segunda-feira, 23 de maio de 2016

Para editor-chefe da 'Foreign Policy', versão de 'golpe' não pegou no exterior


Imagem: Divulgação
Barack Obama e líderes mundiais estão esperando para ver se o governo do presidente interino Michel Temer "realmente estará no comando por algum tempo" e se tem o "apoio e a confiança" do povo brasileiro.

É o que opina o publisher e editor-chefe da revista americana "Foreign Policy", David Rothkopf, 60.

"Ninguém pode ter alguma fé na força das instituições brasileiras quando tanta gente no comando delas continua sob suspeita", afirma.


Para ele, a ideia de que houve golpe no Brasil "não pegou" no exterior e que, para muitos, o afastamento da presidente Dilma Rousseff "não pareceu injusto".

A política externa brasileira terá que lidar com o "fracasso de todo um sistema político". Rothkopf conversou com a Folha de S. Paulo.

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Dilma tem repetido que houve um golpe no Brasil. Como essa versão é vista nos EUA?
Não acho que a narrativa de que houve golpe tenha tido muita repercussão externa como seus defensores gostariam. Acho que não pegou, parece política. Francamente, houve corrupção demais para que não se pense que foi apenas uma resposta razoável ao que aconteceu.
Dilma supervisionou a Petrobras em um momento de delitos grotescos. Não foi por isso que ela sofreu o impeachment, mas é o motivo que paira sobre tudo. É por isso que, para um processo com defeitos, o resultado não parece inteiramente injusto.

Como o sr. avalia o afastamento dela?
Não é uma coincidência. Dilma foi uma presidente medíocre no fim das contas. Não só ela falhou em reagir a problemas econômicos sérios, como ela ignorou o que não funcionava no sistema que ela precisava supervisionar. Ela não pode culpar isso a seus adversários. Não pode culpar a política. Ela não teve problema em demitir ministros. Podia ter feito mais para eliminar o que estava errado.

Obama ainda não ligou para Temer e a Casa Branca tem dito apenas que "confia na força das instituições brasileiras". O que acha dessa atitude?
A maior prioridade para a política externa brasileira é demonstrar legitimidade. Líderes estrangeiros precisam acreditar primeiro que essa nova liderança e esse novo sistema realmente estarão no comando por algum tempo, que conseguem resolver os problemas e que têm o apoio e a confiança de fato do povo brasileiro. Pouco importa se Obama vai ligar ou não para Temer agora, se vai esperar.
O que é mais importante é que os EUA enviem um sinal claro de que trabalharão com qualquer governo que o sistema brasileiro, e consequentemente, o povo brasileiro, escolham porque o Brasil é um país importante e amigo.

O Itamaraty emitiu notas duras contra as críticas de países como Venezuela, Cuba e El Salvador ao processo de impeachment. Como avalia essa mudança?
O Brasil foi, por algum tempo sob Lula, um farol de esperança que demonstrava que a esquerda latinoamericana podia ser construtiva, economicamente responsável, uma força de crescimento e um ator no cenário internacional. Progresso real, grande, foi feito.
Mas, ao mesmo tempo, fechavam-se os olhos talvez demais aos defeitos de outros na esquerda latina, notadamente Chávez e seus seguidores. Calava-se diante de atitudes autoritárias, ditatoriais e de desrespeito aos direitos humanos. Era compreensível, mas não exatamente desculpável. Estava na hora de reequilibrar esse front. Mas essa mudança será por nada se o governo não implementar políticas domésticas que restaurem a credibilidade ao Poder Executivo diante do mundo.

Por exemplo?
Ninguém pode ter alguma fé na força das instituições brasileiras quando tanta gente em posições de controle nessas instituições estão sob suspeita de crimes e de abuso da confiança pública.
O problema é mais profundo que as instituições. É a cultura que permite que bilhões sejam roubados e corrupção generalizada nos mais altos escalões do governo se mantenha por anos intocada.

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Raul Juste Lores
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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