domingo, 3 de abril de 2016

Discurso do 'golpe' mostra que PT já não se diferencia do populismo bolivariano, diz historiador argentino


Imagem: J. M. Garcia / EFE
Para o historiador argentino Carlos Malamud, 65, pesquisador no Real Instituto Elcano de Madri, o discurso do golpismo alardeado pela presidente Dilma Rousseff mostra que o PT já não se diferencia do populismo bolivariano.

Em entrevista à Folha por telefone, Malamud disse que a radicalização no Brasil é uma reação ao fato de o PT se considerar o único representante legítimo do povo, e negou que haja golpe em curso.
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Malamud afirmou que o eventual impeachment de Dilma seria catastrófico para os governos populistas da América Latina e atribuiu parte dos problemas da região a governos que passam tempo demais no poder.

Como vê a agressividade do embate político no Brasil?
Esse radicalismo é parecido com os da Bolívia, da Venezuela e da Argentina. Seguidores do PT, de Evo Morales, do chavismo e do kirchnerismo defendiam a ideia de chegar ao poder para se instalar de vez, sob pretexto de serem os únicos representantes legítimos da soberania popular.
O radicalismo é resposta a esse comportamento. Para [Hugo] Chávez e Cristina Kirchner, o fato de a oposição querer ganhar eleições era por si só um esforço golpista. E a ideia de golpe alardeada por Dilma e Lula ecoa o discurso bolivariano – do qual o Brasil se mantinha à distância. Hoje, o governo petista aderiu a essa retórica populista.

Não é pertinente debater se há um golpe em curso no Brasil?
Uma coisa é a conveniência de Dilma ficar no poder. Outra é argumentar que a marcha constitucional é fruto de manobra golpista. A Constituição é clara: alguns crimes cometidos pelo Presidente da República devem ser julgados pelo STF. No caso do crime de responsabilidade, o julgamento cabe ao Senado.
Pensar que isso é golpismo equivale a desqualificar a remoção do então presidente paraguaio, Fernando Lugo [em 2012]. No fundo, o grande tema é a legitimidade democrática, e os membros do Parlamento também foram eleitos pelo povo.

Críticos dizem que a Justiça brasileira não investiga com o mesmo empenho a oposição.
É preciso pressionar todos os suspeitos de terem cometido crimes e punir os responsáveis por corrupção em empresas públicas. Mas o grau de cumplicidade do governo é maior. Se o Parlamento tivesse cumprido sua função de fiscalização, o que não fez, não haveria sido necessária tamanha atuação da Justiça.

O que opina sobre o argumento pelo qual o cerco ao PT seria fruto de revanche da classe média e da direita?
É pura propaganda. Pretender que tudo são manobras da direita contra a esquerda não condiz com a história recente. A Fiesp apoia o impeachment, mas até pouco tempo era aliada incondicional de Lula. De repente a questão é um embate entre direita e esquerda? Isso não tem sentido.

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Qual seria o impacto regional da destituição de Dilma?
A saída do PT seria brutal para a Alba [Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América] e os governos populistas da região. A Alba já havia sentido o baque com o fim do governo Kirchner e a crise venezuelana. O motivo pelo qual a cláusula democrática do Mercosul não foi aplicada contra a Venezuela foi o apoio do Brasil a Maduro. Sem esse apoio, o cenário ficaria catastrófico para ele.

O Mercosul poderia aplicar a cláusula democrática contra o Brasil em caso de impeachment de Dilma?
O Paraguai não se esquece do que aconteceu em 2012, quando foi suspenso do Mercosul em grande medida pela posição de Dilma. Era esperado que quisesse que aconteça algo parecido com o Brasil.
Já a posição argentina leva em conta o fato de que o Brasil é seu principal sócio comercial e que qualquer turbulência brasileira pode afetá-la. Mas a Argentina nunca falou em "golpe" no Brasil.

A Venezuela está num impasse desde a vitória da oposição na eleição parlamentar.
As coisas parecem não mudar na superfície, mas a crise não para de se aprofundar. As pesquisas mostram que a perda de confiança no governo é absoluta. Maduro não permite troca de guarda nem dentro do chavismo. A solução dos problemas é cada vez mais complicada e há risco real de desfecho sangrento.

A América Latina está vivendo a reversão do ciclo dos governos de esquerda?
A democracia na região vive uma crise de maturidade. Estamos mudando, mas o futuro ainda pode ser complicado. Não está escrito que tudo será apagado e haverá um novo começo. Mas nos últimos 15 anos houve pouca alternância, e isso gerou muito desgaste. A alternância deve ser valorizada. 

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Samy Adghirni
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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