordenador de um “clube da propina”.

Duque já depôs. Ou melhor, ficou calado. Para forçá-lo a falar, dois integrantes da brigada anti-PT apresentaram requerimentos no dia 19 de março para ouvir a mulher de Duque, Maria Auxiliadora Tibúrcio. A ideia é pressionar Duque a assinar a delação premiada. A convocação de Vaccari foi aprovada na semana passada, junto com a de Luciano Coutinho, presidente do BNDES, e mais 14 pessoas, sendo a maioria ligada ao governo. Denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção e lavagem de dinheiro, Vaccari será submetido a uma longa sabatina. “Nosso objetivo é mirar no Vaccari para acertar na Dilma”, diz um parlamentar. Quando a convocação de Vaccari foi aprovada, alguns deputados ligados ao PT tentaram chamar os tesoureiros de todos os partidos. Não conseguiram. Os petistas também queriam ampliar a investigação para governos anteriores. Também foram derrotados – a CPI se debruçará apenas sobre fatos ocorridos entre 2005 e 2015.

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Os representantes do governo esboçaram reação na última semana, quando ameaçaram convocar operadores do esquema de corrupção na Petrobras. Entre os nomes que foram aventados estão o de Fernando Soares, o Baiano, e o do policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, conhecido como Careca. O objetivo era que a presença desses lobistas na Comissão pudesse, de uma forma ou de outra, mudar o foco do noticiário para o PMDB e o PSDB. Baiano é apontado em delações premiadas e por investigadores da Lava Jato como o operador do PMDB. Se falasse, poderia implodir a liderança do Congresso. Em mais uma vitória, o PMDB, coordenado por Cunha, conseguiu barrar a convocação de Fernando Baiano na semana passada.

Discretamente, a CPI acelerou a contratação por R$ 1 milhão da empresa americana de investigações Kroll, indicada pelo presidente da CPI, Hugo Motta, sob o aval de Eduardo Cunha. A maior empresa de coleta de dados de inteligência do mundo entrou na lista negra do PT por ter se envolvido num episódio de espionagem durante o governo Lula. Segundo ÉPOCA apurou com membros da CPI, o foco da Kroll será seletivo. A empresa está incumbida de rastrear, no exterior, principalmente as contas e os bens de petistas ou operadores ligados ao PT. Procurada, a Kroll não se manifestou. Incomodados, alguns deputados do PT vão pedir para ter acesso ao contrato assinado com a Kroll – e questionar a escolha unilateral da companhia.

Na guerra em que a CPI se transformou, os dois lados concordam em apenas dois pontos. Um é a preservação das grandes empreiteiras. Até agora, nenhum executivo das companhias responsáveis pelas maiores obras do país – e notórios financiadores das campanhas eleitorais – foi convocado na CPI da Petrobras. No Congresso, é consenso que quem “tocar nesse fio desencapado poderá ser eletrocutado”. Há também um acordo para não convocar os parlamentares relacionados na lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviada ao Supremo Tribunal Federal no início de março. Isso poderia causar uma explosão de grandes proporções no Congresso. E, como se viu até agora, o objetivo de situação e oposição é cuidar para que a bomba caia do outro lado da cerca.

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Thiago Bronzatto 
Época
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