sexta-feira, 1 de abril de 2016

Valério citou, em 2012, alvos da Carbono em trama que envolveria poupar Lula no caso Celso Daniel


Imagem: Celso Junior / AE
O empresário Ronan Maria Pinto, de Santo André (SP), preso na Operação Carbono 14 nesta sexta-feira, 1, é um dos personagens do Caso Celso Daniel – prefeito da cidade do ABC paulista executado em janeiro de 2002. Conforme o Estado revelou em 2012, o operador do mensalão, Marcos Valério, afirmou em depoimento ao Ministério Público Federal que o PT teria pedido a ele R$ 6 milhões para que Ronan Maria Pinto parasse de chantagear o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o então secretário da Presidência Gilberto Carvalho e o ex-ministro José Dirceu.
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Este valor, segundo investigação da força-tarefa da Operação Lava Jato, teria saído de um montante de R$ 12 milhões que o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula, havia contraído em um empréstimo junto ao Banco Schahin em outubro de 2004. Segundo a Procuradoria da República, há evidências que apontam que o PT influiu diretamente junto ao Banco Schahin na liberação do empréstimo fraudulento. Para chegar ao destinatário final Ronan Maria Pinto, os investigados teriam se utilizado de diversos estratagemas para ocultar a proveniência ilícita dos valores e a identidade do destinatário final do dinheiro obtido na instituição financeira.

Os investigadores da Lava Jato afirmam a operacionalização do esquema se deu, inicialmente, por intermédio da transferência dos valores de Bumlai para o Frigorifico Bertin, que, por sua vez, repassou a quantia de aproximadamente R$ 6 milhões a um empresário do Rio de Janeiro.

“Há evidências de que este empresário carioca realizou transferências diretas para a Expresso Nova Santo André, empresa de ônibus controlada por Ronan Maria Pinto, além de outras pessoas físicas e jurídicas indicadas pelo empresário para recebimento de valores. Dentre as pessoas indicadas para recebimento dos valores por Ronan, estava o então acionista controlador do Jornal Diário do Grande ABC, que recebeu R$ 210 mil em 9 de novembro de 2004. Na época, o controle acionário do periódico estava sendo vendido a Ronan Maria Pinto em parcelas de R$ 210 mil. Suspeita-se que uma parte das ações foi adquirida com o dinheiro proveniente do Banco Schahin. Uma das estratégias usadas para conferir aparência legítima às transferências espúrias dos valores foi a realização de um contrato de mútuo simulado, o qual havia sido apreendido em fase anterior da Operação Lava Jato”, sustenta a Procuradoria.

No texto divulgado pelo MPF sobre a operação Carbono 14, não há menção sobre o caso Celso Daniel. Os investigadores falarão sobre a ação de hoje a partir das 10 horas, quando devem dar mais detalhes.

Corrupção. Após a morte de Celso Daniel, a polícia concluiu que o petista foi vítima de “criminosos comuns”, mas o Ministério Público sustenta que ele foi eliminado a mando do empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, porque decidiu dar um basta em amplo esquema de corrupção em sua administração depois que constatou que o dinheiro desviado não abastecia exclusivamente o caixa 2 do PT, mas estava sendo usado para enriquecimento de algumas pessoas.

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Em seu depoimento, Marcos Valério afirmou que se recusou a interferir neste caso. Mas contou que Silvio Pereira, o Silvinho, então secretário-geral do PT, o procurou pedindo esta nova ajuda. O encontro foi marcado no Hotel Sofitel, em São Paulo, reduto de reuniões da cúpula do PT durante quase todo o governo Lula. Silvio Pereira também foi preso na Operação Carbono 14. O jornalista Breno Altman foi conduzido coercitivamente nesta sexta. Segundo Valério, ele teria participado de reuniões para acalmar Ronan Maria Pinto.

Segundo Marcos Valério, os dois se sentaram em uma mesa do lado de fora e que Silvinho disse que Ronan vinha chantageando Lula, Dirceu e Carvalho. E pediu a Valério o dinheiro para estancar a chantagem. Valério recusou-se a ajudar o PT neste caso. “Me inclua fora disso”, limitou-se a dizer.

Silvinho insistiu, pedindo apenas que aceitasse uma conversa com Ronan. O encontro foi marcado no “Hotel Puma”, na verdade Hotel Pullman, situado no Ibirapuera, em São Paulo. Teriam participado da conversa Valério, Ronan e o jornalista Breno Altman. Segundo Valério, Ronan disse que os R$ 6 milhões seriam usados para comprar 50% do jornal Diário do Grande ABC – conforme Valério disse ter ouvido de Silvinho.

O Diário do Grande ABC, disse o operador do mensalão, vinha publicando seguidas matérias sobre o assassinato de Celso Daniel. Apesar desses detalhes, Valério disse que Silvinho não lhe contou o motivo da chantagem.

Em 2012, Ronan Maria Pinto, Silvio Pereira e Breno Altman se manifestaram desta forma.

Em nota, o empresário Ronan Maria Pinto disse que “conforme já declarou em oportunidade anterior, jamais se encontrou em qualquer circunstância com o sr. Valério, a quem não conhece pessoalmente – só pelo noticiário”. Ele disse que “não conhece o sr. José Bumlai, de quem nunca sequer tinha ouvido falar”. “Tratam-se de novas partes da velha falácia com que buscam envolver seu nome em assuntos com os quais nada tem a ver.”

Silvio Pereira afirmou, por seu advogado, que considera “fantasiosa” a versão de Valério. O pecuarista José Carlos Bumlai recebeu com perplexidade a citação a seu nome. “Ele (Bumlai) ficou perplexo”, disse o advogado Mário Sérgio Duarte Garcia. “Absolutamente nada a ver com Banco Schain. Eu o consultei sobre isso, nega categoricamente que tenha participado de algo nessa linha.”

O jornalista Breno Altman disse que nunca se reuniu com Valério. “Nunca na minha vida estive com Marcos Valério. Nem nesse hotel e nem em canto nenhum. Se o Ronan é réu nos processos de Santo André junto com o PT, qual o sentido disso?”.

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Andreza Matais, Julia Affonso e Ricardo Brandt
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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