domingo, 10 de julho de 2016

Laranja de fornecedor da campanha de Dilma negociou ‘cala boca’ com empresário


Imagem: Fernando Donasci / Agência O Globo
Após 10 anos trabalhando como motorista pessoal de Carlos Roberto Cortegoso, dono da Focal Comunicação, segunda maior fornecedora da campanha de Dilma, da qual recebeu R$ 25 milhões nas eleições de 2014, Jonathan Gomes Bastos admite ter atuado como laranja do empresário que está na mira da Polícia Federal e tentou negociar na Justiça um acordo com seu ex-chefe para receber uma indenização mensal de R$ 6 mil por 12 anos e ficar em silêncio.

O acordo foi proposto no fim do ano passado, ao mesmo tempo em que ele acionou a Justiça contra seu antigo patrão pedindo uma indenização de ao menos R$ 4 milhões por não ter recebido dinheiro movimentado em uma das empresas de Cortegoso na qual aparecia como sócio até 2011: a CRLS Consultoria e Eventos, que está na mira da Procuradoria da República por suspeita de caixa 2 do PT.

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O valor é referente ao lucro que a empresa teria obtido ao adquirir e depois revender em 2010 sete terrenos do pecuarista José Carlos Bumlai, em São Bernardo do Campo.

Os advogados de Cortegoso e de Jonathan tentaram negociar os termos do acordo. Nele, contudo, o valor que seria acertado ficaria em menos de um quarto do que foi pedido pelo ex-motorista inicialmente: R$ 846 mil em 144 parcelas mensais depositadas na conta da advogada de Jonathan.

Cortegoso teria ainda que pagar todas as dívidas que Jonathan tivesse herdado por conta da empresa. Uma das cláusulas previa que cada um dos envolvidos devia manter o sigilo das informações “quer pessoais, profissionais, não podendo um falar do outro, para com terceiros, funcionários e, afins”, diz o documento, que foi encaminhado ao juiz da 4ª Vara Cível de São Bernardo do Campo, onde está a ação contra Cortegoso.

Em caso de descumprimento desta cláusula, que proíbe qualquer uma das partes de falar sobre o assunto também com “credores, clientes, comerciais, funcionais, partidários” eles estariam sujeitas a pagar multa.

Cortegoso nunca chegou a assinar o acordo, mas fez os pagamentos para Jonathan até maio deste ano. No documento do acordo encaminhado à Justiça há apenas as assinaturas de Jonathan e sua advogada, e sequer há espaço para a assinatura do nome do empresário e de seus advogados.

Outra cláusula do documento prevê ainda que um dos imóveis de Cortegoso ficasse como garantia do pagamento e que o ex-motorista iria desistir de outras ações, referentes as outras empresas que estavam em seu nome.

Em outra ação movida por Jonathan, referente a outra empresa na qual ele atuou como laranja, o juiz da 5ª Vara Cível de São Bernardo, diante das acusações de financiamento ilegal de campanha feitas pelo motorista, determinou que o material fosse encaminhado ao Ministério Público Federal em São Paulo para apurar as suspeitas de irregularidades.

Perante o juiz, a defesa do empresário não comentou nada sobre o acordo. Ela ainda contesta as alegações de Jonathan e diz que a CRLS se tornou alvo de ações trabalhistas somente após a saída do ex-motorista do quadro societário da companhia.

Além disso, os defensores do empresário alegam que Jonathan não tem nenhum processo trabalhista nem execução fiscal em seu nome devido a CRLS, pedem a anulação da ação contra Cortegoso e que a advogada de Jonathan seja multada por litigância de má fé – quando uma das partes é acusada de usar manobras protelatórias ou mesmo usar a Justiça para conseguir benefícios ilegais.

Diante do imbróglio, o juiz marcou uma audiência para ouvir os dois lados e decidir sobre a homologação do acordo. O processo, contudo, corre em segredo de Justiça.

Relação. Hoje com 35 anos, Jonathan começou a trabalhar como office boy para Cortegoso em 2004 e foi ganhando confiança do empresário que fez carreira atuando em campanhas petistas em todo o Brasil desde a década de 1990. A pedido do chefe, forneceu seu nome para a composição de quatro empresas.

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Destas, uma já foi encerrada e outra, a CRLS, está na mira da Operação Custo Brasil apontada como uma das firmas que teria sido usada para movimentar propina da Consist para o PT no esquema que desviou R$ 100 milhões em operações de créditos consignados de servidores do Ministério do Planejamento. Diferente da Focal que produz material gráfico, a CRLS realiza eventos, ajuda na montagem de palanques eventos para campanhas eleitorais, sobretudo do PT.

Relatório da Receita Federal repassado à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal revela que, entre 2010 e 2014 a CRLS Consultoria e Eventos, movimentou quase R$ 50 milhões, de créditos e débitos, mas declarou apenas R$ 10 milhões no período.

A residência de Cortegoso chegou a ser alvo de buscas na Custo Brasil, mas antes mesmo da PF chegar ao seu antigo patrão, Jonathan começou a se preocupar com o avanço das investigações sobre o PT e as empresas de seu ex-chefe. No ano passado, ele foi notificado em uma ação trabalhista envolvendo outra empresa na qual figurou como laranja e buscou a ajuda de uma advogada para tentar provar que não se envolveu com o esquema de corrupção, tendo sido apenas um nome usado nas empresas de seu ex-chefe.

À Justiça em São Bernardo do Campo, os advogados de Cortegoso chegaram a afirmar que Jonathan foi o “filho” que o empresário nunca teve.

Procurados para comentar o assunto, os advogados de Jonathan e Cortegoso não quiseram comentar o caso que corre em segredo de Justiça. Jonathan também não está dando entrevistas.

COM A PALAVRA, O PECUARISTA JOSÉ CARLOS BUMLAI

Por meio de sua defesa, o pecuarista José Carlos Bumlai informou que vendeu terrenos para a CRLS, mas que nunca tratou com Carlos Cortegoso. Leia a nota:

“José Carlos Bumlai de fato foi proprietário de alguns imóveis em São Bernardo do Campo, recebidos em pagamento de dívidas e posteriormente vendidos à empresa CRLS Consultoria e Eventos. No entanto, a negociação sequer foi tratada com a pessoa de Carlos Cortegoso, sendo que a venda foi concretizada dentro da mais estrita observância da legislação, de modo que não há nenhuma irregularidade no negócio.

Ademais, Bumlai já foi inquirido pelos Delegados Federais de Curitiba sobre o assunto, ocasião que esclareceu devidamente os fatos.”

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Mateus Coutinho, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fabio Serapião 
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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