segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Braço-direito de Dilma há mais de uma década é exonerado do cargo


Imagem: Joel Silva / Folhapress
Considerado o principal braço-direito da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto, o assessor especial da Presidência da República Anderson Dorneles foi exonerado do cargo nesta segunda-feira (1º).

A sua saída foi publicada no "Diário Oficial da União". Para o seu lugar, foi nomeado o jornalista gaúcho Bruno Gomes Monteiro, ex-chefe de gabinete da Secretaria de Políticas para as Mulheres.

No final do ano passado, Dorneles pediu para deixar o cargo para voltar a morar no Rio Grande do Sul, onde se casará em março deste ano.


A saída dele ocorre após a divulgação de que o auxiliar é sócio de um bar no estádio do Beira-Rio, em Porto Alegre, o que causou preocupação ao Palácio do Planalto. A arena esportiva foi reformada pela empreiteira Andrade Gutierrez, a qual é investigada pela Operação Lava Jato por suspeitas de corrupção em obras da Copa do Mundo de 2014.

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O conteúdo da delação que vem sendo negociada por executivos da empreiteira, considerado de potencial explosivo pelo Planalto, obrigou o jovem gaúcho, de 34 anos, a ter uma conversa definitiva com a chefe no final do ano passado para deixar seu cargo.

Com a petista desde o início da década de 1990, quando ela presidia a Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, Anderson Dorneles era o responsável por carregar o celular e o tablet da presidente, bem como fazer ligações a ministros quando a petista precisava falar com eles.

O assessor era um dos poucos auxiliares da petista que contavam com sua confiança absoluta e que tinha a liberdade de participar com ela de reuniões confidenciais.

Na biografia "A vida quer é coragem", escrita pelo jornalista Ricardo Batista Amaral, o assessor é chamado de o "mensageiro" da presidente.

AGORA VAI

Dorneles, um gaúcho de 34 anos, costurava há pelo menos três meses sua saída do governo.

Ele havia tentado pedir demissão pelo menos outras três vezes ao longo das quase duas décadas em que trabalhou com Dilma. Mas, em 26 de dezembro de 2015, ao sair oficialmente de férias, sabia que não poderia mais voltar ao seu gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Foi a presidente quem deu o apelido de "o menino" para Anderson –quando ele avisou que se casaria, a frase "o menino vai casar" ecoou pelo Planalto–, que conheceu quando ele tinha apenas 13 anos e era office-boy da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, comandada à época por Dilma.

Desde então, os dois seguiram juntos até a Presidência da República, numa relação maternal, porém, com todos os contornos de "gato e rato".

"Não havia ninguém tão perto do poder quanto Anderson e também não havia quem sofresse tanto quanto ele no governo", admite um atento observador de dentro do Planalto.

Anderson era o portador do iPhone e do iPad da presidente. Era ele quem recebia -e lia- os e-mails e atendia às ligações, inclusive dos ministros, antes de repassá-los a Dilma. Uma de suas funções era sentir a temperatura da chefe e encontrar o melhor momento para entregar recados e avisá-la sobre os telefonemas.

Opinião sobre o governo e ajuda com a avaliação do cenário político, porém, Dilma nunca pediu ao "menino", que também escutava a maior parte das broncas e, muitas vezes, gritarias da presidente.

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DESGASTES

A relação tão próxima já teve vários outros desgastes, que culminaram em ameaças e pedidos de demissão que não foram aceitos por Dilma.

Em um deles, quando a petista ainda era ministra de Minas e Energia do governo Lula, Anderson contou que havia conseguido um novo emprego em Porto Alegre, na siderúrgica Gerdau. Dilma não hesitou em telefonar para o empregador e pedir que ele não contratasse seu assessor.

Em 2010, durante a campanha presidencial, "o menino" simplesmente voltou à capital gaúcha, alegando estresse, e lá ficou por duas semanas. Outro homem de confiança de Dilma, Giles Azevedo foi incumbido de ir pessoalmente a Porto Alegre para convencer Anderson a voltar. E ele voltou.

No segundo mandato da presidente, a proposta foi que ele trabalhasse sete dias por semana, sem intervalos. Anderson protestou e disse que era inviável continuar dessa maneira. Mais uma vez Dilma cedeu e pediu que ele revezasse as tarefas, pelo menos por um dia, com outra assessora.

A vida de dedicação quase total à presidente, aliás, interrompia-se muitas vezes somente nas madrugadas.

Mas Anderson criou uma regra pessoal de nunca dormir no Palácio da Alvorada. Vez ou outra precisava sair duas ou três da manhã após um exaustivo dia de trabalho, mas corria para a casa que dividia com outros dois amigos mesmo que para poucas horas de sono.

Segundo Anderson, se dormisse uma única vez em um dos quartos de hóspede da residência oficial da Presidência da República, nunca mais sairia de lá. "Mal presságio", brinca um colega de governo.

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Marina Dias, Gustavo Uribe e Flávia Foreque
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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