sexta-feira, 2 de junho de 2017

Operador de Cunha oferece a cabeça de Temer em proposta de delação


Imagem: Hélvio Romero / Estadão Conteúdo
Há 11 meses encarcerado no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, Lúcio Bolonha Funaro aguarda ansiosamente as sextas-feiras. É o dia em que recebe a visita da mulher, acompanhada da filha de um ano e meio, e é abastecido com itens essenciais como roupa de cama, toalha, sabão em pó para lavar roupa, um litro de água sanitária para limpar a cela, frutas, biscoitos e pacotes de um de seus doces favoritos, pé-de-moleque. Amigo e operador do ex-deputado Eduardo Cunha, do PMDB, desde o início dos anos 2000, Funaro é réu, acusado de participar de um esquema de corrupção na Caixa Econômica Federal. Também é investigado em diversos inquéritos. Trocou várias vezes de advogado, mas todos seus pedidos de liberdade foram negados até agora. Já se habituara à vida espartana no cárcere, dedicada a estudar seus processos – bem diferente da rotina em uma luxuosa casa com muros altos e guarita de segurança no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Queixo duro, Funaro dizia que aguentaria dois anos em cana. Mudou de ideia.


Sua convicção foi abalada desde que sua irmã, Roberta, foi presa pela Polícia Federal na Operação Patmos, no dia 18, por receber dinheiro da JBS em seu nome, e cumpre pena em prisão domiciliar. Funaro agora se oferece à Procuradoria-Geral da República para virar delator. Operador do submundo do mercado financeiro, ele embrenhou-se na sombra da política por meio de Cunha e atuou como um banco do PMDB da Câmara. Durante anos, grande parte da corrupção praticada por essa turma passou por suas mãos em dinheiro vivo ou transferências, quase sempre em nome de laranjas. Funaro sabe muito, mas inspira cuidados. Conhecido do Ministério Público há mais de uma década, ele não é considerado confiável para acordos. Costuma blefar. Foi delator na investigação do esquema do mensalão e voltou a delinquir com maior intensidade, sem cerimônia nenhuma. Funaro é visto também como um criminoso perigoso. Sua delação no mensalão foi negociada pela advogada Beatriz Catta Preta. Em 2015, Funaro, segundo procuradores envolvidos no caso, ameaçou-a de morte quando um cliente dela falou sobre ele e Eduardo Cunha à Força Tarefa da Lava Jato. Aterrorizada, Catta Preta fugiu com a família para Miami. Funaro também ameaçou de morte a família de um delator, Fábio Cleto, preposto instalado no FI-FGTS, encarregado de liberar recursos a empresas, entre elas as do grupo J&F, de Joesley Batista, em troca de propina para Eduardo Cunha.

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O histórico de Funaro, portanto, exige cuidados. O material ofertado por ele à equipe do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no entanto, é promissor para a investigação – e capaz de elevar a gravidade da crise política a níveis mais críticos ainda. Funaro lista 12 itens que atingem o presidente Michel Temer, o principal chefe do PMDB tocado por Eduardo Cunha da Câmara, e seus aliados próximos. Temer é o protagonista do Anexo 2 da proposta de Funaro, que afirma ter provas para comprometer o presidente da República. Entre elas, estão transferências bancárias, entregas de dinheiro vivo e registros com nomes de operadores e laranjas do presidente, conforme o roteiro da delação em análise pelos procuradores e ao qual ÉPOCA teve acesso. As informações comprometem frontalmente a defesa do presidente no julgamento desta semana no Tribunal Superior Eleitoral: Funaro confessa ter atuado como captador ilegal de recursos para a campanha de Temer a vice-presidente da República em 2014. “Elementos de corroboração”: “Efetuou vários repasses os quais pode identificar os respectivos comprovantes, hora, local e quem recebeu”, diz um trecho da proposta Funaro acusa o então vice-presidente Michel Temer de atuar junto ao Banco Central para favorecer o banco BVA, em troca de recursos para campanhas eleitorais. Em 2012, o BC decretou intervenção no BVA, que acabou quebrando em 2014. Preso na última fase da Lava Jato, o fundador do BVA, José Augusto Ferreira dos Santos, tem boas relações com chefes do PMDB e é acusado de, assim como Funaro, operar como lavanderia do partido.

As acusações a Temer passam pela captação de recursos escusos para aliados, como a campanha do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, do PMDB, ao governo de São Paulo, em 2014, de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo em 2012 e fraudes no Ministério da Agricultura durante a gestão de Wagner Rossi - todos, ressalte-se, tentaram prosperar politicamente sob a influência do presidente. Funaro afirma que a partir de 2011, quando indicados do PMDB passaram a ocupar cargos relevantes na Caixa Econômica Federal, os financiamentos tinham como contrapartida propina ao partido, com envolvimento de Temer. A pedido do então vice-presidente, Funaro diz ter captado recursos dessas empresas para a campanha de Chalita. Como corroboração, cita empresas usadas como laranjas para receber os recursos de caixa dois destinados à campanha. As conversas de celular entre Funaro e um dos vice-presidentes da Caixa na época, Fábio Cleto, dão uma indicação. Em 13 de abril de 2012, às 15h44, sob o codinome Lucky, ele escreveu a Cleto: “Tem que ver essa situação da Comport e Hypermarcas aí dentro pra andar rápido, porque eles dois tão contribuindo com o Chalita e querem a contrapartida”. “Vou focar aí”, respondeu Cleto.

Outro personagem central nos relatos de Lúcio Funaro é o ministro Moreira Franco, um dos principais ministros de Temer, acusado fartamente na delação da Odebrecht. Na semana passada, o presidente até reeditou uma MP para garantir a Moreira o direito ao foro privilegiado no Supremo. Funaro diz que, quando vice-presidente da Caixa no governo Dilma Rousseff, Moreira deu à Odebrecht a exclusividade dos investimentos do FI-FGTS na área de saneamento. As fraudes incluíam, segundo Funaro, um sobrepreço na avaliação financeira dos projetos ligados à Odebrecht, para que o FI-FGTS injetasse recursos acima do valor de mercado. Dentre as provas que Funaro pretende apresentar estão repasses via caixa dois que ele fez para Moreira Franco e pagamentos por meio de outras empresas. Funaro diz que, mais tarde, como ministro da Aviação Civil, Moreira manteve um esquema com o diretor comercial da Infraero, André Luís Marques de Barros, conhecido como André Bocão, também um indicado de Eduardo Cunha, para favorecer empresas aéreas na distribuição de slots, hangares e balcões. Segundo ele, Moreira Franco fez ingerências para liberar a construção do primeiro aeroporto privado do país destinado a jatos executivos e táxis aéreos, com aval para cobrar tarifas, em São Paulo. A beneficiada foi a família de Paulo Skaf, do PMDB - sempre de acordo com a proposta de Funaro.

Quando começou a discutir uma delação premiada, no início deste ano, Funaro teve conversas com o procurador Anselmo Lopes, da Procuradoria da República no Distrito Federal, que conduz em primeira instância as investigações das operações Greenfield e Sépsis, cujo foco são investimentos fraudulentos de fundos de pensão e da Caixa. No início, Funaro resistia em entregar um personagem fundamental: Joesley Batista, da JBS, com quem tinha negócios. No começo deste ano, Joesley tomou a iniciativa de participar da organização da festa de aniversário de um ano da filha de Funaro. “Podem contar comigo”, disse aos familiares de Funaro. Hoje sabe-se que era medo. Joesley comprava o silêncio de Funaro, a quem devia favores bilionários feitos pelo FI-FGTS. Após a delação de Joesley e seus executivos, o dique de Funaro rompeu. Os procuradores ainda não sabem quanto do que Funaro diz é confiável e quanto é mera vingança contra a JBS. Diante da trajetória criminosa de Funaro, os procuradores querem dele provas materiais, que comprovem recebimento e pagamento de propinas, além de lavagem de dinheiro do PMDB. O testemunho dele, por outro lado, não interessa tanto.

Funaro listou 56 itens relacionados ao grupo JBS no primeiro anexo de sua delação premiada, ainda sem muitos detalhes. Sabe-se que Funaro aproveitava seu trânsito junto a autoridades ligadas ao PMDB para intermediar interesses de grupos privados, dos quais a JBS era a principal cliente, e em troca cobrar propina, que era dividida com aliados nos negócios, principalmente Eduardo Cunha. Em sua delação, os executivos da JBS admitiram pagamentos superiores a R$ 50 milhões de propina em troca dos recursos obtidos na Caixa e no FI- FGTS. Mas Funaro atribui à JBS outro modus operandi, mais agressivo: impedir que seus concorrentes obtivessem financiamentos do fundo. Segundo Funaro, houve interferências para que a Caixa não liberasse recursos à Seara enquanto a empresa não fosse comprada pela JBS, o que aconteceu em junho de 2013 por R$ 5,8 bilhões, e também para que não fossem feitos aportes na empresa Eucalipto Brasil, de Mário Celso Lopes, que rompeu a sociedade e se tornou adversário de Joesley Batista. Funaro não explica, na proposta de delação, se participou das operações ilegais que diz terem ocorrido.

Há duas semanas, a J&F, grupo que engloba a JBS e outros empresas dos Batista, passou a ser investigada pela Comissão de Valores Mobiliários, suspeita de aproveitar-se da crise gerada por sua própria delação para lucrar com operações no mercado de capitais e de câmbio. Funaro diz em sua proposta que a prática é antiga na empresa e promete dar detalhes sobre como a J&F obtinha informações privilegiadas do mercado de câmbio e juros. Ele diz que houve fraude na aquisição do banco Matone, em 2011, e irregularidades no atual banco Original, uma das empresas que a J&F tenta preservar após a delação. Funaro afirma que a JBS usava laranjas para a compra de frigoríficos com o objetivo de escapar da fiscalização do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), órgão que fiscaliza a livre concorrência e coíbe formação de cartel. Funaro dispara até contra o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que foi presidente do conselho de administração da J&F. Funaro cita a tentativa de a J&F comprar a construtora Delta, do empresário Fernando Cavendish, pilhada em esquema de corrupção com o governador do Rio, Sérgio Cabral. Mas não explica como Meirelles, segundo ele, atuou no caso.

A revista ÉPOCA ouviu três procuradores do Ministério Público Federal envolvidos com a delação premiada de Funaro. A PGR não tem pressa de examinar o caso de Funaro, nem deve fazer isso por enquanto. Os procuradores serão extremamente rigorosos e exigentes com Funaro, devido ao seu histórico e perfil. Exigirão dele muitos documentos, provas de que efetivamente o dinheiro sujo de parte do PMDB passou por suas mãos e provas de para onde foi enviado. Os benefícios oferecidos a Funaro também serão bastante econômicos, bem diferentes dos concedidos a outros delatores. No momento, a equipe de Janot analisa a consistência do material para decidir se prossegue com a negociação. Nos últimos dois anos, Funaro dizia a pessoas próximas que filmava todas as entregas de dinheiro vivo que fazia em seu escritório no bairro do Itaim, em São Paulo. Dizia que mantinha os arquivos guardados em lugar seguro, como seguro de vida. Essa prova, no entanto, se é que existe, ele não ofereceu aos procuradores.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o presidente Michel Temer afirmou que não tinha “nenhuma relação” com Lúcio Funaro e que é “impossível” que o lobista tenha operado qualquer tipo de movimentação financeira para Temer. “As relações do doleiro eram com outras pessoas da legenda”, diz o texto. A nota afirma ainda que Temer “jamais atuou” para favorecer o banco BVA. O ministro Moreira Franco disse por meio de nota que jamais esteve com Lúcio Funaro, que nunca foi tesoureiro de campanha ou do PMDB e que não houve favorecimento a nenhuma empresa no período em que foi ministro da Secretaria de Aviação Civil. “Isso não é uma delação, é uma mentira!”, disse Moreira em nota. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, do PMDB, classificou a menção ao seu nome na delação de Funaro como um absurdo e disse, por meio de nota, que jamais pediu a Moreira Franco ou a qualquer outra pessoa que fizesse ingerência de aeroporto privado. Por meio de nota, a assessoria do Ministério da Fazenda afirma que “Henrique Meirelles não atuou junto a qualquer órgão público nas tratativas sobre a possível compra da Delta Engenharia pela J&F, em 2012. À época, ele não pertencia ao Conselho de Administração da J&F e assessorava a companhia no Conselho Consultivo, orientando na reformulação do Banco Original, com a introdução da plataforma digital”.

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Aguirre Talento
Época
Editado por Folha Política
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