sábado, 28 de maio de 2016

Alvo de investigação, sobrinho de Lula é processado por calotes em série


Imagem: Reprodução / Veja
Conhecido como 'sobrinho de Lula', o empresário Taiguara Rodrigues dos Santos não está só enrolado na Operação Janus, que o investiga por suspeita de tráfico de influência e lavagem de dinheiro em serviços prestados à Odebrecht. Ele também responde a pelo menos quatro processos na Justiça de São Paulo por calotes que somam mais de 500.000 reais: dívidas de condomínio, aluguel atrasado, cheques sem fundo e pensão para a ex-mulher.

O site de VEJA procurou os advogados que, representando seus clientes, acionaram a Justiça para conseguir reaver o dinheiro devido por Taiguara. Apesar da cobrança envolver débitos de natureza distinta, a maioria compartilha de uma situação em comum: não conseguiram encontrá-lo nos últimos meses para notificá-lo das ações.

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"Mandamos o oficial de Justiça várias vezes para os endereços dele e nada. Ninguém o encontrou", conta a advogada Zuleika Iona Sanches Barreto, que trabalha para o Edifício Pentágono, no bairro Ponta da Praia, em Santos (SP), onde Taiguara tem um apartamento. A advogada entrou na Justiça em março do ano passado para cobrar o valor do condomínio atrasado desde agosto de 2014. Até agora nada. Ela disse que ainda não viu ainda a cor do dinheiro - em torno de 29.000 reais, pelos meses finais de 2014, o ano inteiro de 2015 e os meses iniciais de 2016.

Os calotes de Taiguara, de qualquer forma, são bem mais antigos.

"Só perda de tempo" - Em 2009, Taiguara comprou na loja Alhambra Móveis e Decorações, uma das mais caras de Santos, a mobília da sua casa. Deu como pagamento quatorze cheques pré-datados no valor de 2.290 reais cada. O dono da loja foi depositar os cheques e saiu com as mãos abanando. "Ele é hoje o maior devedor do meu cliente", explicou a advogada Alexandra Rodrigues Bonito, que atua no caso desde 2009. Segundo ela, o débito total de Taiguara está avaliado, hoje, em 116.500 reais. Taiguara deve ser intimado nos próximos meses - se for encontrado, claro - para efetuar o pagamento num prazo de até quinze dias, diz a advogada. Ela também já cogita entrar com uma ação de penhora de bens. Caso isso aconteça, não será o primeiro processo do gênero que ele responde.

No mês passado, a Justiça de São Paulo expediu um mandado de penhora para apreender os pertences de Taiguara como pagamento atrasado da locação de um escritório em São Paulo. O problema é que a Justiça não identificou nenhum bem no nome de Taiguara. "Não encontramos nada. Pela declaração de Renda, ele não tem nada aqui no Brasil. Só se está em Angola.", ironizou o advogado Roberson Sathler, que representa o edifício Çiragan Office. O débito do empresário corrigido para os números atuais já está em cerca de 400.000 reais, de acordo com Sathler. O advogado já disse, inclusive, que pretende ir à Polícia Federal para conseguir os dados financeiros da empresa dele, a Exergia Brasil. Na deflagração da Operação Janus, foi decretada a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Taiguara.

Além desse processo, o sobrinho de Lula foi acionado para pagar o aluguel do apartamento do seu sócio, José Camano, que também ficava na Ponta da Praia, em Santos. A advogada Lucia Maria Ornelas, filha do dono do imóvel, afirmou que Taiguara pagava direitinho - "até adiantado" -, depois sumiu, e ficou lhe devendo 10.000 reais por três meses. A advogada passou meses tentando notificá-lo sobre a ação. Como não conseguiu, entrou com uma petição desistindo do processo. "Não consegui nem citá-lo. Foi só perda de tempo", afirmou.

Na sexta-feira passada, a Polícia Federal conseguiu encontrar Taiguara. Ele estava a cerca de 450 quilômetros da sua casa, hospedado em um hotel no Rio de Janeiro, com o seu sócio José Manuel Camano. Alvo principal da Operação Janus, foi levado coercitivamente para prestar depoimento. A PF também cumpriu mandados de busca e apreensão em seus endereços, em Santos (SP).

O sobrinho - Taiguara é filho de Jacinto Ribeiro dos Santos, o Lambari, amigo de Lula na juventude e irmão da primeira mulher do ex-presidente, Maria de Lourdes, já falecida. Segundo revelou reportagem de VEJA, a vida do 'sobrinho de Lula', como era conhecido por funcionários do governo e empresários, é repleta de altos e baixos. Dono de uma pequena firma que instalava vidros em varandas, ele se tornou, em 2009, dono de empresas de engenharia que fizeram fortuna em negócios na África e em Cuba. Na época, Taiguara tinha uma cobertura dúplex em Santos e era visto dirigindo um Land Rover Discovery, de 200.000 reais.

Uma das empresas de Taiguara, a Exergia Brasil, entrou na mira dos investigadores no final do último ano. A Polícia Federal estranhou o fato de a companhia, que não tinha nenhuma obra de engenharia registrada em São Paulo, ter sido contratada, em 2012, por 3,5 milhões de reais pela Odebrecht para atuar na obra de ampliação e modernização da hidrelétrica de Cambambe, em Angola, a segunda maior do país. Na mesma época, a empreiteira conseguiu no BNDES um financiamento de 464 milhões de dólares para tocar o empreendimento na África.

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"As medidas (...) têm como meta esclarecer quais as razões para a Odebrecht ter celebrado contratos, entre 2012 e 2015, com uma empresa de construção civil de pequeno porte com sede em Santos para a realização de obras complexas em Angola", informou a PF no dia em que deflagrou a Operação Janus. O material apreendido nos endereços de Taiguara ainda está sendo analisado pela procuradoria.

As diligências foram fruto de um inquérito do Ministério Público Federal, instaurado em julho de 2015, cujo objeto principal é apurar se o ex-presidente Lula agiu como um "operador" da Odebrecht ao ajudar a empresa a conseguir negócios no exterior junto a presidentes amigos e a destravar financiamentos do BNDES. Os investigadores suspeitam que Taiguara tenha sido usado como uma espécie de canal de repasses da empreiteira. Em outra ponta, a procuradoria investiga o dinheiro repassado pela Odebrecht ao ex-presidente pelas palestras proferidas no exterior.

Falido -A Exergia Brasil é uma sociedade entre Taiguara e a empresa portuguesa Exergia, que tem vasto portfólio de clientes em Portugal e na África. Em fevereiro deste ano, a companhia portuguesa entrou com uma ação na Justiça brasileira cobrando de Taiguara a prestação de contas da administração. No documento, a empresa argumenta que é dona de 51% do negócio, sendo os outros 49% de Taiguara, e que transferiu 74.316 euros à empresa. "Não há dúvidas de que a demandante, como sócia da Exergia Brasil, juntamente com o sr. Taiguara, tem o direito de exigir a prestação de contas referente à administração (...) exercida exclusivamente pelo sr. Taiguara, principalmente no que diz respeito às contas da sociedade relativas aos exercícios sociais de 2011, 2012, 2013 e 2014, cujos inventários, balanços patrimoniais, relatórios da administração e resultados econômicos nunca foram apresentados pelo sr. Taiguara", diz a ação, obtida pelo site de VEJA. Os advogados, que cuidam do processo, disseram não ter sido autorizados pela Exergia a se pronunciar sobre o caso.

Procurado, o advogado de Taiguara, Fábio Rogério de Souza, afirmou que ele, de fato, está falido. Segundo ele, o empresário não teria dinheiro nem para pagar a pensão da ex-mulher nem a sua renumeração. Souza, no entanto, negou que o empresário esteja se escondendo da Justiça. "Ele está completamente sem dinheiro. Tem um monte de ações trabalhistas e de cobrança. O primeiro o negócio dele em Angola ficou ruim por causa [da queda no preço] do petróleo. As reportagens sobre ele ainda o retiraram do mercado. Ele queria muito resolver, mas agora não consegue", disse o advogado, lembrando que a Operação Janus acabou de vez com a sua expectativa de voltar ao mercado de trabalho.

Em outubro do ano passado, Taiguara prestou depoimento na CPI do BNDES. Aos parlamentares, admitiu ter recebido de 1,8 a 2 milhões de dólares da Odebrecht em contratos fechados em Angola. Na ocasião, ele já dizia estar passando por dificuldades financeiras. Perguntado sobre a sua relação com Lula, afirmou ter contato com o ex-presidente e ser amigo do filho dele, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com quem fez uma viagem para a Cuba, mas negou a influência dos dois em seus negócios. Das tantas reviravoltas que aconteceram na vida de Taiguara, uma coisa é certa: o dinheiro recebido da Odebrecht não foi para pagar os seus credores.

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Eduardo Gonçalves
Veja
Editado por Folha Política
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