sábado, 8 de abril de 2017

'Eu vi dona Marisa pedir um elevador à OAS', diz ex-zelador do prédio do tríplex


Imagem: Reprodução
Na quarta-feira 5, o juiz Sergio Moro pediu para que o síndico do Edifício Solaris, no Guarujá, lhe encaminhasse em cinco dias as imagens das visitas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua mulher Marisa Letícia (falecida em fevereiro) ao tríplex 164-A. O apartamento, avaliado em R$ 2 milhões, pertence à OAS no papel, mas foi destinado pela empreiteira ao casal como contrapartida aos generosos préstimos do petista à construtora.


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A iniciativa de Moro, levada a cabo na última semana, é parte integrante e fundamental dos preparativos do juiz para concluir a ação por corrupção contra Lula no caso do tríplex. Pode significar a primeira condenação do ex-presidente em primeira instância, dentre as cinco ações em que ele é réu. O último lance a anteceder a sentença do juiz será o aguardado depoimento que Lula prestará a Moro no próximo dia 3 em Curitiba, cara a cara, na Justiça Federal do Paraná.

A julgar por essas circunstâncias, o que a revista IstoÉ revela pode constituir um elemento decisivo para embasar o juízo de Moro sobre o caso. A reportagem da revista entrevistou com exclusividade aquele que é considerado pelos investigadores uma testemunha-chave do processo: o ex-zelador do Edifício Solaris, José Afonso Pinheiro.

Não se trata do primeiro relato do ex-funcionário do prédio no Guarujá. O próprio já foi recebido por Moro em audiência em janeiro deste ano, quando contou que ciceroneou Lula e Dona Marisa durante as reformas no apartamento em 2014.

Imagem: Reprodução
Agora, no entanto, o ex-zelador acrescenta uma nova revelação com grande potencial para complicar de vez a situação do ex-presidente, que ainda insiste em dizer que a unidade 164-A nunca foi dele. Ele afirma que, numa das visitas ao tríplex, viu dona Marisa pedir aos funcionários da OAS para que instalassem o elevador privativo no imóvel. “Eu vi ela (dona Marisa) comentando que seria interessante ter um elevador no apartamento. Vi ela pedir. Mostrou inclusive o local, que seria do lado do hall social de entrada. Alguns dias depois a obra começou e o elevador apareceu”, diz José Afonso Pinheiro, que foi demitido, segundo ele, em represália às declarações fornecidas à Justiça. Para o zelador, – e este raciocínio é óbvio, daí a importância do testemunho –, ninguém solicita a instalação de um elevador privativo num apartamento que não é seu.

Na ocasião, estavam presentes o presidente da construtora, José Aldemário Pinheiro, o Léo Pinheiro, e o próprio Lula. “O Léo Pinheiro estava. O Leo Pinheiro é o da barba, né? É ele mesmo. Ele é até parecido com o Lula”, disse. De acordo com o ex-zelador do Solaris, a conversa testemunhada por ele transcorreu no hall do apartamento. “Estavam várias pessoas juntas lá no hall. Não tem uma foto em que o Lula está entrando no hall ali? Então, foi nesse dia. O Igor (funcionário da OAS que acompanhou as reformas do tríplex) também estava junto”. Como é notório, o elevador particular foi de fato construído em 2014 e fez parte das benfeitorias tocadas pela OAS no apartamento. A revelação do zelador à ISTOÉ é classificada por integrantes do Ministério Público como decisiva – a chamada “bala de prata” do processo do tríplex.

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O apartamento, com 297 metros quadrados, começou a ser erguido em 2005 pela Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo), no nobre bairro das Astúrias, no Guarujá. Na declaração de renda de Lula em 2006, o casal diz ter pago R$ 47.695,38 pelo imóvel. Em 2009, a Bancoop, dirigida pelo ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, quebrou. Com isso, centenas de apartamentos administrados pela Bancoop sequer foram concluídos. Três mil associados ficaram na mão, sem as unidades pagas. Diante da nova realidade, Vaccari, hoje preso pela Lava Jato, transferiu alguns empreendimentos para a OAS concluir, entre os quais o Edifício Solaris, onde Lula possui apartamento. A OAS terminou o prédio em 2013.

Em 2014, em meio à campanha de Dilma à reeleição, a empreiteira contratou a empresa Tallento para empreender as reformas no tríplex. A fim de acompanhar os trabalhos, que incluíram a instalação do elevador, a OAS escalou os funcionários Marilza e Igor. As reformas, segundo o ex-zelador José Afonso, eram supervisionadas por Fábio Luiz, o Lulinha, filho de Lula.

Ele determinou que parte do quarto de empregada e uma área da sala fossem usadas como escritório. Também mandou colocar porcelanato no piso e determinou que fosse criada uma generosa área gourmet no último andar, onde há um deck e uma pequena piscina. A OAS foi quem comprou, junto à Kitchens, os eletrodomésticos que equiparam a cozinha, com instalações pré-fabricadas, geladeira e microondas, avaliadas em mais de R$ 200 mil.

Dona Marisa foi vista várias vezes no local durante as vistorias das obras e a montagem do apartamento. Lula compareceu ao menos em duas ocasiões, incluindo o dia em que se encontrou com Léo Pinheiro – o mesmo em que Dona Marisa, segundo o ex-zelador, solicitou à OAS a construção do elevador privativo.

O empreiteiro deve confirmar aos procuradores do Ministério Público Federal, em delação premiada em fase final de negociação, que o apartamento teria sido um presente para o ex-presidente. O Ministério Público acredita que a OAS cedeu o apartamento para Lula como parte de um esquema de acerto de propinas.

O ex-presidente, por sua vez, mantém a cada vez mais inverossímil versão de que não é o dono do tríplex. Jura que, em 2015, pediu à Bancoop a devolução do dinheiro investido num imóvel do prédio. “Quando Lula ia visitar o tríplex, a OAS mandava decorar tudo com flores. Ele chegava com uma equipe de três ou quatro seguranças. Eles chegavam num Passat preto e num outro carro prata. Entravam direto pela garagem”, detalhou José Afonso em depoimento ao Ministério Público Estadual em outubro de 2015. “Os seguranças seguravam o elevador quando a família presidencial estava no tríplex, gerando muitas reclamações de outros condôminos”, disse Afonso.

Em depoimento ao juiz Sergio Moro em fevereiro, o ex-zelador, considerado uma peça-chave no processo, afirmou que Marisa Letícia comportava-se como proprietária do apartamento. “Ela se portava lá como proprietária, nunca vi ela se portar lá como se fosse alguém interessado em comprar o apartamento. Ela se portava como proprietária”, disse em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro. Numa das visitas, a ex-primeira-dama se encantou com a proximidade do prédio com a praia – quase “pé na areia”.

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“Ela ia junto com ele (Lula). Fui eu que apresentei todas as áreas para ela. A área da piscina, salão de festa, área comum que ela achou muito boa. Achou próxima da praia, falou que era ‘pé na areia’ e tal”, afirmou. O ex-zelador acrescentou ainda que foi orientado por Igor, funcionário da OAS, a não comentar que Lula era o verdadeiro dono do imóvel.

Em depoimento aos promotores Cássio Conserino e José Carlos Blat, em outubro de 2015, a porteira do edifício, Letícia Eduarda Rodrigues da Silva Rosa, confirmou o relato do ex-zelador. Ela também disse ter testemunhado uma visita de Lula ao tríplex no final de 2013. Cercada de discrição. “O ex-presidente entrou discretamente para que ninguém o visse. Não gerou polêmica porque havia pouca gente no prédio. A dona Marisa eu vi pelas câmeras de monitoramento do edifício. Apenas familiares do ex-presidente freqüentavam o tríplex”, asseverou Letícia da Silva Rosa, recordando-se, a exemplo do ex-zelador, que Igor, funcionário da OAS, recepcionou o ex-presidente numa de suas idas ao imóvel. “Certamente o apartamento é do Lula.

Não está em seu nome, mas, repito, com certeza é dele. Nunca vi um único corretor de imóveis levando qualquer comprador ao imóvel”, explicou aos promotores. Segundo ela, depois que os jornais publicaram informações de que Lula estava sendo processado por conta do imóvel, ninguém mais da família se dirigiu ao local.

O zelador foi demitido do prédio logo depois de ter prestado depoimento ao Ministério Público de São Paulo. Para garantir o sustento à família, arriscou uma candidatura a vereador em Santos, sem sucesso. Atualmente, ele voltou a trabalhar como zelador, só que não mais do Edifício Solaris, e sim de um prédio da cidade localizada no litoral paulista. “Tenho receio de me mandarem embora de novo. Fico preocupado com a repercussão”, confidenciou à ISTOÉ.

A próxima – e derradeira – etapa do processo do tríplex será o depoimento de Lula a Sergio Moro no dia 3 de maio, quando os dois ficarão frente a frente pela primeira vez. O encontro é cercado de grande expectativa sobretudo no PT. Os petistas estão desconfiados de que Lula possa ser preso, depois de depor ao juiz da 13ª Vara de Curitiba. Por isso, enquanto transcorrer a audiência do ex-presidente, seus aliados, entre os quais militantes da CUT, UNE e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, pretendem se revezar em discursos do lado de fora. Mais de 30 mil pessoas são aguardadas.

Como de praxe, o transporte e a comida serão providenciadas e bancadas pelas organizações ligadas ao partido. Nenhuma entidade assume organizar institucionalmente as caravanas para a cidade, mas admite que seus quadros se mobilizam pelas redes sociais para viajar em apoio a Lula. Além dos movimentos sociais, parlamentares petistas também vão ao que já tem sido tratado internamente no PT como “o evento do ano”. As manifestações da militância, programadas para o exterior do fórum, aliadas à agressividade adotada pelos advogados de Lula durante recentes depoimentos escancaram a estratégia de defesa do petista.

A ideia é transformar o ex-presidente em vítima, uma tática já surrada de tão velha, e colocar em xeque o que classifica de “imparcialidade do juiz” na condução da ação. Diante das novas revelações trazidas por ISTOÉ, e da fartura de provas elencadas pelo Ministério Público ao processo, nem uma nem outra deve colar.

O que Lula terá de responder a Moro

Para os procuradores, a reserva e a reforma do apartamento no Guarujá fazem parte da propina de R$ 3,7 milhões paga a Lula relativa a três contratos da OAS com a Petrobras. Em setembro, Moro aceitou denúncia contra Lula por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. No dia 3 de maio, Lula terá de esclarecer as seguintes questões:

  • O Instituto Lula afirmou que a mulher do ex-presidente, Marisa Letícia, havia comprado apenas uma cota da cooperativa Bancoop para adquirir um apartamento. Depois, informou se tratar da unidade 141, de 86 m2. Há evidencias de que se tratava do tríplex 164 A. Qual era o apartamento?
  • A empreiteira OAS declarou que o imóvel recebeu “obras de decoração”, em razão de “uma opção comercial para a venda”. Por que a OAS mobiliou todo o apartamento e instalou um elevador interno se ainda não havia comprador?
  • Para o engenheiro da OAS Igor Pontes, que acompanhou a reforma, a obra foi feita conforme o gosto de Lula. Quem contratou a reforma?
  • O imóvel seria um presente da OAS a Lula?
  • Por que o presidente ganharia esse presente?
  • Qual a relação de Lula com Léo Pinheiro, então presidente da OAS, que está preso em Curitiba?
  • Por que Léo Pinheiro acompanhou o Lula durante as reformas no tríplex?
  • Quantas vezes Lula e Marisa visitaram o apartamento? Por que ocorreram as visitas, se a ideia, de acordo com o petista, era abrir mão do apartamento?
  • Por que a família de Lula só desistiu do negócio em 2015, enquanto os demais clientes da Bancoop tiveram que decidir isso em 2009?
  • As reformas, segundo o ex-zelador José Afonso, foram supervisionadas por Fábio Luiz, o Lulinha, filho de Lula. O que explicaria isso?
  • Por que Dona Marisa iria solicitar a instalação de um elevador privativo se não iria ficar com o imóvel, como alega a defesa de Lula?

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Thais Skodowski e Germano Oliveira
IstoÉ
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