domingo, 21 de maio de 2017

JBS pagou US$ 220 milhões em propinas ligadas a operações com o BNDES


Imagem: Reprodução / Redes Sociais
A JBS calcula que pagou cerca de US$ 220 milhões de propina relacionada às operações com Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e fundos de pensão, segundo um dos depoimentos em que o presidente da empresa Joesley Batista prestou à Procuradoria Geral da República (PGR) dentro da delação premiada dos executivos do grupo J&F.


Desse total, um terço foi para um empresário amigo de Mantega e outros dois terços foram acumulados e se transformaram, em 2014, nas doações da empresa ao PT e aliados.

Apesar de relacionar esse pagamento aos empréstimos e aos aportes de capital que o banco fez na empresa, Joesley afirmou que sua vida “nunca foi fácil na instituição” e isentou o ex-presidente do banco, Luciano Coutinho, e todo corpo técnico e dirigente da instituição de qualquer ato ilícito ou pedido de propina.

Seu contato, explicou, sempre passou pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. A proximidade entre eles começou quando Mantega estava no Planejamento, se aprofundou na sua gestão como presidente do BNDES e continuou quando Mantega assumiu o Ministério da Fazenda.

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Na narrativa de Batista, cerca de dois terços desse valor (US$ 150 milhões) são usados para irrigar duas contas no exterior abertas como se fossem créditos para os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. As offshores, afirma, nunca estiveram no nomes deles. As contas sempre estiveram sob domínio da JBS e o valor foi usado na campanha de 2014 — para a chapa Dilma-Temer como para aliados (PMDB e outros partidos) e campanhas estaduais.

O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, por exemplo, recebeu pelo menos R$ 30 milhões. Esse valor especificamente foi pago através da compra real de uma participação de 3% no estádio do Mineirão. Batista apresentou como prova o contrato dessa compra, feito com a empresa HAP Engenharia, bem como os recibos de transferência do recurso.

A história contada por Joesley traz à cena um personagem pouco conhecido. Segundo ele, nos primeiros anos do governo do PT, ele conheceu Victor Sandri, que se apresentou como amigo do ministro Guido Mantega (então no Planejamento), com quem teria “intimidade”. O executivo da JBS descreve Sandri como um empresário do setor imobiliário, que também manteve durante um tempo uma distribuidora de cimento. É para Sandri que Batista pagava 4% do valor de todas as operações feitas com o banco entre 2005 e 2009. Ele lista três: a compra da Swift Armour argentina (US$ 80 milhões, o primeiro empréstimo liberado pelo BNDES, que “foi mais caro que o normal”), a primeira entrada do BNDES como sócio (em torno de US$ 500 milhões, em 2007) e a segunda participação (US$ 1 bilhão, sendo US$ 500 milhões do banco e US$ 500 milhões dos fundos Petros e Funcef, todos reunidos no fundo Proti).

“Paguei 4% do valor de cada operação para o Vic, o que deu cerca de US$ 60 milhões, US$ 70 milhões, tudo no exterior. Ele dizia que era metade para ele e metade para o Guido, mas nunca falei com ele [Guido] sobre isso”, disse o empresário.

Mantega foi presidente do BNDES de novembro de 2004 a março de 2006, quando é substituído por Demian Fiocca (indicado por Mantega), que fica até maio de 2007, quando assume Luciano Coutinho.

“Minha relação sempre foi com o Guido. Primeiro, até 2009 ela passava pelo Vic. Até lá, toda vez que eu precisava falar com o Mantega, acionava o Vic. Não sei como funcionava com o Guido e o banco. Acho que ele [Guido] pressionava o Luciano, que sempre foi muito formal comigo”, contou o empresário.

Ele relata, inclusive, uma ocasião quando Mantega teria uma reunião com Coutinho e esse ficou contrariado quando percebeu que Joesley estava presente. Mais tarde, perguntado, disse que nunca soube de nenhum ilícito de Luciano Coutinho e de nenhum funcionário do banco.

Em 2009, conta Batista, ele se afastou de Victor Sandri e passou a falar diretamente com Mantega. No segundo ou terceiro encontro “direto” com o já ministro da Fazenda, ele abordou os repasses, sem falar em percentual.

“É um problema porque você nunca sabe o que o intermediário diz, se ele contava mesmo de quanto era o total fixo, e eu não queria confusão”, disse Joesley. “Aí na primeira oportunidade que falei, ele me disse: “Eu não quero que você mande o dinheiro para conta nenhuma. Quando eu precisar eu te falo. Vamos vendo caso a caso, quando for importante para você, você credita lá para mim o que você acha que vale”, relatou o empresário, contando o que teria ouvido de Mantega.

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Na sequência, Batista relata que ainda na era Lula essa conta aberta acumulou cerca de US$ 70 milhões. Depois, entre 2011 e 2014, outros US$ 80 milhões foram creditados em uma conta para Dilma, mas nunca aberta em nome da ex-presidente. Mantega, disse ele, lhe orientou para manter as duas contas separadas.

Nesse período, a propina relacionada ao empréstimo de R$ 2 bilhões para a construção da Eldorado Celulose abasteceu a conta aberta para a presidente Dilma. “Nunca me aprofundei se isso era do presidente Lula, se era do governo Lula”, disse o empresário. Ele conta que em diversas ocasiões levou a Mantega os extratos das duas contas. Ao longo desses anos, Mantega pediu uma vez que ele investisse R$ 5 milhões na Pedala Equipamentos (uma empresa que depois quebrou) e outros R$ 20 milhões que acabaram voltando para a JBS (mas ele não explica essa volta).

Na prática, só em 2014, Mantega começa a usar esse dinheiro. Ele teria chamado Batista várias vezes e em cada oportunidade dado uma lista de aliados ou de candidaturas petistas que deveriam receber recursos, e combinado com ele que Edinho [Silva, então tesoureiro da campanha de Dilma] o procuraria para acertar os detalhes.

Edinho referendava a lista, mas depois cada partido escolhia como receber o dinheiro. “Cada partido decidia se queria por dentro, por fora, nota fria, caixa dois”, disse ele. “Mas não sei se Edinho sabia a origem desse recurso”, acrescentou Joesley.

Assim, explicou o dono da JBS, todas as doações (legais e ilegais) feitas pela empresa em 2014 foram pagas com esse caixa feito a partir dos US$ 150 milhões acumulados em nome de Lula e Dilma. Em reais, disse ele, as doações originadas nesse caixa representaram cerca de R$ 360 milhões naquele ano.

Batista ainda conta que preocupado por estar usando uma reserva feita em nome de Lula e de Dilma procurou os dois, separadamente. Para Lula, ele não mencionou BNDES. “Eu falei para ele: ‘Não sei se o senhor tem a ver com isso ou não, somos o maior doador e essa conta já passou de R$ 300 milhões, o senhor tá entendendo a exposição?’, e ele não falou nada, só ficou olhando, em silêncio.”

Com Dilma ele diz que foi bem mais explícito. “Eu contei tudo, falei que estava acabando o que era do Lula, e também a conta dela. A presidente sabia que tinha relação com o BNDES, mas não mencionamos isso. Mas falei que o dinheiro estava acabando. Aí ela me pediu para dar mais R$ 30 milhões para o Pimentel. ‘Se você puder, encontre ele e ajude’, ela falou”, relata o empresário.

Joesley conta que foi para Belo Horizonte e encontrou Pimentel no hangar do aeroporto, quando este lhe disse que havia sido informado por Dilma do apoio que ele daria. Nessa conversa, Pimentel pediu para a ajuda ser viabilizada pela compra de participação em, um estádio de futebol. “E assim a JBS virou sócia do Mineirão com uma participação de 3%, que temos até hoje”, contou Batista. Ele comprou a participação da empresa HAP Engenharia, de Roberto Senna. “E foi feito com uma transferência bancária, tudo legal”, acrescentou. Nos documentos entregues à PGR, estão o contrato e cópia das transferências feitas.

Joesley faz questão de reforçar, no depoimento, que a relação da empresa com o BNDES sempre foi técnica, sem nenhum comportamento ilícito. “Minha relação sempre foi difícil com o banco. Acho até que eles eram mais rigorosos comigo que com meus concorrentes. Não sei se era para me obrigar a pagar propina”, ponderou em sua delação.

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Denise Neumann
Valor
Editado por Folha Política
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