domingo, 5 de março de 2017

'Fui condenado por chamar uma corrupta de corrupta', diz ex-deputado


Imagem: Edson Silva / Folhapress
"Fui condenado e preso por chamar uma pessoa corrupta de corrupta". O ex-deputado federal Fernando Chiarelli é um homem que tem raiva. Muita raiva.

No dia 2 de agosto do ano passado, momentos antes de ter sua candidatura a prefeito de Ribeirão Preto (SP) oficializada pelo PT do B, Chiarelli foi detido por três agentes da Polícia Federal.

O motivo da prisão era e é incomum, ainda mais em tempos de Lava Jato. O ex-deputado havia sido condenado a um ano e oito meses de detenção pela Justiça Eleitoral (semiaberto) porque, quatro anos antes, chamara a então prefeita da cidade, Dárcy Vera (PSD) de "desonesta", entre outros termos nada lisonjeiros ("ave de mau agouro", "criatura maldita" etc).


Chiarelli foi, então, levado para a penitenciária de Tremembé e lá ficou por 45 dias, até obter um habeas corpus. "Foi constrangedor", diz o ex-parlamentar, que perdeu o direito de concorrer na eleição.

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Quase três meses depois, veio a redenção. Chiarelli preparava-se para fazer uma caminhada quando a televisão noticiou a prisão de Dárcy numa operação da PF intitulada "Mamãe Noel".

De acordo com o Ministério Público, a hoje ex-prefeita participou de um esquema de fraudes em contratos da ordem de R$ 203 milhões.

"A investigação indica que [Dárcy] era a chefe, tinha proeminência, atuava na organização dessas fraudes, desses crimes", afirmou, à época, o procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio.

Dárcy permaneceu 11 dias na cadeia e, desde então, vive reclusa em sua casa. Seus bens estão bloqueados.

"Eu era chamado de aloprado, de insano. Mas já sabia. Fui levado para a cadeia, como se fosse um bandido, enquanto ela seguia saqueando", diz o ex-deputado.

Procurada pela Folha, a ex-prefeita não atendeu aos pedidos de entrevista. A advogada Maria Cláudia de Seixas, que a representa, disse que Dárcy vai provar sua inocência e que ela nega enfaticamente ter recebido propina ou participado de um conluio para desviar verbas.

Para a advogada, não dá para relacionar o caso do ex-deputado com a situação da ex-prefeita. "Uma coisa não se confunde com a outra."

SEM TRAVAS NA LÍNGUA

Chiarelli é um político que foge ao figurino tradicional. Nacionalista "como o personagem de Lima Barreto" [de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", 1915], ele não tem trava alguma na língua.

Em 1995, foi cassado pela Câmara de Ribeirão após ser acusado de chamar um colega de "aleijado". Dárcy Vera entrou no seu lugar.

Catorze anos depois, suplente de deputado federal, assumiu a vaga após a morte de um parlamentar e, num discurso, declarou que o "Judiciário é o poder mais corrupto que existe".

Na tribuna também, "João sem Medo", como se autodenominava, afirmou que um ministro merecia cadeia – Wagner Rossi, que posteriormente deixou o cargo para se defender de acusações de irregularidades–, chamou os líderes partidários de "líderes de quadrilha" e disse que a Câmara dos Deputados "funcionava à base da extorsão". Dilma Rousseff, recém eleita para o primeiro mandato, era, nas palavras do orador, "a abobada que acaba de ser eleita presidenta".

No processo em que o juiz Luís Augusto Freire Teotônio o condenou por calúnia, difamação e injúria por ofensas à ex-prefeita de Ribeirão, há outro episódio inusitado.

Segundo o relato do magistrado na sentença condenatória, Chiarelli chegou a desafiar um juiz para um duelo após a concessão de um direito de resposta à sua adversária no programa eleitoral.

"Não se tratava de um duelo físico, como Davi e Golias", diz o ex-deputado. "Eu estava apenas desafiando o juiz a provar que o que eu falei não era verdade", explica. Chiarelli havia dito num debate na TV que "Carminha", como costumava chamar a então prefeita, em referência à vilã da novela "Avenida Brasil", da Globo, havia batido numa empregada doméstica.

"Você colocou o rosto dela no vaso sanitário", afirmou. Algo, aliás, que ele não tem como atestar que ocorreu. "Não houve agressão", contesta a advogada de Dárcy.

Professor de inglês e tradutor, Chiarelli, 55 anos, diz que nasceu pobre e que ainda mora na mesma casa construída pelo seu pai.

Ao falar sobre a temporada que passou na penitenciária, ele se diz muito indignado. "Se tivesse cometido um homicídio. Se tivesse roubado ou cometido peculato. Mas preso por calúnia?"

O ex-deputado corre o risco de voltar para a cadeia. No final do ano, foi novamente condenado (sete meses de detenção em semiaberto) em um outro processo por difamação, pelo mesmo juiz, contra a mesma ex-prefeita.

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Rogério Gentile
Folha de S. Paulo
Editado por Folha Política
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