quarta-feira, 22 de março de 2017

‘Há uma tentativa de acabar com a Lava-Jato’, diz Miro Teixeira a Moro


Imagem: Montagem / Folha Política
Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, o deputado federal Miro Teixeira (Rede-RJ) alertou que há uma “grande manipulação para fazer cessar os efeitos da Lava-Jato nos figurões do Brasil”. O deputado há mais tempo na Câmara dos Deputados prestou depoimento nesta terça-feira como testemunha convocada pelo ex-ministro Antonio Palocci. Segundo Miro, aqueles que chamou de “figurões” sairão ricos, livres, isentos e anistiados enquanto seus cúmplices ficarão na cadeia.


— O que se passa aqui em Brasília é uma vergonha absoluta. Há uma tentativa de desqualificar a Lava-Jato, há uma tentativa de acabar com a Lava-Jato. Mas acabar a Lava-Jato para esses que detêm foro especial por prerrogativa de função. É uma situação que vai submeter o Brasil ao ridículo internacional. Os empresários que são cúmplices dos políticos, que estão presos, as empresas que estão fechadas, os empregos estão perdidos. E os políticos saem ricos — disse Teixeira.

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No fim do depoimento, o próprio juiz Sérgio Moro questionou o deputado sobre a influência da proposta de adotar o sistema de lista fechada nas eleições legislativas. O projeto foi citado pelo deputado anteriormente no seu depoimento como uma das tentativas utilizadas pelos “figurões”.

— Essa questão, embora não seja tão pertinente, essa questão da lista fechada teria alguma coisa a ver com isso? — perguntou Moro.

— Só tem. A lista fechada, que não é nova na discussão, é uma forma de criminalizar a política. Primeiro, surge atribuindo ao financiamento de campanha as dificuldades do nosso setor. Juiz, a corrupção existe porque existe corrupto. O roubo existe porque existe ladrão. A democracia não pode ser responsabilizada. Senão, as ditaduras seriam íntegras. Não há eleições, então não há corrupção? Estão criminalizando a política pelos fatos criminais praticados por políticos. A política não é isso, não é nada disso. Estão roubando para o próprio bolso para construir fortunas enormes botando a culpa no processo eleitoral — respondeu Miro Teixeira, que defendeu a realização de um plebiscito para a realização de uma reforma política.

PALOCCI FICOU “ENCANTADO”

Em seu depoimento, Miro respondeu perguntas do advogado de Antonio Palocci e Branislav Kontic, José Roberto Batochio. Em uma das respostas, Miro Teixeira afirmou que, enquanto era ministro da Fazenda, Palocci era reverenciado pelo setor econômico.

— Por muitas lutas passadas, tínhamos uma identidade. Mas depois que chegou ao poder, Palocci ficou muito encantado pelos direitos da iniciativa privada — afirmou Teixeira.

Palocci é denunciado pelo Ministério Público Federal por favorecer os interesses da empreiteira Odebrecht enquanto Ministro da Fazenda e deputado federal. Segundo Teixeira, todavia, nunca soube de nenhuma irregularidade praticada por Palocci. Miro lembrou de duas ocasiões em que ele e Palocci teriam se aliado. Em um caso, lembrou de um projeto que supostamente favoreceria a marinha mercante e, com a ajuda de Palocci, teria derrubado uma emenda em uma comissão especial na Câmara dos Deputados.

— Nós podemos não ter a notícia exata de que tem uma falcatrua em alguma coisa, mas o cheiro do que se passa nos permite desconfiar. E o Palocci chegou para mim nessa comissão especial e disse: “Tem aqui uma emenda que é para roubar a pátria, nós temos que impedir a aprovação dessa emenda — disse Teixeira.

Segundo o deputado, ele e Palocci passaram a madrugada e venceram a obstrução, impedindo a votação da emenda. Em outro caso, ao falar sobre uma reunião no início do governo Lula, Teixeira falou que ele e Palocci discordaram da estratégia de negociação com outros partidos para a formação de uma maioria parlamentar.

— E o Palocci imediatamente me deu razão: o PSDB pode muitas vezes vir apoiar as ideias sem cobrar participação no governo. Mas o clima que se instalou ali na hora foi de repulsa a nossas ideias — disse.

Segundo o deputado, os dois deixaram a reunião após serem “vencidos hostilmente”.

— Houve quem dissesse na sala que “esse Congresso burguês só atendia a essa linguagem de distribuição de recursos orçamentários”. Não era uma linguagem de interesse do país, de programas — disse.

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Dimitrius Dantas
O Globo
Editado por Folha Política
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