quinta-feira, 9 de junho de 2016

Delator diz que pagou US$ 4,5 milhões na Suíça, em caixa 2 para a campanha de Dilma


Imagem: Reprodução / Facebook
Mais novo réu a celebrar um acordo de delação premiada com a força-tarefa da Operação Lava-Jato, o engenheiro Zwi Skornicki, representante no Brasil do estaleiro Keppel Fels, contou à força-tarefa que o então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, lhe pediu US$ 4,5 milhões (R$ 15,2 milhões) para ajudar a financiar a campanha pela reeleição de Dilma Rousseff, em 2014. O pagamento foi feito diretamente em uma conta do marqueteiro João Santana na Suíça, e não foi declarado à Justiça Eleitoral.


A colaboração de Zwi foi assinada com o Ministério Público Federal (MPF), mas ainda depende de homologação do juiz da 13ª Vara da Justiça Federal, Sérgio Moro. Os pagamentos, segundo ele, foram realizados nos meses próximos às eleições de 2014, entre setembro de 2013 e novembro de 2014, o que já fazia os investigadores desconfiarem da relação com a campanha.

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Uma empresa de Zwi, a offshore Deep Sea Oil Corp, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, fez nove repasses (de US$ 500 mil cada) para a conta suíça da offshore Shellbil Finance S/A, registrada na República Dominicana e pertencente a João Santana e à mulher dele, Mônica Moura.

Em depoimento à polícia depois de ser presa, em fevereiro, Mônica alegou que os pagamentos estavam relacionados a contratos do estaleiro Keppel em Angola, país onde o casal Santana também prestou serviços para o presidente José Eduardo Santos e o Partido Movimento pela Libertação de Angola.

“(Zwi Skornicki) foi indicado por uma mulher responsável pela área financeira da campanha presidencial de Angola”, disse Moura na época, mencionando que a campanha naquele país teve um custo total de US$ 50 milhões.

VERSÃO DE MÔNICA É CONTESTADA

A versão é agora contestada por Zwi, que prometeu entregar aos procuradores evidências como registros de reuniões e encontros que teria mantido com Vaccari para tratar dos repasses destinados à campanha de Dilma no Brasil. O estaleiro Keppel Fels foi fornecedor e parceiro da Petrobras em contratos que envolveram US$ 3 bilhões, das plataformas P-52, P-56, P-51 e P-58.

A delação de Zwi não envolve o nome de políticos com foro privilegiado. Por isso, será submetida para homologação em Curitiba, e não no Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda não há previsão para a análise de Moro. Na quarta-feira, a advogada de Zwi, Marta Saad, não foi localizada para comentar a delação.

O advogado da chapa Dilma/Temer, Flávio Caetano, disse ao GLOBO repudiar o que chamou de “vazamento seletivo de informações de acordo de colaboração que ainda não é oficial”, e negou ter havido caixa 2 na campanha. Ele afirmou que todas as despesas da campanha foram “regularmente contabilizadas e aprovadas pelo TSE”.

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Em nota, Dilma Rousseff disse que “são mentirosas e levianas as acusações” e que apenas o tesoureiro Edinho Silva tratava de arrecadação para a campanha de 2014. Afirmou também que foram pagos R$ 70 milhões a João Santana pelos serviços prestados naquele ano e disse considerar o caso parte da “onda de novas calúnias e difamações dirigidas contra a sua honra”.

Zwi está preso na carceragem da PF em Curitiba desde fevereiro deste ano, acusado de intermediar propinas do esquema de corrupção na Petrobras. Na 23ª fase da Lava-Jato, batizada de “Acarajé”, os investigadores encontraram repasses no exterior para João Santana, por meio da conta suíça da Shellbil. Santana, Mônica e Zwi foram denunciados à Justiça em abril deste ano por corrupção e lavagem de dinheiro.

MULHER DE SANTANA JÁ ADMITIU CAIXA 2

O nome do engenheiro apareceu pela primeira vez na Lava-Jato pelas mãos do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, vinculado à Diretoria de Serviços da estatal, que contou aos investigadores ter recebido no exterior US$ 15,2 milhões divididos com Renato Duque, o ex-diretor da área.

Segundo Barusco, outros US$ 15,2 milhões teriam sido pagos ao PT, por meio do ex-tesoureiro João Vaccari, entre os quais estão os US$ 4,5 milhões pagos ao casal Santana no exterior para a campanha de Dilma. Em depoimento à força-tarefa durante tentativa de fechar delação premiada, em abril, Mônica Moura já havia revelado que, na disputa eleitoral de 2014, pelo menos R$ 10 milhões foram pagos a ela e a João Santana fora da contabilidade oficial. E mais: teria havido caixa 2 nas campanhas pela eleição de Dilma (2010), e pela reeleição de Lula (2006), além das campanhas municipais de Fernando Haddad (2012), Marta Suplicy (2008) e Gleisi Hoffmann (2008). A força-tarefa ainda não aceitou fechar acordo com Mônica, por entender que há mais informações a serem prestadas.

Segundo Mônica, os pagamentos no caixa 2 para campanhas do partido teriam sido intermediados pelos ex-ministros da Fazenda Guido Mantega e Antonio Palocci, além de Vaccari. O trio teria indicado executivos que deveriam ser procurados para ela e João Santana receberem contribuições que não passariam por contas oficiais do PT. Na época, os três e a campanha de Dilma negaram.

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Skornicki já havia sido alvo de condução coercitiva durante a 9ª fase da Lava-Jato, intitulada My Way. Em entrevistas, ele sempre negou ter pagado propina.

CARROS ANTIGOS, LANCHA E OBRAS DE ARTE

Ex-funcionário da Petrobras e representante comercial no Brasil do estaleiro Keppel Fels, o engenheiro polonês Zwi Skornicki, de 66 anos, estava na mira da Polícia Federal desde foi citado pelo ex-gerente da estatal Pedro Barusco como um dos operadores do esquema de corrupção na empresa. Barusco assinara um acordo de delação premiada, o mesmo recurso que agora Zwi vai utilizar para tentar diminuir a própria pena. O empresário escapou de ser preso em fevereiro de 2015, ainda na 9ª fase da Lava-Jato, na Operação My Way, quando foi apenas levado para depor. Ficou calado por orientação do advogado. Foi preso um ano depois, na 23ª fase.

Nas duas operações de que foi alvo, a PF apreendeu bens de Zwi. Na My Way, os policiais encontraram 48 obras de arte na casa dele. Na 23ª fase, levaram uma lancha e a coleção de automóveis antigos de Zwi. São modelos com boa cotação no mercado de esportivos clássicos. O destaque da coleção é o Mercedes-Benz 280 SL “Pagoda”, da década de 1960. No Brasil, o preço de um carro desses, em bom estado, passa dos R$ 350 mil.

Zwi alegou que foram os anos de trabalho no setor petrolífero que lhe renderam o patrimônio que tem.

— Sou transparente, trabalhei pesado, tenho tudo no meu nome. Não escondo nada, não tenho laranja — disse ele, em entrevista ao GLOBO pouco depois da 9ª fase da Lava-Jato, a mesma que prendeu o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.

A PF, no entanto, afirma que Zwi e sua mulher, Eloisa, ocultaram das autoridades brasileiras seis contas no exterior.

Na entrevista ao GLOBO, o engenheiro disse que as denúncias de envolvimento no escândalo não passavam de “fantasia”:

— Parece que resolveram achar que sou o rei da quadrilha. Estou tentando entender porque sou o foco. Eu nunca, nunca, nunca paguei propina. Se você for olhar a Keppel, os nossos preços sempre foram os menores.

Depois de negar ter participado do esquema, Zwi agora disse em delação premiada que pagou US$ 4,5 milhões para campanha de Dilma Rousseff, sem declarar o valor à Justiça Eleitoral.

Um relatório produzido pela PF apontava que o engenheiro tinha relação próxima com Vaccari e outros diretores da estatal indicados por petistas. Segundo o documento, Zwi convidou Vaccari e outros membros da cúpula da Petrobras para o aniversário de seu filho mais novo, Bernardo. Quando conversou com O GLOBO, Zwi confirmou conhecer o ex-tesoureiro do PT.

— Conheço (o Vaccari). Foi quando teve inauguração das plataformas (de petróleo) da Petrobras, da 52 e da 56, ele esteve junto — disse.

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Thiago Herdy
O Globo
Editado por Folha Política
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