domingo, 12 de junho de 2016

Afastada, Dilma quer fazer 'governo paralelo' no Facebook


Imagem: Reprodução / Redes Sociais
Quando o Senado sacramentou o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff, há um mês, a primeira reação do PT foi dizer que faria um "gabinete paralelo". Mas, desde que ela foi afastada da Presidência, o que se viu foi a montagem de uma espécie de "governo virtual". Dilma transformou seu perfil no Facebook, repaginado, em sua principal arma de comunicação. Nela, critica o governo do presidente interino, Michel Temer, responde matérias jornalísticas, posta vídeos de ex-ministros defendendo a gestão petista e publica sua agenda.


Para aliados, a atuação de Dilma na internet aumentou ainda mais depois que um parecer da Casa Civil determinou que ela só pode viajar em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) de Brasília a Porto Alegre, onde tem família.

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- O Facebook se tornou uma ferramenta importante para ela, devido às circunstâncias. Além do afastamento, a presidenta ainda foi surpreendida com esse constrangimento imposto pelo governo interino, que limitou ainda mais a atuação dela. É uma clara tentativa de cerceá-la - disse o advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo.

A rotina de Dilma começa cedo, por volta das 6h da manhã, com um passeio de bicicleta no entorno do Palácio da Alvorada. No café da manhã, lê todos os jornais e depois começa a receber os assessores que trabalham com ela e ex-ministros, que a visitam com frequência. Ela também tem recebido regularmente os parlamentares que a apoiam, algo que não gostava muito de fazer quando ocupava o terceiro andar do Planalto. Já se reuniu até com senadores que ainda não decidiram se votarão a favor ou contra o impeachment.

O ex-assessor especial Giles Azevedo foi levado por ela do Planalto para o Alvorada, assim como Jorge Messias, que era subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil. Além de Cardozo, Ricardo Berzoini (ex-ministro da Secretaria de Governo) e Carlos Gabas (ex-ministro da Secretaria de Aviação Civil) também a visitam diariamente. Jaques Wagner, ex-chefe de gabinete, voltou para a Bahia mas volta a Brasília semanalmente para vê-la. Desde que deixou o Planalto, Dilma recebeu o ex-presidente Lula duas vezes.

Mais interessada nas ferramentas virtuais, Dilma tem comentado com petistas, em tom entusiasmado, sobre novas formas de usar o Facebook. Ela tem apostado no "face to face" - um formato de perguntas e respostas para interação com internautas - com o objetivo de se aproximar de eleitores. Essas conversas ao vivo foram usadas pela petista durante a campanha à reeleição, em 2014.

Aliados da presidente contaram que, diante da reação positiva dos internautas aos vídeos, Dilma resolveu tocar ela própria seu perfil na rede social. Hoje, sua equipe de comunicação se limita a três pessoas: um assessor de imprensa, um fotógrafo e uma profissional especializada em redes sociais. Quando era presidente efetiva, tinha uma equipe de mais de cem pessoas sob o guarda-chuva da Secretaria de Comunicação Social.

- Dilma está falando com todo mundo. Ela se abriu muito mais desde que foi afastada temporariamente. Está animada, mexe pessoalmente no Facebook. Outro dia veio nos contar sobre o face to face, que está adorando fazer - disse um senador petista.

Dilma é conhecida pelo trato difícil com deputados e senadores, mas parlamentares relatam que, no último mês, têm visto uma presidente diferente, mais aberta a conversas e mais leve. Isso tem permitido a ela se aproximar de petistas que sempre mantiveram vínculo maior com o ex-presidente Lula - caso, por exemplo, do senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Tarde demais, lamentam.

- Essa vitimização pegou nela, a sociedade está vendo e respondendo a isso. Ela vestiu tanto esse papel que até eu acreditei - brinca um político que mantém contato com Dilma.

Nas redes sociais, Dilma adotou a estratégia de se contrapor a Temer. Ela tem pedido a ex-ministros para desconstruir pontualmente anúncios feitos por Temer. Erros, gafes e tropeços da gestão Temer são ridicularizados em vídeos. O governo Temer é sempre classificado como "provisório e ilegítimo".

O mesmo acontece nos textos publicados. Nota responsabilizando aliados de Temer pelo vazamento à imprensa de dados sobre os gastos com alimentação no Palácio da Alvorada afirma: "O comportamento sórdido do governo interino e ilegítimo contra a presidenta Dilma Rousseff não conseguirá intimidá-la. Em nenhum país do mundo a autoridade de um chefe de Estado e de governo é atacada de maneira tão vil e mesquinha".

O primeiro vídeo foi feito por Berzoini no dia em que foi revelada a gravação do então ministro do Planejamento, Romero Jucá, sugerindo que era preciso dar um basta à operação Lava-Jato. O petista disse que Jucá tinha que ser demitido. De lá pra cá, doze ex-ministros ou secretários gravaram vídeos criticando a extinção do Ministério das Mulheres e do Ministério da Cultura (depois recriado por Temer), a política externa, o novo déficit público, a fusão do Ministério da Ciência e Tecnologia ao Ministério das Comunicações, o fim da Controladoria Geral da União, a reforma da Previdência e uma suposta ameaça aos direitos trabalhistas. Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda, escreveu texto crítico à nova meta fiscal assumida por Temer.

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Dilma tem escolhido para as entrevistas órgãos de imprensa estrangeiros que, na visão de seu time de comunicação, assumiram postura mais crítica à ascensão de Temer ao poder.

Dilma compareceu ao lançamento do livro "A resistência ao golpe de 2016", uma compilação de textos de 105 autores diferentes, na Universidade de Brasília e na Assembleia Legislativa de Porto Alegre; participou da marcha das mulheres contra o machismo, na Praça XV, no Rio; discursou na Esquina Democrática da capital gaúcha; e participou do encontro de blogueiros e ativistas digitais em Belo Horizonte.

Na quinta-feira, ela foi a Campinas para um encontro com cientistas e intelectuais, e visitou obras de um laboratório. Enfrentou protestos, mas também viu manifestações de apoio à sua causa. Quem trabalha com Dilma diz que ela anda muito ocupada e que não esmoreceu.

- Ela não está na pior. Trabalha de 8h da manhã às 10h da noite, não está abandonada. O dia a dia está muito movimentado, ela tem recebido muita gente - diz um auxiliar.

Para Cardozo, Dilma acha que pode reverter sua situação:

- Ela tem a convicção de que não fez nada errado e que não tem cabimento afastá-la por crime de responsabilidade. Ela acredita que é possível reverter a situação porque a verdade está com ela.

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Catarina Alencastro e Letícia Fernandes
O Globo
Editado por Folha Política
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