sábado, 28 de maio de 2016

Cientistas dizem que Rio-2016 'deveria ser transferida ou adiada' por causa do Zika


Imagem: Marcelo Sayão/Efe
Em carta aberta enviada à OMS (Organização Mundial da Saúde), um grupo formado por 150 cientistas internacionais afirma que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro deveriam ser transferidos ou adiados em decorrência do surto de vírus da zika, "em nome da saúde pública".


Os especialistas dizem que descobertas recentes sobre o zika tornam "antiética" a manutenção dos Jogos no Rio. Entre os signatários estão Philip Rubin, consultor científico da Casa Branca, médicos e especialistas em ética médica de instituições como as universidades de Oxford, no Reino Unido, e Harvard e Yale, nos Estados Unidos.

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Na carta, os cientistas também pedem que a OMS reveja com urgência suas recomendações sobre o zika, um vírus relacionado a uma série de problemas no nascimento, incluindo microcefalia –em adultos, pode provocar uma rara síndrome que resulta em morte ou paralisia temporária. A infecção também pode ser transmitida pelo ato sexual.

O grupo alerta ainda que, apesar dos esforços para detê-lo, o número de infectados aumentou recentemente no Rio.

Mais adiante, a carta diz que o adiamento ou a transferência dos Jogos também "diminui outros riscos trazidos por uma turbulência histórica na economia, governança e na sociedade do Brasil —que não são problemas isolados, mas que fazem parte de um contexto que torna o problema do zika impossível de resolver com a aproximação dos Jogos".

Em resposta à carta enviada por um grupo de 150 cientistas que pede que as Olimpíadas sejam adiadas ou transferidas para outro local devido ao surto de zika, o Ministério da Saúde rebateu as críticas na noite desta sexta-feira (27) e disse que o período dos jogos deve ser de baixa transmissão do vírus.

"O período em que serão realizadas as Olimpíadas no Brasil é considerado não endêmico para transmissão de doenças causadas pelo Aedes aegypti, como zika, dengue e chikungunya. Em 2015, por exemplo, agosto foi o mês com menor incidência de casos de dengue no país", informou a pasta, em nota.

Em fevereiro, a OMS declarou que a epidemia do zika havia se tornado uma emergência global. Posteriormente, aconselhou mulheres grávidas a evitar viagens para a capital fluminense e outros viajantes a se manter distantes de áreas pobres e superpovoadas da cidade.

A diretora geral do órgão, Margaret Chan, porém, descartou recomendar o adiamento ou realocação do megaevento esportivo. Ela chegou a indicar que vai comparecer à Olimpíada.

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Em maio, aderindo ao coro, o COI (Comitê Olímpico Internacional) disse que não vê razões para atrasar ou transferir os Jogos por causa da doença.

Curiosamente, a carta questiona a aliança entre OMS e COI, que firmaram um memorando de entendimento em 2010, cujo conteúdo é mantido em sigilo. Os especialistas afirmam que "a OMS não pode avaliar com credibilidade os riscos de saúde pública do zika e os Jogos Olímpicos quando se define a neutralidade de lado".

No Brasil, a explosão da enfermidade transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti aconteceu há um ano —hoje, mais de 60 países e territórios são afetados pela doença.

Os reflexos no esporte já são inúmeros. Nesta semana, a seleção norte-americana de natação cancelou a aclimatação pré-olímpica que faria em Porto Rico no final de julho por temor ao vírus. Agora, a preparação ocorrerá em Atlanta.

Duas partidas da MLB (liga profissional norte-americana de beisebol) que aconteceriam em San Juan, capital porto-riquenha, também foram desmarcadas e levadas para Miami.

Além disso, atletas como a goleira americana Hope Solo e a britânica Jessica Ennis-Hill disseram não se sentir confortáveis com a situação puseram em xeque sua participação nos Jogos.

FRACASSO

Na carta, eles citam o "fracasso" no programa de erradicação do mosquito no Brasil e o sistema de saúde "fragilizado" do país como razões para o adiamento ou transferência da Olimpíada, marcada para o próximo mês de agosto.

"Um risco desnecessário é colocado quando 500 mil turistas estrangeiros de todos os países acompanham os Jogos, potencialmente adquirem o vírus e voltam para a casa, podendo torná-lo endêmico", diz o texto.

O principal risco seria que atletas contraíssem a doença e voltassem para suas casas em países pobres que ainda não foram afetados pelo surto da doença.

A OMS ainda não comentou a carta. Na última quinta-feira, o cientista Tom Frieden, chefe da Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, disse que "não há motivos de saúde pública para o cancelamento ou atraso dos Jogos".

Ele também pressionou autoridades norte-americanas a agirem mais rapidamente para evitar que gestantes contraiam o zika, em meio a um impasse no congresso sobre a liberação de quase US$ 2 bilhões para financiamento de políticas de saúde.

OUTRO LADO

Consultado, o Comitê Organizador dos Jogos do Rio disse que "tem total certeza de que vai realizar os Jogos no prazo determinado e com absoluta segurança para os atletas e demais participantes".

O Ministério da Saúde rebateu as críticas e disse que o período dos jogos deve ser de baixa transmissão do vírus. Alega ainda que o vírus zika está presente em 60 países do mundo, incluindo o Brasil, "cuja população representa apenas 15% das pessoas expostas ao vírus".

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BBC Brasil
Editado por Folha Política
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