segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Fazenda doada por Gilberto Gil ao MST segue sem assentados após dez anos


Imagem: Claudio Leal / Folhapress
Mais de uma década depois, uma fazenda doada pelo compositor Gilberto Gil ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), na zona rural de Cravolândia (BA), a 300 km de Salvador, segue quase esquecida e sem moradores fixos.

História pouco conhecida, o sonho da pequena reforma agrária se iniciou em 2003. Simpatizante do MST, o então ministro da Cultura de Lula resolveu entregá-la aos sem-terra, na expectativa de um renascimento da propriedade.


A experiência campesina de Gil deve-se à amizade com o designer Rogério Duarte (1939-2016), do grupo da Tropicália. Unidos na viagem tropicalista, Duarte criou para Gil mais capas de discos do que para qualquer outro amigo. São dele os projetos visuais de "Gilberto Gil" (1968), "Gilberto Gil" (1969), "Gilberto Gil ao Vivo" (1974) e "Gil Jorge Ogum Xangô" (1975), além da marca de "Refazenda" (1975). Compadres, eles fizeram juntos as músicas "A Última Valsa" e "Objeto Semi-identificado".

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Na década de 1980, uma fazenda no vale do Jiquiriçá renovaria essa ligação espiritual. Em 1977, o designer deixou Brasília e voltou a morar na Bahia com a mulher, Telma, convertendo-se à vida de fazendeiro. Num depoimento de outubro de 1997, disponível no site do músico, Duarte lembrou de "um sufoco financeiro total e absoluto". Em turnê pelo interior baiano, Gil quis ajudá-lo, comprando metade da fazenda.

Passados alguns anos, o designer vendeu a propriedade para investir em outras duas de tamanho menor. "Eu resolvi vender a fazenda sem sequer lhe consultar", relembrou no diálogo com Gil. Nessa fase, o amigo teria direito a uma fatia proporcional ao investimento. Em 2003, Gil avisou que doaria a parte que lhe cabia ao MST.

A fazenda fica em região próxima à Palestina, um antigo latifúndio exportador de café que se transformou num assentamento de 4,3 mil hectares, onde vivem 180 famílias desde 1999, de acordo com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Os frequentadores de um bar do vilarejo ainda chamam a propriedade da vizinhança, doada ao MST, como "a fazenda de Gilberto Gil", a 30 minutos de carro do centro da cidade.

Quilômetros adiante, o pequeno agricultor Florisvaldo Sena dos Santos, 32, aceitou guiar a reportagem até o local. Em novembro de 2015, Duarte também indicou onde ficava a terra de até 70 hectares. "Largaram mão e o capim tomou conta. Tem carrapato de matar com o pau."

Dias antes, afetada pela chuva, a estrada de barro estava enlameada. Em 19 de agosto, restavam poças ao longo do trajeto. O carro não avançou por todo o caminho estreito. A alternativa foi andar numa trilha, descer e subir morros verdejantes, e enfim avistar uma casinha de barro, bem descascada, e a porteira embaixo de uma colina com a mata. Não havia cuidadores naquela tarde.

"Antigamente era café, laranja, manga, muita fruta que tinha aqui. Jaqueira, gado... Hoje, está tudo largado", disse Florisvaldo, num cenário talvez propício à Refazenda descrita na canção de Gil. Na propriedade ao lado, o trabalhador rural Gércio Cerqueira dos Santos, 35, afirmou que somente um homem costuma aparecer na terra vizinha, duas vezes por semana.

Líderes do MST na Bahia, Márcio Matos e o representante estadual da direção do movimento, Evanildo Costa, evitaram falar com a reportagem, depois do primeiro contato telefônico. O deputado federal Valmir Assunção (PT), político formado no MST que acompanhou a conversa para a doação, não respondeu ao pedido de entrevista.

Em mensagem por e-mail, o MST baiano admite a inércia: "De acordo com a direção do MST no Estado, a área doada por Gilberto Gil não comporta um assentamento de reforma agrária, as informações que temos apontam que o sítio possui entre 40 a 70 hectares. Esse processo pode ser confirmado com o Incra, órgão responsável pelo processo de desapropriação. Além disso, existem diversas dificuldades de acesso, tendo em vista que historicamente não houve investimentos em infraestrutura".

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"O MST até então, por conta destas questões e das demandas emergenciais do dia a dia, até o exato momento, não fez um investimento maior na propriedade, não havendo moradores fixos na localidade", relata.

A superintendência do Incra no Estado informa que Gilberto Gil "pode fazer doações de áreas rurais a associações de agricultores e pessoas físicas, mas ao Incra não há nenhum processo em questão". E detalha: uma área de 70 hectares, em Cravolândia, é considerada "uma pequena propriedade" (na cidade, cada módulo fiscal possui 35 hectares). A legislação do Incra "determina que a criação de assentamentos só seja realizada para assentar, no mínimo, 15 famílias".

A Folha apurou que nenhuma das atuais restrições foi manifestada pelo MST a Gil, na época da entrega. Nos últimos anos, o compositor sentia-se curioso pelas consequências do gesto.

A reportagem pretendia contar o destino dos possíveis beneficiados pelo presente do artista. E descobriu que, até agora, não há assentados. Em tratamento de saúde por insuficiência renal, Gil não vai se manifestar, mas soube da apuração da história. Fotos do lugar foram enviadas para sua mulher, Flora, e para a assessoria dos sem-terra.

Na sede do MST, em Salvador, a integrante da secretaria estadual, Edineia Santana, justificou a ausência de ações: "Nos últimos dez anos, vieram outras prioridades. Como é uma terra conquistada, o processo precisa ser retomado". Apesar da promessa, não foi apresentada a documentação com os dados da propriedade rural. O MST pensa na ideia de uma "área experimental" de agricultura.

"Muita gente quer terra, e esta aí fica sem ninguém. A fazenda tem o mais importante: água", ressaltou o agricultor Florisvaldo, que conhece pouco a obra de Gilberto Gil e não rejeitaria um pedaço do paraíso.

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Claudio Leal
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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