terça-feira, 26 de maio de 2015

Registros contradizem versão de Cunha para requerimentos investigados na Lava Jato


Imagem: Beto Barata/Folhapress
Levantamento nos arquivos eletrônicos da Câmara dos Deputados coloca em xeque o argumento apresentado pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para negar sua relação com dois requerimentos de informação que teriam sido usados para achacar empresas fornecedoras da Petrobras.


A ligação do deputado com esses papéis é um dos principais elementos apontados pela Procuradoria-Geral da República para incluir Cunha entre os políticos suspeitos de participação no esquema de corrupção descoberto pela Operação Lava Jato na estatal.

Os requerimentos foram apresentados na Câmara em 2011 pela então deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), correligionária de Cunha. Eles pediam às autoridades informações sobre contratos da Petrobras com a Mitsui.

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O doleiro Alberto Youssef, um dos principais delatores da Lava Jato, disse à Justiça que os requerimentos foram apresentados a mando de Cunha e teriam o objetivo de pressionar um representante da empresa a retomar pagamentos de propina ao PMDB.

Cunha disse num primeiro momento que não tinha nada a ver com os requerimentos. Em abril, a Folha revelou que o nome "dep. Eduardo Cunha" aparece como autor dos arquivos de computador em que eles foram redigidos.

A partir de então, o peemedebista passou a dizer que assessores seus podem ter sido usados para redigir os documentos, já que seu gabinete era frequentemente requisitado por deputados do PMDB do Rio, especialmente novatos, como Solange na época.

Na semana passada, a Folha analisou todos os 443 requerimentos apresentados pelos 13 deputados do PMDB do Rio que exerciam mandato em 2011. Com exceção dos que o próprio Cunha apresentou e dos dois de Solange, nenhum outro exibe o nome do deputado como seu autor.

ASSESSORES

Na maioria dos casos, figura como autor do arquivos, normalmente produzidos no processador de textos Word, o ponto ou os nomes de assessores dos respectivos gabinetes. Em vários dos casos, o registro está em branco ou sem identificação individual, de acordo com o levantamento.

Cunha havia dito que uma assessora sua prestaria serviços nas comissões da Câmara para outros deputados do PMDB fluminense. Uma auxiliar de Cunha, Maria Claudia de Vasconcelos Batista Medeiros, aparece como autora de requerimentos de outros peemedebistas, mas sempre com o seu nome. Ou seja, usava o seu próprio ponto e senha para acessar o sistema.

A expressão "dep. Eduardo Cunha" só apareceria com o ingresso no sistema digital do ponto e da senha pessoal e intransferível de Cunha. O presidente da Câmara afirmou que passava sua senha para os assessores usarem.

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Neste domingo (24), o jornal "O Globo" revelou que Cunha também aparece nos registros eletrônicos da Câmara como autor de um requerimento apresentado pelo deputado Áureo Ribeiro (SD-RJ) em 2011, um pedido de informações sobre uma licitação do Instituto Militar de Engenharia, ligado ao Exército.

OUTRO LADO

O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) voltou a negar ter relação com os requerimentos de informação investigados pela Operação Lava Jato e afirmou que os assessores de seu gabinete costumavam usar sua senha na época em que eles foram redigidos.

Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, um auxiliar pode ter feito os requerimentos apresentados em 2011 pela então deputada Solange Almeida (PMDB-RJ).

Cunha disse também que não vê relevância na constatação de que os requerimentos suspeitos são os únicos a trazerem o seu nome –com exceção de papéis reconhecidamente elaborados pelo gabinete do deputado federal.

"Se foi alguém da minha assessoria, pode ter feito com a minha senha. Não vejo nenhum problema. Ou já aproveitou um computador aberto na minha senha para fazer o trabalho", afirmou Cunha.

O deputado acrescentou que pessoas da sua equipe "usavam a senha para poder trabalhar nas minhas coisas que têm a obrigação da senha". Cunha disse que a assessora Maria Cláudia Medeiros era uma das que trabalhavam com sua senha pessoal.

Questionado sobre requerimentos apresentados pelo deputado Áureo Ribeiro (SD-RJ), que também parecem ter sido feitos em seu gabinete, como revelado pelo "O Globo", Cunha repetiu o argumento. "Pode, ao exemplo da Solange, ter sido a assessoria do meu gabinete. Acabariam tendo minha senha", disse.

Cunha afirmou ainda que esses casos reforçam a importância do recente ato baixado pela mesa diretora da Câmara para disciplinar o uso das senhas dos deputados.

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Folha de S. Paulo 
Editado por Folha Política
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