domingo, 18 de junho de 2017

Operador do PMDB dá sinais de que vai fazer delação explosiva


Imagem: Hélvio Romero / Estadão
Até ser citado na gravação entre o empresário Joesley Batista e o presidente da República, Michel Temer, o nome Lúcio Funaro não era necessariamente popular. Nas últimas semanas, porém, não para de ganhar projeção. Com trânsito entre empresários e políticos, principalmente do PMDB, vem depondo no inquérito que investiga Temer por corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa. Como é apontado pelos investigadores como um homem de dentro dos esquemas do partido, o gravador de Joesley pode virar traque perto de seus explosivos documentos e grampos.


Quem conhece Funaro usa adjetivos como “brilhante”, “carismático” e “divertido” para defini-lo. Mas também “maluco”, “descontrolado” e “perigoso”. Ele tem temperamento expansivo, fala agitada e, quando se irrita, esbraveja palavrões inomináveis. Há quase um ano, porém, permanecia mudo em uma cela da Papuda, presídio em Brasília. Mês sim, mês não, circularam boatos de que negociava delação premiada. Agora, emite um sinal forte de que o momento chegou. Contratou o criminalista Antonio Figueiredo Basto, referência em delações. Só na Lava Jato, ele homologou dez.

Preso em julho do ano passado, na Operação Sépsis, é acusado de pedir propina a empresários em troca da liberação de recursos da Caixa Econômica Federal. Segundo investigadores, manipularia não apenas financiamentos, mas também o FI-FGTS, o bilionário fundo mantido com recursos do trabalhador e gerido pela Caixa. E, de acordo com as apurações, não estaria só: seria operador do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) nesses e em outros esquemas ligados ao PMDB.

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Nesta quarta-feira, 14, Funaro, em Brasília, e Cunha, preso em Curitiba, prestaram depoimentos no inquérito de Temer. Antes, a estratégia de Funaro era falar pouco ou nada. Agora, é responder a todas as perguntas. Foi seu segundo depoimento na investigação. Durou quatro horas. Não teria poupado o ex-ministro e aliado pessoal de Temer Geddel Vieira Lima. Ex-vice-presidente da Caixa, Geddel é investigado nos mesmos supostos esquemas de Funaro e Cunha, mas, em sua defesa, alega ser vítima de ilações.

Longa data. Funaro tem longo histórico na Justiça. Já foi citado ou envolvido ou chamado a depor em boa parte das grandes investigações de lavagem de dinheiro do País. Operação Satiagraha, CPI dos Correios, Bancoop e mensalão, caso em que fez delação e saiu livre.

Na sequência, chegou a responder a cem processos judiciais simultâneos. Metódico e autoconfiante, leu e acompanhou a sua defesa em todos. Aliás, adora uma briga na Justiça. Processou sócios, clientes e muita gente que o chamou de doleiro, atividade que, segundo ele, jamais exerceu. Ele mesmo se apresenta como exímio corretor da Bolsa de Valores, onde ganhou muito dinheiro.

Em entrevista ao Estado em 2014, contou ter se reerguido após o mensalão como “assessor na solução de litígios empresariais” e em fusões e aquisições. Deflagrada a onda de operações, a partir da Lava Jato, vieram denúncias indicando que exercia atividades paralelas no mundo dos negócios. 

Limite. Antes de ser preso, Funaro dizia que não faria delação nos moldes da oferecida a Marcelo Odebrecht. Avaliava não fazer sentido entregar tudo e ficar preso. Mas a sua convicção foi testada no limite.

Perdeu o aniversário de 1 ano da única filha. Sua irmã foi filmada e presa pela PF por receber R$ 400 mil – segundo a polícia, parte do pagamento da suposta mesada que Joesley contou pagar para manter o silêncio de Funaro. A delação de Joesley também o incomodou: ele ali, preso, e o outro conta tudo e leva a delação dos sonhos?

Assim como Joesley, Funaro teria reunido provas. Exemplo: quem foi a seu escritório, no Itaim-Bibi, na zona oeste de São Paulo, pode ter se sentido seguro na recepção, uma vez que nem sempre eram registrados os visitantes. Mas se se sentou à mesa de reunião da primeira sala, à direita da entrada, correu um risco. Preocupado com a segurança, Funaro espalhou câmeras. De sua sala, mantinha uma central de Big Brother dos cômodos. Se gravou e se guardou, não dá para afirmar, mas a possibilidade existe – e os efeitos são imprevisíveis, porque o “assessoramento empresarial”, como ele chamava, foi amplo.

Funaro atendeu a médias e grandes empresas de diversos setores: papel e celulose, óleo e gás, alimentos, energia, transportes, agronegócio. Algumas delações dão uma pista da extensão do “trabalho”. Ao menos 12 grandes operações do FI-FGTS teriam rendido propinas, segundo outro delator, Fabio Cleto, ex-vice-presidente da Caixa, que foi integrante do Comitê de Investimento do FI-FGTS, órgão que decide o destino do dinheiro do fundo.

No bolo dos pagadores de “benefícios” haveria gente graúda. O ex-sócio de Funaro, Alexandre Margotto, contou, em delação premiada, que Eike Batista pagou a Funaro e Cunha para que sua empresa LLX Açú Operações Portuárias recebesse, em 2012, investimento de R$ 750 milhões do FI-FGTS. Se as suspeitas em relação a Funaro se confirmarem, seu nome, desta vez, tende a se tornar tão – ou mais – popular do que o de Joesley.

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Alexa Salomão
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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