segunda-feira, 24 de abril de 2017

'Fogo amigo' nas delações premiadas agrava situação de Lula e advogado se desespera


Imagem: Michel Filho / Ag. O Globo
A colaboração de pessoas que privavam da intimidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou a Operação Lava-Jato a fechar o cerco contra ele. Nas últimas duas semanas, os depoimentos em vídeo de Emílio Odebrecht e Léo Pinheiro (OAS), dois empresários muito próximos a Lula, agravaram as denúncias contra o petista, e o marqueteiro João Santana, responsável por sua imagem pública desde o escândalo do mensalão, também fechou acordo de delação premiada. A situação pode piorar se o ex-ministro Antonio Palocci confirmar o aceno que fez ao juiz Sérgio Moro, colocando-se à disposição para colaborar e dar “mais um ano de trabalho” para os investigadores.




Após mais de três anos de Lava-Jato, Lula já é réu em cinco ações penais, e a nova leva de delações que o envolve agrava sua situação porque esses delatores fecham algumas pontas soltas de histórias sob apuração. Depois desses depoimentos, a defesa do ex-presidente subiu o tom, estendendo o enfrentamento aos demais procuradores e reforçando as baterias junto a outras instâncias.

O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende o ex-presidente Lula, afirmou ao GLOBO que tem a impressão de que, na Lava-Jato, advogados de delatores são tratados de forma diferente dos demais defensores. Numa reação ao tratamento, ele encaminhou à Procuradoria-Geral da República (PGR), na última quarta-feira, um pedido de apuração sobre a conduta dos procuradores, que teriam condicionado a assinatura do acordo de delação do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro a alguma informação que incriminasse Lula. Até agora, o recurso ainda não foi julgado.

— É papel do advogado defender com altivez e independência a legalidade dos atos realizados durante o processo e promover a defesa dos direitos de seus clientes. Na 13ª Vara Criminal de Curitiba, criou-se uma diferenciação entre advogados de defesa e advogados de delatores. Parece que só estes últimos merecem respeito ao trabalho que realizam — disse Zanin.

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Os advogados de Lula já esperavam que, em algum momento, Léo Pinheiro incriminaria o ex-presidente no caso do tríplex. Em junho do ano passado, a defesa também pediu à PGR que investigasse a informação publicada pela imprensa de que as negociações da delação do executivo haviam empacado porque ele não estaria ligando Lula a crimes.

Lula nega ser o dono do tríplex desde que O GLOBO revelou em 2014 que sua mulher, Marisa Letícia, coordenou uma reforma no local. Pinheiro, que gozava da intimidade do ex-presidente e participava de happy hours no Instituto Lula, disse que a empreiteira que presidia, a OAS, só entrou na obra do condomínio Solaris porque a unidade pertencia ao ex-presidente. Ele relatou em depoimento ao juiz Sérgio Moro, na quinta-feira passada, que fez adequações para atender ao gosto do petista e de sua mulher e que, como o preço da obra subiu muito, procurou o então tesoureiro do PT João Vaccari para lhe perguntar se podia abater os gastos da conta de propina que tinha com o partido — o que acabou sendo autorizado.

Pinheiro relatou ainda que o ex-presidente lhe perguntou logo após o início da Lava-Jato como ele fazia os repasses ao PT. Ao informar que os pagamentos eram por meio de Vaccari, Lula questionou se havia algum registro e pediu que destruísse eventual prova. Outro relato feito por ele trata de obras do sítio de Atibaia (SP), que não está em nome de Lula, mas que ele teria frequentado com assiduidade. Pinheiro relatou que problemas em uma barragem e dois lagos da propriedade teriam sido solucionados por um engenheiro de sua construtora.

Emilio Odebrecht, porém, trata Lula como dono do sítio. Ele narrou aos investigadores que não só financiou a etapa final das obras como falou sobre o assunto com o então presidente em 2010. Segundo Emílio, o pedido para concluir as melhorias na propriedade foi feito por Marisa a Alexandrino Alencar, ex-executivo da empreiteira próximo à família Lula. A Odebrecht assumiu as obras, desembolsando cerca de R$ 700 mil. O empresário afirma que conversou sobre o sítio nos últimos dias de mandato dele. Lula, segundo Emílio, não esboçou qualquer reação a respeito:

— Eu disse: ‘Olhe, chefe, você vai ter uma surpresa. Nós vamos garantir o prazo que nós tínhamos dado naquele programa lá do sítio’. Ele não fez nenhum comentário, mas também não botou nenhuma surpresa, coisa que eu entendi não ser mais surpresa — explicou Emílio, que também abordou uma suposta interferência de Lula em um financiamento do BNDES para uma obra da Odebrecht em Angola, em troca de propina.

O marqueteiro João Santana é outro que tinha uma estreita relação com o ex-presidente, construída a partir de 2005 quando foi chamado para ajudar a enfrentar o escândalo do mensalão. O publicitário e Lula se mantiveram próximos mesmo depois que ele deixou a Presidência. Responsável pela campanha que reelegeu o petista em 2006, Santana admitiu ter recebido por caixa dois. Os pagamentos teriam sido realizados pela Odebrecht e intermediados por Palocci.

A sinalização dada por Palocci no depoimento a Moro pode ajudar a completar algumas dessas histórias. A proximidade entre Lula e Palocci se ampliou em 2002, quando ele assumiu a coordenação do programa de governo e também da equipe de transição. Desde então, foi figura proeminente na legenda e participava de reuniões privadas com Lula, mesmo depois de ter sido demitido duas vezes de cargos de ministros por suspeitas de envolvimento em atos ilícitos. Palocci sempre foi o elo mais visível do PT com o mundo empresarial e financeiro.

Segundo delações, Palocci cuidou das finanças de caixa dois do partido até 2012. Para Moro, ele disse ter condições de dar informações detalhadas sobre “operações”, mas deixou apenas nas entrelinhas ao que se referia.

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EMÍLIO ODEBRECHT

Patriarca do grupo que leva seu nome, Emílio Odebrecht detalhou aos procuradores ter recorrido a Lula, de quem é próximo há mais de 30 anos, para acertar trocas de favores. O relato do empresário que desfrutava de acesso direto ao então presidente jogou luz sobre episódios até então nebulosos, como a ampliação de crédito do BNDES para Angola.

Com obras no país africano, em crise severa, Emílio contou ter pedido a Lula, entre 2008 e 2009, ajuda na liberação do financiamento. Como contrapartida, Marcelo Odebrecht, filho de Emílio, responsável por pagar políticos, afirmou ter liberado US$ 36 milhões em propina.

Em sua delação, Emílio declarou ter reclamado com o então presidente de valores muito altos exigidos pelos interlocutores: “Lembro de, em uma dessas ocasiões, ter dito ao então presidente que o pessoal dele estava com a goela muito aberta. Estavam passando de jacaré para crocodilo”.

Emílio disse ainda aos investigadores que terminou as obras do sítio de Atibaia (SP), ao custo de R$ 700 mil para a Odebrecht, para que Lula pudesse usá-lo ao deixar a Presidência. Foi a ele que Emílio recorreu também para influenciar na edição de medidas provisórias que parcelavam dívidas de empresas e incentivavam a indústria petrolífera.

LEO PINHEIRO

Amigo de visitas ao sítio de Atibaia e papos descontraídos ao entardecer no Instituto Lula, o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro acusou o petista de lhe ter ordenado a destruir provas de pagamento de propina ao PT no início da Lava-Jato. A revelação foi feita em depoimento ao juiz Sérgio Moro na semana passada. Pinheiro já foi preso duas vezes na operação e tenta destravar uma tumultuada negociação de delação premiada.

O ex-executivo contou a Moro que em junho de 2014, três meses após o início da Lava-Jato, encontrou-se com Lula no instituto. O ex-presidente foi direto e lhe questionou sobre como vinha fazendo pagamentos ao PT. Pinheiro respondeu que atendia as demandas do então tesoureiro João Vaccari. Lula, então, teria dado a ordem: “Você tem algum registro de algum encontro de contas feitas com João Vaccari com vocês? Se tiver, destrua”, narrou Pinheiro.

Ele afirmou que desde que a OAS assumiu a obra do edifício Solaris, no Guarujá, em 2009, estava acertado que o tríplex seria de Lula. Acrescentou que a reforma feita no local, que incluiu a instalação de um elevador privativo, decorreu de solicitação de Lula e da mulher, Marisa Letícia, já falecida. Contou que procurou Vaccari para questionar se os gastos seriam abatidos da propina que era paga ao PT.

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ANTONIO PALOCCI

Mesmo sem uma identidade histórica com as bases do PT, Antonio Palocci se tornou um dos principais homens de confiança de Lula antes mesmo da chegada ao Planalto, em 2002. Apesar de ter ocupado os dois postos mais importantes do governo federal — o Ministério da Fazenda de Lula e a Casa Civil de Dilma — sempre atuou melhor nos bastidores, com desenvoltura para arrecadar recursos. Preso há cerca de sete meses, ele sinalizou que quer revelar o que sabe. Ao juiz Sérgio Moro, na última semana, foi direto:

— Apresento todos os fatos, com nomes, endereços e operações realizadas. Posso lhe dar um caminho que vai lhe dar mais um ano de trabalho.

A revelação prometida depende de um acordo de delação. Executivos e ex-executivos da Odebrecht apontam Palocci como interlocutor de Lula nas negociações de caixa 2 para campanhas presidenciais, tendo inclusive intermediado pagamento no exterior para o marqueteiro João Santana em 2006, quando o ex-presidente se reelegeu.

Palocci também representaria Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff, conforme repetiu diversas vezes Marcelo Odebrecht, nas movimentações da conta denominada “Italiano” — uma referência ao codinome dado pela empresa a ele, que rejeita a alcunha.

JOÃO SANTANA

Quando em 2005 o escândalo do mensalão colocou Lula nas cordas, foi ao marqueteiro João Santana que o então presidente pediu ajuda para construir um discurso de reação. Doze anos depois, o mesmo marqueteiro é um dos responsáveis por agravar a situação do ex-presidente. Com a delação homologada no início do mês, ele já admitiu ter recebido pagamentos, por meio de caixa dois, em campanhas do PT, incluindo a de Lula em 2006, na qual a Odebrecht fez os repasses em operação intermediada por Palocci.

“Na época, o ministro Antonio Palocci já não era mais ministro, ele fez esse contato e uma parte do pagamento desta campanha de reeleição do presidente Lula foi feita pela Odebrecht”, afirmou Santana.

Por causa do escândalo do mensalão, Santana disse ter pedido a Palocci para receber por caixa um, mas o ex-ministro disse que devido à cultura existente no país isso não seria possível.

João Santana justificou ser constante pagamentos dessa forma em campanhas eleitorais no Brasil e no exterior. Ele contou ainda que foi Lula quem lhe pediu para fazer a campanha do presidente Mauricio Funes em El Salvador. Neste caso, o pagamento, acertado com o PT, também foi em caixa 2 pela Odebrecht.

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Eduardo Bresciani, Renata Mariz e Tiago Dantas
O Globo
Editado por Folha Política
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