sábado, 21 de novembro de 2015

'Consultor' que emprestava sala para filho de Lula é preso após 30 anos de lobby


Imagem: Pedro França/Agência Senado
Na última quinta-feira (19), o lobista Alexandre Paes dos Santos, 61, entrou mudo e saiu calado da CPI do Carf, investigação sobre irregularidades no conselho do Ministério da Fazenda que julga recursos contra multas da Receita.

APS, como é conhecido, está preso desde o final de outubro, a primeira vez em mais de 30 anos de atividade de lobby em Brasília que se vê atrás das grades. Cerca de um mês antes de ir para a cadeia, ele recebeu a Folha, quando disse estar convicto da fragilidade das provas contra ele na Operação Zelotes.


"Não tem nada, não tem nada", repetiu várias vezes. A acusação principal contra APS é a venda de medidas provisórias em benefício do setor automotivo. Não é a primeira polêmica em que é envolvido –pelo contrário.

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Em 2001, a Polícia Federal apreendeu uma agenda em seu poder com o nome de vários deputados federais e valores acompanhados da letra "K" (significando "mil"). Para a PF, tratava-se de uma lista de propinas. O escândalo foi um golpe nos negócios de APS, então em pleno vapor com grandes clientes como Carrefour, Johnson & Johnson e McDonald's.

Em 2006, ele voltou ao noticiário ao confirmar para a revista "Veja" que cedia uma sala do escritório que construiu no Lago Sul para um dos filhos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luis, trabalhar quando estivesse em Brasília.

No início de 2015, a PF listava oito indiciamentos de APS por suspeitas diversas como tráfico de influência e corrupção ativa.

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Natural do Rio, APS chegou a Brasília nos anos 70 e abriu um escritório de lobby. À Folha disse que sua consultoria "é institucional" e "representa clientes, associações de classe, empresas privadas, junto ao governo e outras entidades".

Fernando César Mesquita, ex-diretor de comunicação do Senado ligado ao ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), disse que APS, de quem se declara amigo, foi "realmente o grande lobista, com mais de 50 empresas [como clientes]. E era uma grande fonte de informações de jornalistas. Porque ele transitava nessa área empresarial e sabia de tudo".

APS se recusa a fornecer os nomes dos seus clientes. A Folha confirmou um, a ABDIB (Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base), que representa bancos e empreiteiras e pagou R$ 20 mil mensais de 2009 a 2014 para "consultoria parlamentar junto ao Congresso Nacional abrangendo o acompanhamento das propostas apresentadas em plenário, da atuação das comissões permanentes e temporárias e toda a tramitação legislativa".

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A mais recente crise por que passa APS começou a ser delineada em 2008, quando, segundo ele, conheceu o ex-conselheiro do Carf José Ricardo da Silva e dele se tornou sócio em uma firma de consultoria.

Segundo APS, eles tinham "clientes separados". "Eu nunca tive negócios no Carf e nenhuma dessas empresas que eu representei em Brasília teve interesse junto ao Carf", defendeu-se APS.

Mas a parceria, na versão dele, logo acabou.

Teria havido um desarranjo em torno dos gastos para a reforma do escritório, que funcionou em uma casa no Lago Sul, em Brasília.

Em 2014, APS entrou na mira da Zelotes. Em um telefonema interceptado, ele explicou ao interlocutor que o então candidato presidencial do PSDB à Presidência, Aécio Neves, havia se comprometido a recebê-lo para uma conversa durante a campanha. Pretendia apresentar reivindicações de um setor empresarial que não fica claro na conversa.

APS comentou que também já havia falado com Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil, e iria procurar "falar diretamente com a presidente" Dilma Rousseff "para saber com quem tem que falar para poder direcionar". Segundo APS, Erenice reclamou com ele que "é tanta gente no PT para poder coordenar que é complicado".

Depois, APS disse à PF que se considera amigo de Erenice, mas nunca fez negócios com ela.

À Folha, o lobista disse que "algumas associações de classe" o procuraram, na campanha de 2014, para que pudessem apresentar seus "programas de governo" aos candidatos. "Acredito que um ou dois encontros aconteceram. Acredito que com a campanha do PSDB, e eu não sei se teve outros", disse APS.

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Rubens Valente
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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