sexta-feira, 24 de julho de 2015

Economista que rebaixou nota do Brasil dispara: "é uma questão de tempo para a Moody's fazer o mesmo"


Decisão do governo de reduzir meta de superávit fiscal foi apenas
a cereja do bolo para a Austin Ratings
Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil
O pessimismo do mercado e das agências de classificação de risco com relação ao futuro da economia brasileira é fruto do que tem sido executado nas últimas gestões. O autor da frase é Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, agência de classificação de risco que acaba de rebaixar a nota de crédito de longo prazo do país, em escala global, para BB+. Em entrevista ao InfoMoney, Agostini descartou o fato de a decisão ter sido consequência direta do anúncio do governo, feito na noite anterior, de reduzir a meta de superávit fiscal de 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto) para 0,15% neste ano.

"Não tem peso maior que todos os demais indicadores listados. Há cerca de dois meses, nós já havíamos discutido a necessidade de rever em junho o rating do Brasil", afirmou o economista. No entanto, a decisão foi postergada por conta do aguardo, à época, de uma definição do TCU (Tribunal de Contas da União) sobre o encaminhamento de parecer favorável ou não das contas do governo referentes a 2014. Ontem, o governo entregou à entidade um relatório com explicações para 13 irregularidades apontadas pelo relator Augusto Nardes. A defesa ainda será analisada pelo TCU, que deverá votar pelo encaminhamento de recomendação pela aprovação ou rejeição das contas ao Congresso na segunda metade de agosto.

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Foi o aparecimento de um novo episódio de impacto político e econômico, sobretudo no âmbito fiscal, que motivou a decisão da Austin Rating não aguardar o desenrolar da discussão sobre as contas do governo e já informar seus clientes que cortou a nota brasileira. Segundo Agostini, a nova sinalização da gestão da presidente Dilma Rousseff foi um fator suficiente para provocar, em conjunto com todos os elementos analisados, um agravamento do cenário e a consequência no downgrade, com a perspectiva futura se mantendo estável - mas também pode ser alterada a depender do desenrolar das coisas no TCU, conforme o economista já avisou.

"Para nós, a leitura é que o governo reconhece que não há mais margem de manobra para fazer redução de despesas, assim como não há muito mais espaço para o aumento de receitas com impostos, já que a economia está em desaceleração", observou. Na avaliação do especialista, a situação das contas públicas já vinha se deteriorando há um tempo. "Apesar de o governo ter tido um choque de credibilidade com a entrada do [ministro da Fazenda Joaquim] Levy (e o consequente momento de otimismo dos mercados), essa realidade demonstra que o governo terá muito mais dificuldades para reduzir seu endividamento. Não adianta colocar o Levy, porque o governo não tem hoje capital político para aprovar o ajuste", completou.

Para Agostini, o anúncio de ontem mostrou que "o governo jogou a toalha, neste momento, quanto à questão do ajuste fiscal" e o rebaixamento é apenas uma consequência de todo o cenário que se desenhou. O economista ainda alerta para a possibilidade de outras agências de classificação de risco maiores seguirem a mesma tendência. "Olhando para a metodologia das agências, eu não vejo outra saída senão rebaixar a nota do Brasil. É uma questão de tempo para a Moody's fazer o mesmo", projetou.

Segundo ele, a falta de indicadores (as projeções sobre inflação seguem elevadas, o ajuste fiscal teria dado sinais de dificuldades para novas conquistas, as contas externas seguem preocupando e o PIB deve apresentar desempenho negativo) que apontem para uma reversão de cenário justifica uma visão mais cética das agências. Já que a avaliação atual da Moody's para o Brasil é de rating "Baa2" - dois degraus acima do território especulativo - e perspectiva negativa, qualquer alteração para baixo culminaria na redução de um degrau da nota.

Caso isso ocorra, os prejuízos estimados para o Brasil são grandes - e esse vinha sendo o próprio argumento usado por Joaquim Levy para convencer deputados e senadores da necessidade de se aprovar as medidas do ajuste. "Uma redução de rating colocaria em dúvida a capacidade de o país honrar seus pagamentos aos investidores", disse Agostini. Isso dificultaria ainda mais o processo de recuperação da economia brasileira, já que inibiria o fluxo de investimentos estrangeiros qualificados, de longo prazo, para o país.

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Marcos Mortari
Infomoney
Editado por Folha Política
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