sábado, 30 de janeiro de 2016

'Dona' de offshore diz que comadre pediu para assinar papeis


Nelci Warken é escoltada por agentes da Polícia Federal
Imagem: Rodolfo Buhrer/Reuters
Nas investigações da Lava Jato, a Polícia Federal (PF) chegou ao nome de Eliana Pinheiro de Freitas, tida como dona da Murray Holdings. Com sede nos Estados Unidos, a empresa tem pelo menos 10 imóveis no Brasil que valeriam mais de R$ 5 milhões. A mulher, porém, diz que só assinou papéis para a sua comadre, a publicitária Nelci Warken, que foi presa na quarta-feira (27).


Apesar de ser “dona” da empresa, Eliana mora em um condomínio em uma rua simples na periferia da Zona Leste de São Paulo. A reportagem do Jornal Nacional conversou com a mulher pelo interfone. Ao repórter Tiago Eltz, ela disse que não é a dona da empresa, mas admitiu que assinou papéis a pedido da comadre dela, que é Nelci Warken. Nelci foi presa na 22ª fase da Lava Jato.

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A Murray foi aberta pela empresa Mossack Fonseca, que é especializada na abertura de offshores, empresas legais, com sede fora do Brasil e que podem ser usadas para lavagem de dinheiro.

Eliana teria aberto a empresa em Las Vegas, em 2005. No entanto, de acordo com a Policia Federal, o único passaporte que ela já teve venceu em 1991, ou seja, 14 anos antes de a empresa ser aberta, a mulher já não tinha como entrar nos Estados Unidos.

Para os investigadores da Lava Jato, Eliana é o que eles chamam de "laranja". Quando um corrupto recebe milhões de reais ilegalmente, ele também ganha um problema: o que fazer com o dinheiro?

Um corrupto não pode sair aproveitando o que roubou, gastando, comprando carro, casa, barco, e colocando no nome dele. Isso iria chamar a atenção dos órgãos de fiscalização e pode virar prova dos crimes. Também não pode guardar no banco, já que a Receita Federal iria detectar a movimentação anormal.

O corrupto então precisa "lavar" o dinheiro sujo. E hoje existem empresas especializadas em lavagem de dinheiro. Elas ganham milhões para esconder os bilhões dos criminosos. Para a PF, a Mossack Fonseca é uma dessas empresas. A sede é no Panamá, mas tem um escritório em um prédio na Avenida Paulista.

Foi a Mossack que registrou a Murray, empresa que no papel é de Eliana. Um dos imóveis dela é um triplex no condomínio Soláris, em Guarujá, investigado pela operação Lava Jato. A Mossak já era conhecida dos investigadores, porque abriu pelo menos sete empresas no exterior para acusados da lava jato.

Em um e-mail apreendido pelos policiais, funcionários da Mossack Fonseca no Brasil discutem, em espanhol, o que fazer depois de uma outra operação da PF, em 2007. A gerente Maria Mercedes Riano Quijano ordena: “removam todos os papéis do escritório, nomes de clientes, documentos a entregar, agendas telefônicas e excluam do computador tudo que possa haver.”

Em outro e-mail, a gerente pergunta a um funcionário se eles têm como comprovar o que fazem. O funcionário é direto: “Não temos como comprovar como mantemos o escritório”. Maria Mercedes, que é panamenha, e um outro funcionário da Mossack, o venezuelano Luis Fernando Hernandez Rivero, estão foragidos.

De acordo com a PF a Mossack seria uma espécie de fábrica de lavanderias. Ela vai abrindo empresas em nomes de laranjas mundo afora. Quando um corrupto precisa lavar dinheiro, ele compra uma dessas empresas, que continuam no nome dos laranjas. A Mossack, então, providencia uma procuração e quem pode, enfim, gastar o dinheiro ilegal, comprando carros, barcos, ou apartamentos em Guarujá.

Publicitária nega

O advogado da publicitária Nelci Warken, Alexandre Crepaldi, disse que a cliente dele é mesmo a dona da Murray e do triplex no condomínio Solaris, em Guarujá. Mesmo que, no papel, a responsável da Murray seja Eliana Pinheiro de Freitas, como consta na denúncia do Ministério Público Federal.

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O advogado disse ainda que Nelci adquiriu este e outros imóveis ao longo de 45 anos de trabalho, sem nenhuma relação com as investigações da Lava Jato.

A publicitária prestou depoimento à Polícia Federal (PF), em Curitiba, nesta sexta (29). A oitiva durou cerca de três horas.

Esta nova fase da operação investiga a abertura de offshores (empresas no exterior) e a compra de apartamentos no Condomínio Solaris em Guarujá para lavar dinheiro do esquema de corrupção na Petrobras.

"Um dos apartamentos está no nome de uma empresa que ela é proprietária [a offshore Murray]. Ela adquiriu esse imóvel, e não só esse imóvel, os imóveis que ela tem, com o fruto do trabalho dela", afirmou o advogado Alexandre Crepaldi, que defende a publicitária.

Além de Nelci Warken, outras duas pessoas foram presas na quarta-feira: Ricardo Honório Neto e Renata Pereira Brito.

A prisão dos três é temporária e vence no domingo (31), mas, caso a Justiça considere necessário, pode ser prorrogada por mais cinco dias. Há ainda a possibilidade da temporária ser convertida em preventiva, que é quando o investigado fica preso à disposição da Justiça sem prazo pré-determinado.

Renata Pereira Brito foi ouvida na quinta (28). Já Ricardo Honório Neto ainda não prestou depoimento à Polícia Federal.

O quarto preso é Ademir Auada. Ele estava no Panamá e se entregou na quinta-feira. Ele foi preso no Aeroporto de Guarulhos (SP) e encaminhado para a superintendência da PF, na capital paranaense. A prisão dele também é temporária, com prazo de cinco dias a partir da data em que foi detido. Ricardo Honório Neto e Ademir Auada devem prestar depoimento para a Polícia Federal nesta sexta.


Foragidos

Maria Mercedes Riano Quijano e Luiz Fernando Hernandez Rivero, que tiveram mandados de prisão temporários expedidos pela Justiça na 22ª fase da Operação Lava Jato, são considerados foragidos pela Polícia Federal. A dupla é apontada pelas investigações como administradora da Mossack no Brasil.

As informações iniciais da PF eram de que Mercedes estaria no exterior, contudo, ela não foi localizada. Já Luiz Hernandez Ribeiro teria residência em São Paulo, mas não foi localizado pelos agentes. O prazo da prisão temporária deles só passa a contar a partir do momento em forem detidos efetivamente.

22ª fase

Esta nova fase da operação investiga a abertura de offshores (empresas no exterior) e a compra de apartamentos no Condomínio Solaris em Guarujá (SP) para lavar dinheiro do esquema de corrupção na Petrobras.

A empresa Mossack Fonseca, sediada no Panamá, é investigada por abrir uma offshore (Murray Holdings) que assumiu a propriedade de um dos imóveis para esconder os reais donos.

Ademir Auada aparece como responsável pela Murray Holdings junto à Mossack Fonseca. Ele fez o exame de corpo de delito na manhã desta sexta.

Nelci Warken, apontada como responsável por um tríplex no Condomínio Solaris, Ricardo Honório Neto, sócio da representação brasileira da Mossack, e Renata Pereira Brito, funcionária de confiança da Mossack no Brasil, foram presos no dia em que a operação foi deflagrada.

Entre os crimes investigados na atual fase estão corrupção, fraude, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

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