sábado, 13 de junho de 2015

'O PMDB não repetirá a aliança com o PT', diz Cunha


Imagem: Dida Sampaio / Estadão
Diante das ameaças de isolamento do vice-presidente e articulador político do governo Michel Temer por integrantes do Planalto, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), avisa: “Qualquer tentativa de sabotagem do Michel acabará em ruptura”.

Em entrevista ao Estado, Cunha admite rusgas com Temer, mas promete solidariedade e ameaça antecipar o desembarque do PMDB do governo. “O PMDB dificilmente repetirá a aliança com o PT. Este modelo está esgotado.” Ele cobra “adesão” do PT ao governo Dilma Rousseff e atribui ao partido a impopularidade da presidente. Sobre críticas de aliados e opositores, diz preferir ser “ditador” a “frouxo”. Ao receber a reportagem em seu gabinete na noite de quinta-feira, Cunha comentou a cor verde da gravata que usava. “A esperança é a última que morre. Mas ela morre.”

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O senhor classifica o PMDB como governista ou oposicionista?
O PMDB fez parte do processo de reeleição, faz parte do governo. Mas não é para dizer amém a tudo o que acontece. E o PMDB dificilmente repetirá a aliança com o PT em algum momento. Não repetirá. 

Por quê? 
Porque este modelo PMDB com o PT está esgotado. Temos obrigação de dar sustentabilidade política para o governo dela (Dilma Rousseff). Mas o PMDB vai buscar o seu caminho em 2018. Não vejo o PMDB de novo numa candidatura do PT. 

O senhor prevê um distanciamento agora em 2016? 
Em algumas capitais, sem dúvida. 

Como está a relação da Câmara com o governo depois da entrada de Michel Temer na articulação? 
É muito melhor. O que vejo aqui, pelo cheiro no corredor, é que há ainda problemas com a própria base e com o governo. Vejo nitidamente que há uma tentativa de sabotagem do PT ao Michel dentro da articulação. Não tenho dúvida nenhuma disso. E isso é um tiro no pé, porque a condição, quando levaram o Michel, era que, justamente, você não vai demitir o vice. Qualquer tentativa de sabotagem do Michel acabará em ruptura. 

Essa tentativa é algo pontual dos ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Jaques Wagner (Defesa)? 
Não atribuo nomes. Só sinto o cheiro no ar. A fábrica do perfume cabe a vocês pesquisar. 

Mas e esse episódio recente deles se colocando em relação à Secretaria de Relações Institucionais, assumida por Temer em abril? 
Havendo ruptura desse processo com o Michel, haverá ruptura do PMDB com o governo. Isso é inevitável. Na hora em que o Michel for sabotado e confrontado no processo, deixar o comando da articulação política, da qual ele não pediu para ser, não tem razão nenhuma de o PMDB ficar no governo. 

Um eventual enfraquecimento de Temer significa um fortalecimento seu?
Pelo contrário. Ficarei solidário ao Michel e partirei para defender o rompimento em conjunto. Não sou adversário do Michel, nem confronto o Michel. Sou aliado dele. Posso ter, eventualmente, as minhas rusgas, mas é fruto da amizade. Mas jamais tivemos qualquer gesto de afastamento ou deslealdade.

No próximo Congresso do PMDB, o Rio vai ter candidato a presidente do partido?
Não é esse o caso. O PMDB pode abraçar uma tese qualquer do Rio, mas não existe disputa. Pelo contrário, se você pode ter uma candidatura como a do Eduardo Paes (prefeito do Rio) para presidente da República, você não vai partir para o enfrentamento partidário. Você quer unir, e não dividir. 

O senhor é a favor da permanência do Michel Temer no comando do PMDB? 
Depende muito de ele querer. Ele querendo pode ser uma maneira de evitar dez candidaturas. O Michel não é um obstáculo a uma mudança. Michel está cumprindo o ciclo dele de vice-presidente da República por dois mandatos. Ele não é candidato a presidente da República. Não faz um trabalho voltado para isso. Se o fosse, poderia ter o apoio de todo mundo do partido, mas não é. 

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A presidente Dilma consegue recuperar a popularidade? O ajuste fiscal ajuda ou atrapalha? 
Você sofre o desgaste da contestação do que você prometeu na campanha eleitoral e faz diferente no exercício do governo. Isso gerou uma contestação que levou a uma continuada perda de popularidade, agravada pelo processo das denúncias generalizadas de corrupção e pela situação da economia, que deu uma deteriorada. Tenho impressão de que ela (impopularidade) chegou ao ápice. Depois, a tendência é recuperar. 

Essa recuperação vem agora? 
Para ela melhorar os níveis de popularidade depende de três fatores: conseguir recuperar a economia, ter uma estabilidade política e precisa, efetivamente, mostrar ações. Dependendo do sucesso ou insucesso desse conjunto, ela poderá recuperar mais ou menos. 

A presidente disse ao ‘Estado’ que “o Congresso, até agora, não se caracterizou por dar uma derrota ao governo”. Ela tem razão? 
O governo, efetivamente, não sofreu derrotas contundentes, mas, obviamente, o governo não teve os resultados das votações em sua plenitude, na forma que esperava. Quando o governo entra em pautas que não são propriamente dele, como o caso da (redução) da maioridade penal, faz disso um cavalo de batalha, comete um erro. O governo quis mergulhar em algumas derrotas propositalmente. O governo pode até ter opinião, mas não pode atuar no processo. Veja o absurdo o governo querer constituir uma aliança de PT com PSDB para derrotar o PMDB porque eu anunciei a pauta. E, o que é pior, de uma forma inócua porque vou votar a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do mesmo jeito. Às vezes, é um conflito absolutamente desnecessário. 

Quem ‘mergulha’ o governo em derrotas? O próprio governo ou o PT?
Essa é uma pergunta que você deve fazer ao governo. Às vezes, o governo mergulha na pauta do PT. É um erro. 

O senhor concorda com a tese de que o regime vigente no Brasil é o “parlamentarismo branco”, e não o presidencialismo? 
Acho que o regime que deveria estar vigente no Brasil é o parlamentarismo, com as figuras do chefe de Estado e do chefe do governo. O parlamentarismo, do meu ponto de vista, protege o sistema político como um todo porque, numa crise política qualquer, cai o governo e não cai o Estado. Nossa Constituição foi feita para ser parlamentarismo. 

Há risco de a presidente Dilma acabar isolada, sem apoio do PT? 
Acho que não. O instinto de sobrevivência vai preservar. Por mais que ele pinte e borde, o governo é o governo deles. Se eles a isolarem, vão ficar com que governo? Não vão ser oposição ao governo que elegeram. É uma circunstância difícil.

Pode haver uma tentativa de deslocar a imagem do governo e do PT.
Vejo que a rejeição ao PT é muito maior que a ela (Dilma) na rua. Grande parte da impopularidade dela vem da impopularidade do PT. Não é o PT que está com impopularidade por causa dela. 

E a proposta de reeleição para presidente da Câmara? 
Não parte de mim.

Mas tem o seu apoio? 
Não se vê um gesto meu nesse sentido. Não me elegi para um mandato que não fosse para o qual a Constituição não me desse o direito. Então, não tenho que alimentar esse tipo de especulação. 

Mas obtendo assinaturas para a PEC, vai colocar para votar? 
É um constrangimento para mim. Primeiro, conseguir assinaturas tem um longo caminho pela frente. Não tenho nenhum atrativo para mudar uma regra que possa me beneficiar diretamente. Até acho que vão sentir saudades de mim depois que eu sair. (risos) 

Muitos deputados o chamam de ditador e dizem que o senhor tem um estilo de rolo compressor... 
Pior se eu fosse frouxo, não é? (risos). Aí, não se votava nada.

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Daniel Carvalho e Erich Decat
O Estado de S. Paulo
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