quarta-feira, 17 de junho de 2015

Lula agia em favor de empreiteiras, mostram documentos do Itamaraty


Imagem: Reprodução / DP
O então presidente Lula e seu colega argentino Nestor Kirchner fizeram "uma intervenção decidida" para ajudar a empreiteira Odebrecht a se associar a uma firma argentina com vistas à construção de uma hidrelétrica no Equador.

A informação consta em telegramas de embaixadas brasileiras e do Itamaraty entre 2003 e 2010, material que expõe a ação do governo brasileiro em benefício de empresas brasileiras como forma de ampliar a influência política e econômica do país.

Diplomatas atuaram para ajudar algumas das principais empresas hoje investigadas na Operação Lava Jato.

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Em 2005, o embaixador brasileiro em Quito (Equador), Sergio Augusto de Abreu e Lima Florêncio Sobrinho, comemorou a ação direta de Lula e Kirchner em prol de uma demanda da Odebrecht, que procurava se associar à empresa argentina IMPSA.

Ele escreveu ao então chanceler Celso Amorim: "Estou seguro de que a flexibilização na postura da IMPSA e a aceitação, por parte da empresa argentina, da proposta de texto elaborado pela Odebrecht não teriam sido possíveis sem a intervenção decidida de Vossa Excelência e dos presidentes Lula e Kirchner".

Sem a concordância da IMPSA, que o embaixador chamou de "intransigente", a Odebrecht não conseguiria assinar um memorando que lhe permitiria participar de uma concorrência para construir a hidrelétrica de Toachi-Pilatón. Segundo os telegramas, a obra estava orçada em "US$ 366 milhões, mas o custo total do projeto é estimado em US$ 452 milhões".

Em outubro de 2007, mostram telegramas, a Odebrecht conquistou o contrato para construção da hidrelétrica, que seria financiada com recursos de um fundo governamental. Em 2008, depois de divergir com o governo local, a empresa deixou o país.

Em 2005, numa conversa sobre a construção da rodovia Interoceânica entre membros do governo do Peru e o embaixador brasileiro em Lima, uma assessora da Câmara de Comércio Exterior rebateu críticas sobre as dificuldades de financiamento para a obra. As condições "em termos muito mais favoráveis que as de mercado [...] somente puderam ser obtidas com base em negociações políticas, no mais alto nível, entre governos", argumentou.

Documentos da embaixada em Argel (Argélia) deixam explícita a estratégia: o governo brasileiro se oferecia para interceder a favor de firmas brasileiras em licitações. Naquele país, o método ajudou principalmente a Andrade Gutierrez e a Odebrecht.

Em 2006, o embaixador Sérgio França Danese relatou ter dito a interlocutores da Odebrecht que poderia mostrar às autoridades argelinas "as vantagens políticas de contar com empresas brasileiras".

"Será a forma de viabilizar o entendimento, oferecido pelo presidente Bouteflika e reiterado pelo chanceler Bedjaoui, de que a Argélia aplicaria também parâmetros políticos para favorecer empresários brasileiros em alguns projetos abertos a licitação internacional", informou o embaixador.

Em outro telegrama, ele cita novamente a ajuda política que o Brasil poderia dar em uma licitação de obra de irrigação no sul do país.

"Se pudermos contar com a participação de duas empresas brasileiras, do porte e com a categoria da Andrade Gutierrez e da Odebrecht, nessa concorrência, certamente teríamos mais chances de fazer valer uma influência política numa decisão que favoreça o Brasil, considerando-se o compromisso assumido nesse sentido pelo presidente Bouteflika junto ao presidente Lula."


OUTRO LADO

A assessoria do Instituto Lula informou que não comentaria porque não teve acesso aos documentos.

Diretor do Departamento de Promoção Comercial e Investimentos do Itamaraty, Rodrigo Azevedo afirmou que uma das principais funções de sua área é colaborar para a expansão das empresas brasileiras no mercado internacional. Disse que não há privilégio a nenhum grupo e que seu departamento existe há 50 anos.

Azeredo disse ainda que há um site –www.brasilexport.gov.br – em que são divulgados estudos de inteligência comercial e oportunidades de licitações internacionais.

"Quando temos conhecimento de uma oportunidade de licitação, informamos empresas e associações daquele setor", explicou Azeredo.

A Andrade Gutierrez informou que não iria se manifestar.

A Odebrecht; afirma que os fatos descritos nos telegramas estão "no âmbito da missão dos serviços diplomáticos de todo e qualquer país do mundo. 

Veja também: 

     

Aguirre Talento, Gabriel Mascarenhas e Rubens Valente 
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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