sábado, 1 de julho de 2017

'O acordo com Joesley foi um mal necessário para destruir duas das mais nefastas organizações criminosas do país, as que estão no PT e no PMDB', afirma procurador da Lava Jato


Imagem: Produção Ilustrativa / Folha Política
O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa da Lava Jato, defendeu a necessidade de acordos como o que foi feito com os irmãos Batista, da JBS-Friboi: "o acordo com Joesley Batista foi um mal necessário para atingir um interesse público maior, que é o de destruir duas das maiores e mais nefastas organizações criminosas que já existiram no Brasil, aquela existente no PT e aquela existente no PMDB".


Leia o texto de Carlos Fernando dos Santos Lima: 

Como as organizações criminosas funcionam? Novamente é preciso colocar um pouco de técnica em uma discussão banalizada por interesses políticos. 
Primeiro, uma organização criminosa pode ser imaginada como um triângulo em que no vértice superior encontra-se o líder e na medida que a estrutura desloca-se para a base, maior é a quantidade de subordinados e menor o poder dentro da organização.
Entretanto, no mundo real, como na operação Lava Jato, há um conjunto enorme de organizações criminosas, parcialmente autônomas entre si. Podemos imaginar isso também em relação à máfia italiana, com a máfia calabresa, a Ndrangheta, a napolitana Camorra, ou a Cosa Nostra siciliana. 
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Essas organizações não são as únicas, pois coexistem com elas diversas outras organizações criminosas menores, normalmente prestadoras de serviço, terceirizadas, por assim dizer. Também há organizações criminosas tributárias, que pagam as organizações maiores em busca de apoio ou proteção.
A realidade, portanto, é muito mais complexa que o pensamento simplista da lei. Somente no âmbito da corrupção atual, conforme a própria distribuição dos inquéritos no STF revela, há diversas organizações criminosas em convivência no Brasil. Podemos identificar a organização criminosa que tem como base o PT, assim como as organizações criminosas com suporte no PMDB da Câmara dos Deputados, no PMDB do Senado Federal, e assim por diante.
Essas organizações funcionam autonomamente, buscando os seus próprios interesses. Mas aglutinam-se em torno de um interesse comum, formando uma confederação de organizações criminosas, coordenadas entre si. Assim, dividem territórios, como na máfia italiana, ou dividem órgãos públicos, como no caso brasileiro.
Há diversos líderes, portanto, de organizações criminosas, podendo encontrar-se subordinação entre um líder de uma organização à outra maior. Assim, por exemplo, Alberto Youssef tinha sua própria organização criminosa, com objetivos, permanência e pessoal. Entretanto, essa organização prestava serviço de lavagem de dinheiro àquela do Partido Progressista essencialmente, mas também eventual serviço para as organizações criminosas das empreiteiras.
Assim, Alberto Youssef era sob um aspecto líder, mas sob outro, subordinado. Mas a própria organização criminosa dentro do Partido Progressista era subordinada a outra maior, dentro do governo do PT, cujo ápice estava o ex-presidente Lula. Esse quadro se revela mais complexo quando se reúne a ele todas as outras organizações idêntificadas, com suas estruturas e organizações criminosas tercerizadas ou tributárias.
Assim, usando um exemplo atual, os irmãos Batista eram e não eram líderes de organização criminosa. Se restringirmos o olhar para a J&F, realmente eles eram líderes. Se olharmos para o mapa completo, eles eram tributários, pagavam propinas para as organizações criminosas da política, seja a do PT ou a do PMDB a nível federal, mas com certeza a organizações menores que existem em governos estaduais, municipais e em órgãos públicos diversos.
Dessa forma pode-se compreender a estratégia de investigação da Operação Lava Jato e seu relativo sucesso. Ao invés de iniciar a investigação contra as grandes organizações criminosas, foi ela desarticulando as organizações criminosas menores. Ao solapar as bases, as estruturas superiores foram desmoronando. Nesse ponto, o uso das colaborações premiadas com expoentes dessas estruturas menores foi fundamental para a implosão do sistema.
Tudo isso dito, fica claro que o acordo com Joesley Batista foi um mal necessário para atingir um interesse público maior, que é o de destruir duas das maiores e mais nefastas organizações criminosas que já existiram no Brasil, aquela existente no PT e aquela existente no PMDB.
Cumprimento quem conseguiu chegar até aqui, pois se trata de um assunto árido e algumas vezes confuso. Espero ter dado algumas ferramentas ao leitor para não ser enganado por colocações ingênuas, simplistas ou maldosas que andam por aí. Obrigado.

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Luciana Camargo
Folha Política
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