terça-feira, 24 de novembro de 2015

Depoimento que liga PT à morte de Celso Daniel é anexado à Lava Jato


Imagem: Samuel Costa / Jornal Hoje em Dia
A morte de Celso Daniel, prefeito de Santo André assassinado em 2002, volta a assombrar o PT. Foi um dos primeiros casos em que o nome do partido apareceu associado a corrupção e a um homicídio.

Em uma tentativa frustrada de fechar um acordo de delação premiada para reduzir sua pena de 40 anos de prisão no julgamento do mensalão, o publicitário Marcos Valério de Sousa trouxe à tona, pela primeira vez, ainda em 2012, a ligação entre José Carlos Bumlai, o grupo Schahin e a corrupção na Petrobras.


O depoimento do pivô do escândalo do mensalão ao então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, não se concretizou em uma delação premiada por falta de provas.

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Agora, o depoimento de quinze páginas de Marcos Valério foi anexado aos autos da fase "Passe Livre" da Operação Lava Jato, que resultou na prisão de Bumlai.

O juiz Sergio Moro afirma no decreto de prisão de Bumlai que o empresário Renan Maria Pinto, que ameaçava revelar os mandantes da morte de Daniel se não recebesse R$ 6 milhões para comprar o jornal "Diário do Grande ABC", fez empréstimos de R$ 6,9 milhões de duas empresas dele mesmo que, nove anos depois, não foram pagos, segundo as declarações de renda do empresário . Na visão do juiz, seria uma simulação para acobertar a entrada dos R$ 6 milhões que Pinto teria recebido para se calar sobre a morte de Daniel.

Segundo o depoimento, Marcos Valério foi procurado em 2004 pelo então secretário-geral do PT, Silvio Pereira, o Silvinho, secretário-geral do PT, que lhe pediu para intermediar mais um empréstimo.

O dinheiro, segundo Marcos Valério, seria destinado ao empresário de ônibus do ABC Ronan Maria Pinto.

Pela versão de Marcos Valério, Pinto chantageava Lula e Gilberto Carvalho (chefe de gabinete da Presidência) com informações que ligariam o PT ao assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel.

No depoimento, Marcos Valério diz que se recusou a intermediar o negócio, mas teria aceitado se reunir com Ronan Pinto e Silvinho. No suposto encontro, relatou Valério, Ronan disse que precisava de R$ 6 milhões para a compra do jornal "Diário do ABC".

A existência e detalhes do novo depoimento de Marcos Valério foram revelados, pela primeira vez, em reportagem da revista "Piauí", em agosto deste ano.

No depoimento, Marcos Valério diz que Ronan comprou o jornal com dinheiro que José Carlos Bumlai tomara emprestado do Banco Schahin. Em troca, disse o publicitário, os Schahin ficariam com contratos de operação de navios-sondas da Petrobras.

"Desse modo, Marcos Valério também corroborou a versão no sentido de que o empréstimo concedido a Bumlai destinava-se a pagar dívidas do PT, sendo posteriormente saldado com a contratação da Schahin para operação do navio-sonda Vitória 10.000", escreveu a força-tarefa da Procuradoria, no pedido de prisão de Bumlai.

"Valério, contudo, vai mais longe, alegando que o empréstimo de Bumlai visava comprar o silêncio do empresário Ronan Pinto de Santo André que ameaçava envolver pessoas ligadas ao PT à morte de Celso Daniel", concluem os procuradores.

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A COMPRA DO JORNAL

A compra do jornal com dinheiro saído do Banco Schahin ainda não foi provada pelos investigadores. Os R$ 12 milhões que Bumlai tomara emprestados seguiram, primeiro, para empresas do grupo Bertin.

Embora a Procuradoria não tenha encontrado vínculo direto entre o dinheiro pego por Bumlai no banco Schahin e a compra de cotas do "Diário do Grande ABC", um documento apreendido na Lava Jato fez acender o sinal de alerta.

Em busca e apreensão realizada na Arbor Contábil, escritório de de Meire Pozza, contadora do doleiro Alberto Youssef, foi apreendido contrato no qual a empresa 2 S Participações Ltda., de Marcos Valério, teria repassado em R$ 6 milhões a empresa Remar Agenciamento e Assessoria Ltda.

A Remar figura como mutuante enquanto o mutuário, o destinatário final do dinheiro, era a empresa Expresso Nova Santo André, que pertence a Ronan Pinto. O contrato foi celebrado em 22 de outubro de 2004, oito dias depois do Banco Schain emprestar o dinheiro a Bumlai.

A Receita Federal colheu indícios que reforçam a versão de que parte dos valores do empréstimo do Banco Schahin a José Carlos Bumlai pode mesmo ter sido direcionada a Ronan Maria Pinto para a compra do "Diário do Grande ABC".

Segundo a Receita Federal, o empresário adquiriu 60% das ações do jornal por R$ 6,8 milhões em 2004. Deste valor, ele obteve empréstimos e assumiu dívidas de terceiros a duas empresas de que era sócio, a Rotedali Serviços e Limpeza Urbana Ltda. e a Expresso Nova Santo André.

As dívidas, segundo dados de suas declarações de impostos, ficaram sem quitação durante nove anos. O não pagamento das dívidas às suas próprias empresas fez a Receita suspeitas de que esses empréstimos não teriam sido reais, mas apenas instrumentos "para dissimular a real origem de recursos utilizados na aquisição das ações".

OUTRO LADO

A Folha não havia conseguido ouvir, até a publicação desta reportagem, o advogado de José Carlos Bumlai.

A advogada do empresário de Santo André, Sonia Drigo, diz que "por desconhecer totalmente o processo [da Operação Lava Jato], não tenho dados para me manifestar sobre o teor do despacho e as referências feitas ao sr. Renan Maria Pinto".

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Graciliano Rocha, Mário César Carvalho e Bela Megale
Folha de S. Paulo
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