domingo, 10 de julho de 2016

Envelheci dez anos em meses, diz Janaina Paschoal


Imagem: Reprodução / IstoÉ
"Trabalho 25 horas por dia. É uma intensidade e uma exposição que eu nunca vivi. Acho que envelheci uns dez anos nos últimos meses." Mas, para a advogada Janaina Conceição Paschoal, 42, todo e qualquer o esforço é válido. "É por uma boa causa", diz.


Uma das denunciantes do impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff (PT), em conjunto com o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, 72, e com o advogado aposentado e ex-petista Hélio Bicudo, 93, ela é a mais ativa integrante da acusação no processo que visa tirar definitivamente a petista do poder.

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Desde que o Senado votou pelo afastamento de Dilma, no dia 12 de maio, a comissão do impeachment na Casa se reuniu 19 vezes. Janaina, que mora em São Paulo, bancou do próprio bolso as viagens e a hospedagem, e só faltou a três sessões –entre elas as duas primeiras, quando houve apenas reuniões de trabalho do colegiado.

Também residente da capital paulista, Reale Júnior foi a Brasília duas vezes neste período. Bicudo, por conta de problemas cardíacos, não pode viajar de avião. Segundo Janaina, os dois são consultados e leem as peças mais importantes do processo.

"Não consigo me manifestar sobre um documento que eu não tenha efetivamente lido. Isso faz parte da minha maneira de ser. Tem aspectos positivos e negativos. Eu acho que para o processo é positivo. Eu estou sempre muito preparada. Para a minha saúde, minha vida social, é muito complicado, porque eu vivo para o trabalho", declara.

"Auxílio-impeachment"

Outras quatro pessoas estão diretamente envolvidas na causa. Flávio Henrique Costa Pereira é advogado do PSDB e subscreveu a petição do impeachment. Já a economista Selene Péres foi designada por Janaina para ser assistente técnica da junta pericial.

De Brasília, os advogados João Berchmans e Eduardo Nehme passaram a ter procuração para falar pela acusação. Foram convidados, em junho, pelo "professor Miguel" --como Janaina sempre se refere a Reale Júnior, que em 2002 foi seu orientador no doutorado em direito penal na USP (Universidade de São Paulo), onde os dois atualmente lecionam.

"O professor Miguel não pode ficar o tempo todo aqui e ficou preocupado de ter algum problema no meu voo e não ter ninguém na comissão. O apoio dos colegas está ajudando muito na logística. Antes eu não tinha nem onde imprimir uma petição", comenta. Segundo Janaina, nenhum dos auxiliares está cobrando nada pelos serviços.

Na madrugada seguinte à entrega do laudo pericial requisitado pela comissão, no dia 27 de junho, ela conta ter ficado acordada "até a hora que foi necessária" para lê-lo na íntegra. "Pode reparar aqui, olha as orelhinhas. Eu fiz orelhinhas nele inteiro", diz, folheando as 223 páginas do documento, muitas delas com as pontas dobradas.

Em conversa com a reportagem no último dia 28, Janaina contou que integrantes de movimentos pró-impeachment, como o "Vem Pra Rua" e o "NasRuas", eventualmente lhe chamam para se hospedar em suas casas, mas ela sempre nega. "Eu sou muito fechada, apesar de ser uma pessoa muito comunicativa. Eu gosto de chegar no hotel, tomar meu banho, me trancar e ler."

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Os militantes, conta a advogada, às vezes a buscam no Congresso para levá-la ao hotel, por medo de que "aconteça alguma coisa" com ela, como uma agressão ou algum tipo de retaliação. "Vou te dizer: da população, eu acho quase impossível. Nas ruas as pessoas só param para me abraçar, parabenizar, agradecer. Alguns para fazer orações, tirar foto".

Janaina afirma estar arcando, por conta própria, com os custos dos voos entre São Paulo e Brasília e da hospedagem na capital federal. Ela diz não ter feito os cálculos de quanto gastou até o momento, mas conta que cada ida e volta --foram pelo menos sete desde o início do processo, no ano passado-- custa, em média, R$ 1.500. Já as diárias no hotel variam em torno de R$ 220.

Embora ela não goste de falar dos custos, cálculos feitos pela reportagem do UOL estimam que a advogada já gastou aproximadamente R$ 15 mil, considerando que cada viagem pode servir para mais de uma sessão. "Encaro este processo todo como um trabalho voluntário para o meu país", declarou Janaina.

Ela conta que o seu escritório recebe ligações de pessoas querendo ajudar com dinheiro. "Agradeço muito, mas não aceito. Mas deixei claro que se a coisa se prolongasse demais e eu tivesse alguma dificuldade eu falaria, mas, graças a Deus, está dentro do previsto. Não estourou meu orçamento", afirma a advogada.

Quando está em São Paulo, o dia a dia "não mudou em nada". Continua "batendo cartão" no mesmo restaurante japonês, toda semana. Na USP, diz ter conseguido não faltar a nenhuma aula neste semestre. "Esse período agora mais concentrado [do processo de impeachment] acabou coincidindo de ser o período de provas."

Ao comentar o período em que está envolvida com o impeachment, Janaina faz um balanço positivo: "Foi um ano e tanto! Mas aprendi muito com tudo isso. Poucos seres humanos tiveram uma experiência como esta. É um teste de resistência física e emocional. E de fé".

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