sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Marqueteiro de Lula e Dilma diz à PF que não sabia que tinha que declarar contas no exterior


Imagem: Reprodução / Redes Sociais
O marqueteiro João Santana disse à Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (25) que não sabia que deveria ter declarado à Receita Federal uma conta bancária que tem na Suíça. O depoimento durou mais de três horas, na Superintendência da PF, em Curitiba.

Santana e a mulher dele, Mônica Moura, estão presos desde terça-feira (23). Eles são suspeitos de receber dinheiro do esquema de corrupção na Petrobras desvendado pela Operação Lava Jato.

O dinheiro seria, de acordo com as investigações, pagamento de serviços eleitorais prestados ao Partido dos Trabalhadores (PT). Santana foi marqueteiro de vários candidatos do partido e atuou nas campanhas da presidente Dilma Rousseff e da campanha da reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006.

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Conta

No depoimento, Santana assinou uma autorização para "acesso integral a todos os dados da conta" mantida no exterior.

Ele disse à PF que a conta, em nome da empresa Shellbill Finance SA, foi aberta em 1998 para receber cerca de US$ 70 mil por um serviço de campanha eleitoral realizado na Argentina.

Santana afirmou no depoimento que Mônica sempre cuidou da parte administrativa e financeira do casal e que, apesar de ser o controlador da conta na Suíça, era ela a responsável pelas movimentações.

O marqueteiro disse, ainda, que não saberia esclarecer a origem dos valores que ingressaram na conta, que era uma "poupança" para sua aposentadoria.

"Na época, ele achou que não tinha problema [não declarar] porque eram recursos recebidos em outro país e, ao longo de uma auditoria recente, ele foi informado que havia essa irregularidade. Ele estava já tomando as medidas, pensando na forma de regularizar esses recursos", afirmou Fábio Tofic, advogado de João Santana.

Segundo ele, os recursos recebidos no exterior são pagamentos por trabalhos feitos em campanhas eleitorais em países como Panamá e Angola, além de Argentina. Tofic voltou a afirmar que, em relação à campanha do PT, está tudo declarado à Justiça Eleitoral.

Pagamentos de Zwi Skornicki

No depoimento, Santana negou conhecer o engenheiro Zwi Skornicki e disse que nunca teve qualquer relação comercial com ele. No entanto, foi uma carta da mulher de Santana supostamente endereçada a Skornicki que motivou a 23ª fase da Operação Lava Jato.



João Santana disse não ter tomado conhecimento da carta ou de contato de Mônica com Skornicki e que não sabia que a conta Shellbill havia recebido dinheiro do engenheiro.

O Ministério Público Federal (MPF) acredita que Skornicki era operador no esquema de desvios na Petrobras e responsável por repasses ao PT por meio do ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto, preso desde 2015 pela Lava Jato. As investigações apontam que Skornicki era o representante do estaleiro Keppel Fels e que repassou US$ 4,5 milhões a Santana.

Ao ser questionado o porquê dos pagamentos por parte de Skornicki, o advogado de Santana afirmou que Mônica Moura cobrava do Partido Angolano uma dívida por conta da campanha que João Santana fez para José Eduardo Santos, presidente do país africano.

No depoimento, Moura disse que recebeu orientação de uma mulher responsável pela parte financeira da campanha para procurar Zwi Skornicki, que quitaria o valor devido.

“Ela não sabe dizer qual é a relação que esse cidadão teria com o partido angolano, provavelmente algum interesse naquele país. E que era uma divida antiga, nessa área de marketing eleitoral você demora muito pra receber alguns valores. Alguns pagamentos vêm um ano, dois anos depois de feita a campanha”, disse Fábio Tofic.

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Ao procurar Zwi no escritório dele no Brasil, Monica Moura diz que acertou um pagamento de US$ 4,5 milhões que foram depositados na conta da Shellbill e identificados pelas investigações.

Segundo Monica Moura, o valor total da campanha que elegeu José Eduardo Santos foi de US$ 50 milhões. Deste total, US$ 30 milhões foram pagos por meio de contrato com a empresa dela e de João Santana, a Polis Brasil. Os US$ 20 milhões restantes foram pagos por meio de um “contrato de gaveta” não contabilizado.

Questionado, João Santana disse que as campanhas em Angola têm um alto custo em razão de problemas de infraestrutura, dos riscos pessoal e financeiro, e dos conflitos étnicos.

Santana negou que os pagamentos realizados por Zwi Skornicki tenham relação com serviços prestados no Brasil. Além disso, afirmou que nunca manteve qualquer contrato com o poder público no Brasil.

O procurador da força-tarefa da Lava Jato, Carlos Fernando Lima, afirmou que Monica Moura não conseguiu explicar os motivos que teriam levado Zwi Skornick a quitar uma dívida de campanha em Angola. E que até agora não houve qualquer comprovação da relação de Zwi Skornicki com interesses comerciais em Angola.

Skornicki está detido preventivamente na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Ao G1, o advogado Flávio Mirza disse que não terminou de estudar o inquérito e, por isso, não iria se manifestar, mas que pretende pedir a revogação da prisão.

Pagamento da Odebrecht

A PF sustenta que a offshore Shelbill (ligada ao marqueteiro) recebeu US$ 7,5 milhões provenientes de propina. Deste montante, US$ 3 milhões teriam vindo da Odebrecht, por meio da offshore Klienfeld.

Santana disse no depoimento que soube somente no ano passado, por meio da imprensa, que a conta na Suíça havia recebido recursos da Klienfeld. O marqueteiro disse que não tomou conhecimento do pagamento por terceiros de valores referentes às campanhas.

“A Mônica confirmou que houve, de fato, alguns pagamentos que foram feitos pela Odebrecht em relação a uma campanha no exterior, e o João não sabe disso. O João é um criador, o João não trabalha com questão financeira, com questão bancária. Ele tinha pouco conhecimento de como eram feitos os pagamentos e de como eram os recebimentos”, afirmou o advogado.

Santana disse á polícia não ter nenhum "relacionamento comercial" com a Odebrecht e negou ter recebido qualquer valor no Brasil por ordem de Marcelo Odebrecht.

A Odebrecht é uma das empresas acusadas de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras. A Justiça Federal aceitou duas denúncias contra executivos ligados à empreiteira. Alguns funcionários e diretores da empresa foram presos, inclusive, o presidente afastado Marcelo Odebrecht.

Mensagens de Marcelo Odebrecht

O marqueteiro disse que tomou conhecimento pela imprensa das anotações feitas por Marcelo Odebrecht com referência ao termo “Feira”, mas negou ter relação com um apelido seu. Em uma das anotações investigadas, Marcelo Odebrecht escreveu: “Liberar para feira pois meu pessoal não fica sabendo. Deixar prédios com vaca”. Em outro trecho, Odebrecht afirma. “40 para vaca – parte para feira”.

Os peritos concluíram que “Feira” era o apelido de João Santana, que nasceu em uma cidade perto de Feira de Santana, na Bahia, e que “Vaca” era o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso desde abril de 2015.

Mudanças no Imposto de Renda

A Lava Jato investiga ainda mudanças feitas na declaração do Imposto de Renda de João Santana. Em 2015, conforme a investigação, ele retificou as declarações dos cinco anos anteriores.

Segundo a Receita Federal, Santana e a mulher haviam omitido nas declarações anteriores a participação em quatro empresas no exterior – uma na Argentina, uma em El Salvador, uma na República Dominicana e outra no Panamá. O relatório foi enviado para a Polícia Federal e embasou o pedido de prisão do casal.

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Bibiana Dionísio
G1 
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