quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Bancos suíços tiveram que fazer hora extra para repatriar dinheiro de brasileiros


Imagem: Reuters
Num grande banco à beira do lago de Genebra, as luzes dos escritórios ficaram acesas durante a noite de domingo para segunda-feira, algo raro na Suíça. Ali, gerentes e advogados que cuidam de clientes latino-americanos fechavam os últimos detalhes para o repatriamento de recursos de brasileiros, ou transferência de contas, por conta do fim do prazo da anistia fiscal dada pelo governo.

A mesma correria foi registrada em outros estabelecimentos, obrigando seus funcionários – muitos deles brasileiros – a também fazerem hora extra.

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Para banqueiros que falaram ao jornal O Estado de S. Paulo na condição de anonimato, inicialmente o programa de repatriação de recursos não entusiasmou muitos clientes brasileiros, mas a decisão do Congresso de não estender o prazo levou muitos a correrem em busca de solução nos últimos dias do programa de anistia fiscal.

Oficialmente, os bancos suíços não se pronunciam se os clientes brasileiros optaram por retornar com suas fortunas ao País. “O UBS não comenta”, diz por meio de e-mail um porta-voz do banco. Em outras instituições financeiras, a regra é a mesma.

Segundo pessoas do alto escalão do setor financeiro suíço, esses bancos de fato não têm condições de falar abertamente sobre o caso. Isso porque, se reconhecerem que tinham dinheiro irregular, podem ser questionados legalmente. Entre banqueiros das grandes instituições financeiras na praça suíça, a ordem era a de avisar os clientes brasileiros que teriam duas opções: regularizar sua situação com o fisco ou fechar as contas e criar novos mecanismos. “Uma parte optou pela repatriação”, disse um gerente.

Alguns deles admitiram ter sugerido aos correntistas que regularizassem suas situações fiscais. “Constatamos um interesse de nossa clientela sul-americana pelas anistias fiscais oferecidas pelo Brasil e pelo novo governo argentino, em particular”, disse a porta-voz da Associação de Bancos Privados da Suíça (ABPS), Fabienne Bogadi. Entre os membros da associação estão alguns dos bancos mais tradicionais da Suíça, como o Lombard Odier, Mirabaud ou Pictet. “Esses bancos recomendam aos seus clientes que aproveitem essa anistia para se regularizar fiscalmente.”

Mas nem todo o dinheiro ilegal foi enviado de volta ao Brasil. Parte foi mantida no exterior, seja pela criação de novos mecanismos legais, fuga para bancos menores ou mesmo para paraísos fiscais ainda mais opacos. Por enquanto, se os grandes bancos temem exposições diante de escândalos cada vez mais frequentes, como no caso da Lava Jato, as instituições menores ainda aceitam tais clientes, na esperança de atrair capital.

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“Os bancos suíços apoiam ativamente seus clientes para cumprir suas obrigações atuais e do passado em termos de impostos”, disse Daniela Lüpold, porta-voz da Associação dos Bancos Suíços (ABS). Segundo ela, “é importante notar que as instituições não querem ativos que não sejam taxados”. “Como a interação entre clientes e bancos está ocorrendo apenas entre as duas partes e sem o envolvimento da ABS, não podemos dar nenhuma orientação para clientes”, explicou Daniela.

Depósitos. Poucos se atrevem a avaliar o valor da fortuna brasileira no país. Em 2011, o Banco Central suíço indicava que as instituições tinham pelo menos US$ 6 bilhões em nome de brasileiros. Entre 2005 e 2009, o BC suíço apontou a entrada de mais US$ 1,1 bilhão do Brasil. Segundo dados oficiais, nenhum outro país emergente registrou tal avanço. A fortuna mantida por brasileiros na Suíça já era, naquele momento, superior à de clientes da China, Índia e Arábia Saudita.

Em 2015, porém, o BC apontou para uma queda importante no valor de dinheiro oficialmente mantido pelos brasileiros nos bancos suíços. Segundo dados oficiais, não passaria de US$ 3,2 bilhões, também sem contabilizar os recursos ilegais e aqueles que se servem de trusts montados em outras jurisdições. Tradicionalmente, a Suíça é a sede de um terço das fortunas do mundo. Em maio, o Banco Nacional do país indicou que a praça financeira local mantinha mais de US$ 6 trilhões em depósitos de todo o mundo.

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Jamil Chade
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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