sexta-feira, 5 de agosto de 2016

22 anos depois do crime, mãe comemora possibilidade de assassino da filha ser preso


Imagem: Reprodução / O Povo
A manutenção da condenação de Wladmir Lopes de Magalhães Porto, autor do disparo que atingiu a bailarina cearense Renata Braga de Carvalho, é uma vitória para a mãe da jovem. Após 22 anos e sete meses, Oneide Braga comemora, finalmente, a perspectiva do acusado de matar sua filha ser preso. No entanto, acredita que a justiça não foi feita: "usando a frase de Rui Barbosa, justiça tardia não é justiça”. 


Em 28 de dezembro 1993, quando ocorreu o crime, Wladmir passava férias em Fortaleza. Ele cursava Geografia numa universidade de Brasília, enquanto Renata sonhava em ser atriz no Rio de Janeiro. A jovem era a caçula de uma família de três irmãos.

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No dia da morte, ela estava com um grupo de amigos em um jipe que quase colidiu com a Mitsubishi onde estava Wladmir Lopes, na Beira Mar de Fortaleza. Os condutores dos veículos discutiram, e o condenado atirou contra o Jipe, atingindo Renata, que morreu de hemorragia.

Ex-comerciante, a mãe de Renata encontrou tranquilidade para superar sua perda conhecendo a dor dos outros, que também tiveram familiares mortos. Fundou, em junho de 1999, a Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (Apavv), com reuniões mensais até hoje. ''Nós sofremos a violência contra a minha filha, que foi arrancada prematuramente, e sofremos também a violência da demora da justiça. Ele [Wladmir] usou todos os artifícios possíveis que o possibilitaram ficar em liberdade", comenta Oneide.

Além de manter a condenação de Wladmir, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) determinou, na última segunda-feira, 1º, expedição de mandado de prisão para cumprimento imediato da pena. Para a relatora do caso, desembargadora Maria Edna Martins, a “execução provisória de acórdão penal condenatório proferido em grau de apelação, ainda que sujeito a recurso especial ou extraordinário, não compromete o princípio constitucional da presunção de inocência”.

Esse foi o quarto julgamento sobre o caso e, assim como nos anteriores, a defesa do condenado já sinalizou que irá recorrer da decisão. No terceiro julgamento, Wladmir havia sido condenado a 12 anos e seis meses de prisão e, por enquanto, continua em liberdade. 

"Aguardamos a publicação do acórdão para ingressar recursos em busca daquilo que nós entendemos ser o melhor para o cliente. Ele já cumpriu nove meses de prisão, então se for preso novamente, teria que cumprir um sexto da pena. Isso daria pouco mais de três meses", calculou advogado de defesa, Clayton Marinho.

De acordo com o TJCE, o mandado de prisão será entregue à Delegacia de Capturas do Ceará nesta quinta-feira, 4 . Como o documento vale para todo o território nacional, a princípio, quem fará a prisão será a Polícia de Brasília, onde Wladmir possui residência. 

O TJCE informou ainda, por meio de assessoria de imprensa, que o prazo para a publicação do acórdão é de dez dias, “mas não existe relação entre o cumprimento do mandado de prisão e a publicação”. 

Impunidade 

Segundo Oneide, o autor do disparo contra Renata deveria ter sido punido no primeiro julgamento. "Se fosse meu filho, eu teria o aconselhado para cumprir logo sua pena. Ficou protelando e agora está em dívida".

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Apesar da impunidade dos últimos anos, Oneide acredita que a nova condenação foi uma vitória “levando em consideração que Waldmir é sobrinho de desembargadores e tem poder aquisitivo”.

"Em uma arrogância enorme, o pai dele disse a um jornal que gastaria todo seu dinheiro para o filho não ser preso. Nós moramos em um País onde os corruptos são quem estão comandando. Na época que ela [Renata] foi assassinada, quem questionava um juiz? Hoje já vemos pessoas de poder presas, a justiça tem que ser feita", clama.

Saudade 

A Apaav, fundada inicialmente por Oneide com mais 12 famílias que viveram dramas semelhantes, tem o objetivo de prestar atendimento jurídico, psicológico e social aos familiares das vítimas de violência. "Foi um acalento porque eu vi meu caso ficando pequeno perto do sofrimento das pessoas querendo fazer justiça com as próprias mãos. Eu digo que é a Apaav é um showroom da dor, pois temos gente com familiares mortos de forma perversa. Pessoas que tiveram ossos quebrados, língua e olhos cortados quando ainda estavam vivos", narra.

A ideia para a associação, segundo Oneide, começou quando ela recebeu uma mensagem da filha, em um Centro Espírita. "Eu sonhava todo dia com a Renata falando comigo, mas era como se tivesse um vidro entre nós duas. Eu não dava muito crédito a essas coisas, mas a mensagem falava coisas da nossa convivência com a Renata", conta. 

Com a morte da filha, Oneide passou a trabalhar com direitos humanos e proteção às vítimas de violência. "Queremos a justiça pelas vias legais para que isso não volte a respingar na sociedade", frisa a mãe.

"Renata era o ‘xodózinho’ da família, a perda dela foi um paredão que se ergueu abruptamente na minha frente. Eu não tinha mais para onde ir, e meu marido disse: ou a gente aceita, ou a gente acaba com a nossa vida. Eu pedi forças ao Senhor, hoje me considero uma fortaleza. Ela sempre dizia que tristeza não combina comigo, e isso me deu fé para seguir”, completa a fundadora da Apaav.

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Amanda Araújo
O Povo
Editado por Folha Política
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