sexta-feira, 24 de março de 2017

Ex-assessor parlamentar confirma à PF que Serraglio participou de indicação de fiscal preso


Imagem: Alex Ferreira / Câmara dos Deputados
Um ex-assessor do deputado Sérgio Souza (PMDB-PR) confirmou em depoimento à Polícia Federal que sete parlamentares peemedebistas, entre eles o atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB-PR), indicaram o fiscal federal Daniel Gonçalves Filho, preso desde sexta-feira, 17, como um dos alvos centrais da Operação Carne Fraca, para o cargo no Ministério da Agricultura.

Ronaldo Sousa Troncha procurou o delegado da Carne Fraca, Mauricio Moscardi Grillo, nesta quarta-feira, 22, espontaneamente para depor.

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“Próximo do ano de 2008 sete dos oito parlamentares (deputados federal), do Estado do Paraná ligados ao PMDB formalizaram a indicação de Daniel Gonçalves Filho para novamente assumir a superintendência regional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no Paraná”, declarou Troncha.

“Apoiaram esta indicação os deputados Moacir Micheletto, Max Rosenmann, Hermes Frangão Parcianelo, Osmar Serraglio, Odílio Balbinoto, dentre outros.

Segundo o ex-assessor parlamentar, “apenas o deputado Marcelo Almeida, à época suplente do ministro Reinhold Stephanes, não teria participado da formalização da indicação” de Daniel Gonçalves Filho, superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016.

A Carne Fraca aponta Daniel Gonçalves e Maria do Rocio Nascimento como os “líderes da organização criminosa”.

Troncha afirmou que foi durante 15 anos assessor do deputado Micheletto. Após sua morte, passou a assessorar Sérgio Souza, em 2012, na época senador pelo PMDB do Paraná. Investigado pela Carne Fraca por ter caído nos grampo da PF, que monitorava fiscais do Ministério da Agricultura suspeitos de corrupção, a testemunha disse foi assessor do senador até 2014, passando para a assessoria da liderança do PMDB no Senado, até abril de 2015.

A partir de abril de 2015, Troncha declarou que voltou a assessorar Sérgio Souza como deputado, na Câmara, tendo deixado o cargo até agosto de 2016, quando pediu exoneração do cargo para assumir como assessor da Diretoria de Operação e Manutenção de Furnas Centrais Elétricas.

Sérgio Souza, que também aparece nos grampos da Carne Franca, foi eleito por unanimidade nesta quinta-feira, 23, presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara.

Nesta terça-feira, 21, a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) afirmou em discurso na tribuna que, no período em que comandou o Ministério da Agricultura (2015-2016), foi pressionada por dois deputados do PMDB para não demitir Daniel Gonçalves Filho. Seriam Serraglio e Sérgio Souza.

A Carne Fraca mira corrupção na Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Paraná (SFA/PR) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No rol de empresas investigadas pela Polícia Federal estão a JBS, dona da Seara e da Big Frango, a BRF, controladora da Sadia e da Perdigão, e os frigoríficos Larissa, Peccin e Souza Ramos.

Na lista de irregularidades identificadas pela PF estão o pagamento de propinas a fiscais federais agropecuários e agentes de inspeção em razão da comercialização de certificados sanitários e aproveitamento de carne estragada para produção de gêneros alimentícios. Os pagamentos indevidos teriam o objetivo de atender aos interesses de empresas fiscalizadas para evitar a efetiva e adequada fiscalização das atividades, segundo a investigação.

Na sexta-feira Troncha foi conduzido coercitivamente na Carne Fraca. No depoimento de quarta, 22, ele foi questionado porque recebeu R$ 5 mil do fiscal indicado pelo PMDB.

“Este valor, segundo o declarante, foi utilizado para xerocopiar um processo administrativo de Daniel Gonçalves Filho e autenticá-los para posteriormente encaminhar aos parlamentares da bancada do Paraná”, registra o termo apresentado nesta quinta-feira, 23, ao juiz federal Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal, em Curitiba.

“Osmar Serraglio, Moacir Micheletto e Max Rosenmann teriam recebido uma cópia deste processo administrativo.”

Foi o motorista do ex-deputado Micheletto (que morreu em 2012, em um acidente de carro) que teria ido ao cartório autenticar as cópias dos processo administrativo do fiscal, preso na Carne Fraca.

“Não sabe dizer a razão de Daniel Gonçalves Filho ter a intenção de levar aos parlamentares o conhecimento do processo administrativo.”

Grampo. A Carne Fraca monitorou os telefones dos investigados durante quase um ano, com autorização do juiz Marcos Josegrei. Nas escutas, a PF registrou citações ao atual ministro e até mesmo conversa de com o fiscal agropecuário. Serraglio assumiu o Ministério da Justiça no início do mês. Os dois peemedebistas não são alvos da investigação.

Há um diálogo em que o próprio Osmar Serraglio fala, segundo a PF, e se refere a Daniel Gonçalves como “o grande chefe”.

A PF encaminhou à Justiça, com sugestão para envio à Procuradoria-Geral da República, relatório que cita Serraglio. Como deputado federal pelo PMDB do Paraná, o atual ministro da Justiça detém prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal.

COM A PALAVRA, O MINISTRO DA JUSTIÇA, OSMAR SERRAGLIO

O ministro Osmar Serraglio externa sua profunda indignação com o novo destaque, fora de contexto, de uma frase degravada tratando de emenda a um projeto e que o referiu indiretamente. O ministro lembra que o Paraná, por ser um Estado com sua economia fortemente vinculada ao agronegócio, possui em sua bancada federal expressivo número de deputados, ele mesmo Diretor da Frente Parlamentar da Agropecuária, que naturalmente em sua atividade parlamentar tratam pleitos, consultas e assuntos de interesse do setor. Por óbvio que o órgão regional do Mapa é um caminho natural utilizado por todos.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DO PMDB:

O PMDB não autoriza ninguém a falar em nome do partido e está à disposição da justiça para qualquer esclarecimento.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO SÉRGIO SOUZA:

Segundo o deputado, ele não sabia do processo administrativo de Gonçalves Filho e não recebia informação. “Não lembro se falei com o advogado do processo. Se foi, foi para tratar do processo administrativo dele”. De acordo com o deputado, quando o fiscal recebeu a punição de 90 dias, ele teria ligado para dizer que a suspensão era uma perseguição política da ministra Kátia Abreu por conta da posição favorável de Sérgio Souza ao impeachment da presidente Dilma Rousseff(PT).

O peemedebista explica que á época do impeachment, o atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio, e ele eram de um grupo antagonista ao formado pelos correligionários Kátia Abreu e Roberto Requião. Essa disputa política, pelo fato do apoio à cassação de Dilma, diz o deputado, teria resultado até no congelamento de suas emendas parlamentares empenhadas.

Embora confirme a “perseguição política” argumentada por Gonçalves Filho, o deputado afirma o aconselhou a procurar um advogado para resolver o problema da punição.

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Ricardo Brandt, Fábio Serapião, Julia Affonso e Luiz Vassallo
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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