quinta-feira, 30 de junho de 2016

PT adota estratégia de 'camuflagem' e se esconde atrás de outros partidos para eleições municipais


Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
Sair da vitrine para escapar de um desastre eleitoral. Esta é a nova tática adotada pelo PT para as eleições municipais deste ano, em outubro. Ao contrário da tese adotada desde a década de 1980, quando foi fundado e fazia questão de candidaturas próprias para todos os cargos majoritários, agora o PT aceita e até prefere sair da linha de frente das campanhas. O objetivo é mitigar a rejeição que a sigla experimenta desde a reeleição da presidente Dilma Rousseff e o aprofundamento das operações policiais que prenderam seus três últimos tesoureiros.


O PT abriu mão de lançar candidaturas em capitais importantes. No Rio de Janeiro, com 4,6 milhões de eleitores, cidade com o segundo maior colégio eleitoral, a legenda já decidiu apoiar a deputada do PCdoB Jandira Feghalli. O pré-lançamento da campanha contou até com a presença do ex-presidente Lula da Silva. A tese de candidaturas exclusivas foi substituída pela tática da barriga de aluguel, com o partido disputando o poder escondido em alianças com outras legendas.

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Em Salvador, com 1,8 milhões de votantes, o governador petista Rui Costa insiste para que a senadora Lídice da Mata (PSB) aceite concorrer. A alternativa do PT à parlamentar é a deputada Alice Portugal, também do PCdoB. O PT baiano aceita até ficar de fora da chapa e lançar apenas vereadores.

Em Belo Horizonte o dilema dos petistas se repete. Lá o PT tem dois pré-candidatos – o deputado federal Reginaldo Lopes e o deputado estadual Rogério Corrêa – mas os dirigentes torcem para que o governador Fernando Pimentel, fundador da legenda, feche um acordo e apoie nome de outra legenda.

Fator São Paulo

O PT prioriza reeleger Fernando Haddad em São Paulo. A direção do partido acredita que, se vencer novamente na maior cidade da América Latina, reduto eleitoral com 8,4 milhões de votos, a vitória vale por milhares de municípios. Eles têm razão. Mas o prefeito paulistano patina em percentuais inferiores a 10% e corre o risco de sequer ir para o segundo turno. No estado berço do PT o partido amarga, desde 2012, a desfiliação de 30 prefeitos.

Das 26 capitais, na melhor das hipóteses o PT deve lançar candidaturas em 17 metrópoles. Mas as boas perspectivas de vitória só existem em Rio Branco (AC), com a reeleição de Marcus Alexandre; em Recife, com o ex-deputado federal João Paulo, que já administrou a cidade duas vezes; e em Fortaleza, onde a deputada Luizianne Lins tem viabilidade eleitoral.

Luizianne é uma exceção entre os deputados. A bancada, que antes utilizava as eleições municipais das capitais para se fortalecer eleitoralmente, neste ano evita concorrer porque está contaminada pela crise político-policial que o partido enfrenta em nível nacional. “As eleições deste ano serão um desastre para o PT. O partido não será destruído, mas sairá gravemente danificado”, diz o cientista político David Fleischer, emérito da UnB.

Além de Fortaleza, Rio Branco e Recife, o PT considera que tem candidaturas competitivas em Natal, Goiânia, Manaus e Porto Alegre. Em cidades grandes do interior a sigla também terá dificuldades. A opinião pública nos municípios mais populosos é influenciada pelas crises nacionais, como a atual, com elevado índice de desemprego e constantes denúncias de corrupção – nesse caso específico, preocupam os petistas as delações de réus presos nas operações Lava Jato, Acrônimo e Zelotes que relatam pagamento de propina à legenda por empreiteiras que prestam serviço à Petrobras.

Desde 1988, o PT aumenta significativamente o número de prefeitos e vereadores a cada eleição municipal. Em 1992, tinha 54 prefeitos. Na eleição seguinte, mais do que dobrou este número. Em 2000, o partido foi escolhido para administrar 186 municípios. Quatro anos depois, no segundo ano do governo Lula, pulou para 409. No pleito de 2008, foram 558 prefeitos eleitos. Em 2012, bateu o recorde e chegou ao poder em 635 cidades.


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Mensalão e Petrolão

O desgaste dos petistas junto à opinião pública começou em 2005, com o julgamento do mensalão, que condenou e prendeu próceres da sigla como o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha. Os primeiros sinais da onda anti-PT foram percebidos logo após as eleições municipais de 2012. Neste pleito, o partido ainda foi escolhido para administrar um bom número de municípios.

Com a força da terceira eleição para a Presidência da República, ganhou um lote de adesistas e contabilizou 635 prefeitos. Um ano depois, uma onda de desfiliações derrubou as estatísticas, reduzindo a administração do partido a 530 cidades.

Em março deste ano, quando o ex-presidente Lula foi levado coercitivamente para depor na Polícia Federal como suspeito de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito, aumentou a debandada de prefeitos. “A tendência é a perder um bom número de prefeitos e vereadores em razão da crise do impeachment e da campanha pela criminalização da política em geral e do partido em particular”, admite o senador Paulo Rocha (PA), fundador da legenda.

A direção nacional do partido prevê dificuldade na próxima campanha. Mas não admite que haverá um desastre. Joga a culpa pela redução de municípios administrados pela legenda ao troca-troca geral e até natural de siglas em razão do fisiologismo. A cúpula também alega que há uma campanha contra o PT.

“O PT é forte, mas sofre um ataque diuturno e é vítima de um golpe que nos atinge em cheio”, diz o secretário de organização do partido, Florisvaldo Souza.

Com a crise do impeachment da presidente Dilma Rousseff e as consequências do elevado índice de desemprego, resultado do desastre na condução da economia, o PT corre o risco até de ter seu registro barrado na Justiça eleitoral, por ação de opositores. Até as eleições de outubro, o partido pretende fechar antigas alianças com partidos de esquerda, ao passo em que terá de escapar da Justiça e conquistar eleitores.

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Leonel Rocha 
Congresso em Foco
Editado por Folha Política
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