segunda-feira, 24 de abril de 2017

Delator conta como Lula tentou liberar financiamentos a Cuba sem garantias


Imagem: Reprodução / Redes  Sociais
Em delação premiada, o executivo da Odebrecht João Carlos Mariz Nogueira relatou à Procuradoria-Geral da República que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou ao presidente de Cuba, Raúl Castro, em 2014, uma proposta da empreiteira para viabilizar a construção de uma zona franca industrial na ilha. A obra seria um anexo do Porto de Mariel, também empreendido pela construtora brasileira. O negócio, porém, não foi levado adiante.


Segundo o delator, ele presenciou uma conversa de Lula com o representante do Itamaraty Marcelo Câmara, na qual o petista afirmou ter tratado com Castro sobre uma linha de crédito para financiar o projeto. O ex-presidente estava em Cuba para ministrar palestras pagas pela Odebrecht. Ao fim da visita, Lula disse ao representante do Ministério das Relações Exteriores, segundo Nogueira, que Castro havia se interessado pelo proposta da construtora brasileira.

Nogueira contou que, após a conclusão do Porto de Mariel, o governo cubano havia “provocado” a Odebrecht para construir uma zona franca industrial. No entanto, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia feito restrições em relação à obra. Para liberar os créditos, segundo o executivo, o banco exigia o “robustecimento das garantias”.

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“Como eu era diretor de Crédito à Exportação, coube a mim explicar ao ex-presidente Lula as alternativas que nós vislumbrávamos – nós, Odebrecht – para contribuir na questão das garantias. Tínhamos vislumbrado quatro ou cinco alternativas para essas garantias”, afirmou Nogueira aos investigadores.

De acordo com o delator, as instruções foram passadas ao ex-presidente já na viagem a Cuba. Em uma reunião em um hotel de Havana, com a presença de Câmara e diretores da Odebrecht, o petista pediu uma “atualização” de “quais são os investimentos”, afirmou Nogueira.

“Quando se tratou o tema das garantias, eu fiz a exposição. Ele entendeu e eu pedi que explicasse ao presidente Raúl Castro e a Dilma Rousseff e, adicionalmente, pedi um diálogo direto entre os líderes. Estávamos propondo objetivamente algumas soluções, sendo que duas ou três delas a gente participava. Havia um interesse empresarial objetivo”, disse.

Em 2015, reportagem da revista Época revelou que um telegrama foi enviado por Câmara ao Brasil, indicando que Lula tratara da proposta da empreiteira com o líder cubano e que, em seguida, ele falaria sobre o assunto com a então presidente Dilma.

Uma das “soluções” envolvia a compra pela Braskem – empresa do grupo Odebrecht de nafta (matéria-prima para a indústria petroquímica) da ilha e o depósito do “dinheiro devido a Cuba em uma conta garantia para acessar o financiamento brasileiro”. O executivo via entraves de aprovação do BNDES, que não aceitava que a “conta garantia ficasse em Cuba”, e por isso, disse ter pedido a Lula para haver um “acordo para destravar a questão”.

“Eu me lembro que o presidente Lula, quando estava embarcando ou prestes a embarcar no avião, conversou com esse representante da Embaixada Marcelo Câmara e disse: ‘Eu conversei com o presidente Raúl Castro, ele gostou da alternativa nafta’”, contou o delator. Ele ouviu ainda Lula dizer que “conversaria com a presidente Dilma” sobre o assunto.

O projeto não foi realizado porque, segundo Nogueira, “os cubanos voltaram a insistir em garantia soberana, ou em conta dentro de Cuba”.

COM A PALAVRA, MARCELO CÂMARA

Procurado, Câmara não foi localizado pela reportagem. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO EX-PRESIDENTE LULA

“Delações são versões unilaterais emitidas por pessoas que negociam com a acusação a saída da prisão ou outros benefícios. Não têm valor probatório.

“Além disso, mesmo que as declarações fossem verdadeiras, elas não indicam a pratica de qualquer ato ilícito, pois em 2014 Lula não ocupava qualquer cargo público”.

Cristiano Zanin Martins

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Luiz Vassallo
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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