segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

'Cada dia é mais evidente o compromisso de certos jornalistas com o equívoco, com a ideologia, com a manipulação da informação', diz colunista


'Se ela fosse de esquerda seria hoje o símbolo do feminismo,
um exemplo, estaria sendo exaltada pela sua atuação'
Imagem: Reprodução / Redes Sociais

O colunista Bruno Garschagen, do jornal Gazeta do Povo, chama a atenção para o papel da imprensa na desinformação em relação à política. A partir do episódio envolvendo Marine Le Pen, que se recusou a cobrir a cabeça para se encontrar com um líder muçulmano, Garschagen mostra que a questão vai mais além: "basta que um político e o seu partido não sejam a expressão ou a representação daquele ideal de mundo acalentado por certos jornalistas para que eles abram mão do compromisso de informar e passem a militar".


Leia abaixo o texto completo: 

Quer saber o que acontece no mundo da política? Não tente descobrir pela grande imprensa. E não me refiro apenas à brasileira. Cada dia é mais evidente o compromisso de certos jornalistas com o equívoco, com a ideologia, com a manipulação da informação, com a desinformação. Se fake news é a expressão do momento, o que vem acontecendo, e não é de hoje, é muito pior, mais profundo, mais grave.
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O mais recente exercício de manipulação da informação pretendeu atacar Marine Le Pen, líder do partido francês Frente Nacional. Não tenho a menor simpatia pela agenda política da senhora Le Pen, mas uma coisa é criticar o seu projeto; outro é condená-la por aquilo que ela não fez.
Vocês devem ter acompanhado a história: a grande imprensa estrangeira e brasileira denunciou como absurda a recusa de Marine Le Pen de usar véu num encontro agendado na terça-feira passada em Beirute, com o grão-mufti Abdul Latif Derian. No mesmo dia, as jornalistas Helen Braun e Vera Magalhães ratificaram a acusação com uma falsa informação durante o programa 3 em 1, da rádio Jovem Pan FM. Disseram elas que a exigência de uso do véu foi feita, Le Pen aceitou e, na hora, voltou atrás. Helen Braun chegou a dizer que Le Pen assim agiu para promover o seu partido num “momento crítico” para a Frente Nacional, que no dia anterior foi alvo de uma busca pela polícia realizada em sua sede numa investigação de uso indevido de dinheiro de fundos da União Europeia para pagamento a dois funcionários. Disse também que outro motivo seria o desejo de Le Pen de ampliar a proibição do uso do véu na França.
Vera Magalhães insistiu no erro ao invocar o protocolo para visitas religiosas. “Acho que ela fez isso para marcar uma posição que é política (...) e, em termos diplomáticos, ela cometeu um erro, uma gafe, e quis desviar, sim, a atenção para esse momento difícil pelo qual a campanha dela passa”. Tolice.
O que, afinal, aconteceu? Aos fatos: na segunda-feira, um dia antes da reunião, Marine Le Pen avisou que não usaria o véu. Como o encontro de terça com o grão-mufti não foi cancelado, ela pensou que não haveria problema. “Acreditei, portanto, que aceitariam que não usasse um véu”, disse ela aos jornalistas. Quando lá chegou, porém, foi pressionada para usar a peça. “Tentaram me impor isso.”
E nem foi a primeira vez que algo semelhante aconteceu com a líder da Frente Nacional. Em 2015, no Cairo (Egito), ela disse que não usaria a peça para se encontrar com o grande imã de Al Azhar, Ahmed al-Tayeb. E foi recebida.
Marine Le Pen, a propósito, nem cometeu um feito inédito. Em 2015, Michelle Obama já havia se recusado a usar um véu durante a visita que realizou à Arábia Saudita com Barack Obama para o enterro do rei Abdullah. E em dezembro do ano passado a ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, recusou-se a usar véu numa visita à Arábia Saudita. E também não cedeu à pressão das autoridades locais para que as outras mulheres da delegação alemã usassem a peça.
O que explica, então, a reação de certa imprensa em relação ao ato de Marine Le Pen? O editor Carlos Andreazza, no mesmo programa 3 em 1 da Jovem Pan, foi cirúrgico: “se ela fosse de esquerda seria hoje o símbolo do feminismo, um exemplo, estaria sendo exaltada pela sua atuação”.
Ou seja, basta que um político e o seu partido não sejam a expressão ou a representação daquele ideal de mundo acalentado por certos jornalistas para que eles abram mão do compromisso de informar e passem a militar.
Ao fazê-lo, esses profissionais parecem seguir à risca o que disse o senhor Culver à sua mulher na peça A Comedy in Three Acts, do escritor inglês Arnold Bennet: “os jornalistas dizem uma coisa que sabem não ser verdadeira na esperança de que, se a disserem durante bastante tempo, ela acabará sendo”.

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Luciana Camargo
Folha Política

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