domingo, 30 de agosto de 2015

"Está fazendo aquilo que todo juiz deveria fazer e não faz", diz Joaquim Barbosa sobre Sérgio Moro


Imagem: Reprodução / Caldeirão Político
Convidado como o principal palestrante da Expoagas 2015, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa expôs a um auditório lotado, na manhã desta quinta-feira, em Porto Alegre, sua leitura sobre como a política brasileira se encaminhou para o estado atual: "um cenário de fraude, engodo e violação de leis", como define.


Para o jurista, a corrupção tem como base uma sociedade desigual, o exercício de cidadania muito recente, trocas de favores na esfera pública e a "promiscuidade" que está na raiz da relação entre a política e o poder econômico. No pacote de fatores elencados, não escapou ainda uma alfinetada no Judiciário. Ao ser questionado sobre a atuação do juiz Sérgio Moro, que conduz as ações da Operação Lava-Jato, o ex-ministro fez um elogio breve:

— Está fazendo aquilo que todo juiz deveria fazer e, lamentavelmente, não faz.

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Em sua fala de pouco mais de meia hora, interrompida diversas vezes por aplausos que tomavam conta do Teatro do Sesi, na Fiergs, Barbosa falou da história do Brasil e citou a "estadania" como principal elemento para a sujeira que se entranha na política no país.

—  A corrupção sistêmica é causada por essa mescla entre empreendedorismo econômico e, ao mesmo tempo, recebimento de vantagens financeiras da parte do Estado. (...) A dependência excessiva de benefícios empresariais concedidos pelo Estado corrompe completamente a lógica do sistema público capitalista, a começar pelos próprios pilares, que são os princípios da concorrência e da livre iniciativa — argumentou Barbosa.

A partir da aproximação com o governo, empresas buscam privilégios econômicos. Por sua vez, a partir da proximidade com o setor privado, a máquina pública pretende conquistar o financiamento. É o processo que o ex-ministro chamou de "toma lá, dá cá":

— Políticos naturalmente querem se eleger e se perpetuar nos cargos para os quais são eleitos. Já os empreendedores, nessa relação promíscua, com esse tipo de financiamento, querem subsídios, como uma espécie de dopantes que os ajudem a tirar a concorrência do seu caminho. Essa dinâmica perversa precisa urgentemente ser extirpada da vida pública brasileira.

Aplaudido a cada intervalo, o relator do processo do mensalão no STF disse ainda haver uma "nuvem de silêncio hipócrita" no país quando o assunto é a troca de vantagens dentro da esfera pública.

— Todos sabem qual a motivação das cúpulas dos partidos políticos quando, sem o menor pudor, pressionam o Executivo para que este nomeie representantes seus para cargos estratégicos na administração pública. Mas, no debate público atual, existe uma nuvem de silêncio hipócrita sobre o assunto, (...) porque os próprios chefes do Poder Executivo pertencem a essa mesma engrenagem, cresceram politicamente graças a esses mesmos métodos nocivos ao interesse público e, muito provavelmente, devem pensar que não há outra solução — criticou.


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Após direcionar a narrativa para uma problema que quase sempre se apresenta como sem saída, a corrupção, Barbosa pediu que a plateia do Teatro do Sesi não tomasse suas palavras com pessimismo:

— Devemos reconhecer que a busca por uma sociedade mais justa, em que todos tenham condições de buscar os seus objetivos pessoais, é um eterno trabalho de construção. A meu ver, as nossas instituições evoluíram e hoje estão estruturadas para assegurar estabilidade e um mínimo de certeza, mesmo em situações de aparente crise política ou econômica, como é a que vivenciamos neste momento.

Em um curto bate-papo após a palestra, dentro da programação do evento, o jornalista Rogério Mendelski, da Rádio Guaíba, questionou o ex-ministro sobre a possibilidade e se candidatar à Presidência da República. Barbosa riu e disse que "até que demorou" para a indagação vir.

— A minha contribuição com a vida pública brasileira já se esgotou. Já passou o meu tempo. E eu não me ajustaria ao modo como a política é feita no país — respondeu, sob aplausos. E complementou: isso tem que ser mudado.

— O senhor mudaria! — gritou alguém da plateia.

— Uma andorinha só não faz verão — finalizou o ex-ministro.

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Bruna Scirea
Caldeirão Político
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