segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Andorra diz que advogado foragido da Lava Jato usou povoado da Galícia para lavar propina da Odebrecht


Imagem: Reprodução / Redes Sociais
Investigações conduzidas pelas autoridades de Andorra e da Espanha afirmam que o advogado Rodrigo Tacla Duran usou povoados na região da Galícia como sede de empresas de fachada que fizeram transações milionárias e pagamentos a políticos em diferentes partes da América Latina. Tacla é apontado como um dos operadores das offshores criadas pelo chamado "departamento de propinas" da Odebrecht. Os dados fazem parte de processos obtidos pelo Estado que estão em andamento na Justiça de Andorra. Os documentos também informam que os bancos do principado sabiam da relação entre as empresas de fachada e a Odebrecht desde 2011. 



Considerado foragido pelas autoridades brasileiras, ele acabou sendo detido num hotel de luxo de Madri. Mas, para evitar uma extradição, Duran teria se oferecido para cooperar com as investigações e, na esperança de obter informações sobre empresas espanholas, o Ministério Público local iniciou um processo de aproximação. 

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No início do mês, o Estado revelou que ele movimentou por meio de suas empresas mais de R$ 100 milhões, entre 2010 e 2014. Boa parte desse montante foi repassado por empresas investigadas na Operação Lava Jato, conforme relatório do Ministério Público Federal. Os valores não contabilizam os repasses da Odebrecht, para quem, segundo a própria empreiteira, Duran atuava como operador financeiro no exterior. 

Por enquanto, os dados repassados pelo Brasil às autoridades espanholas indicam que ele estaria envolvido em 11 empresas de fachada criadas para realizar pagamentos de propinas. O dinheiro ainda passava por contas em Cingapura, Suíça e no Panamá.

EXEMPLOS

Uma das empresas de fechada administradas por Duran era a Vivosant Corporation, pela qual teriam passado passado mais de 17 milhões de euros. Ela recebeu em uma conta secreta em Cingapura em 2010 pelo menos 12 milhões de euros da Constructora Internacional del Sur, apontada nas investigações da Operação Lava Jato como peça importante no esquema de distribuição de propinas na América Latina. 

Essa construtora teria pago propinas e movimentado mais de US$ 40 milhões por meio do ex-executivo da Odebrecht Fernando Migliaccio, detido em Genebra em fevereiro. 

No registro comercial espanhol, a empresa Vivosant se apresenta como uma “consultoria e projetos de reciclagem industrial”. Sua sede está na rua Manuel Quiroga, na pequena cidade de Pontevedra, na Galícia. 

Outra empresa de fachada que também é suspeita de ter sido utilizada como mecanismo de pagamento de propinas foi a Gvtel Corporation, supostamente do setor de telecomunicações.  Sob a gestão de Duran, a empresa registrou transações de quase US$ 30 milhões. O que chama a atenção dos investigadores é que a empresa teria seu endereço na praia de Poio, também na Galícia e com apenas 16 mil habitantes. 

Num dos autos de seu processo, os investigadores de Andorra indicam que Tacla queria “abrir em Andorra o serviço de faturação para o Brasil, que o daria uma empresa do grupo Odebrecht, por meio de um contrato de assessoria financeira”. De acordo com a polícia de Andorra, tratava-se de um “sistema de compensação entre contas, para ocultar uma parte do dinheiro não declarado no Brasil, maquiado por contratos fictícios”. 

CONTAS

Em um dos relatórios internos do Banco Privado de Andorra, de 23 de setembro de 2011, o empresário é apontado como vendedor de “cartões pré-pagos ao mercado do Brasil e da Espanha”. À instituição, Duran pediu a abertura de duas contas. Uma seria em nome da Gvtel. A outra, em nome da BPA, supostamente uma empresa do Panamá e que seria 100% proprietária de uma outra companhia, em Vigo. Segundo o informe do banco, “a empresa panamenha era encarregada da distribuição e cobrança de produtos da empresa Gvtel”. 

Para o banco, as transações entre sua empresa e outras de controle direto da Odebrecht eram consideradas “arriscadas”. Os acordos, por exemplo, com a Adezon Overseas Limited e a Betingo receberam status de "pendente de esclarecimentos". 

“O cliente (Duran) queria receber a parte B de sua faturação no Brasil, a qual daria a uma empresa do Odebrecht, que através de um contrato de consultoria financeira, o faria chegar a Andorra”, explicou o informe interno do banco. “A operação foi recusada”, completou o texto.  Em 28 de outubro de 2011, ele propõe receber nas contas da Gvtel dinheiro de outras empresas, hoje consideradas de fachada e operadas pela Odebrecht.

Nas investigações realizadas no Brasil, Espanha e Andorra, a suspeita é de que Duran seja administrador das empresas Bezoya Trading Limited, Bonarda Investmenst Ltd, Cumberland Finance Ltd, Discovey Management LLC, Host Telecomunication Corp, Nevada Investments Ltd, Ocean City Enterprises LLC, ZB International Ltd e IFX Trading Corp. 

Diante da prisão de Duran em Madri, a Unidade de Investigação Criminal da Polícia de Andorra enviou no dia 24 de novembro de 2016 um pedido para que as autoridades espanholas repassassem ao principado informações sobre o suspeito.

 “Nossos serviços estão conduzindo uma investigação sobre suposto delito de lavagem de dinheiro em relação a diversos indivíduos, entre os quais está o brasileiro Rodrigo Tacla Duran, nascido em 13 de setembro de 1973, titular do passaporte F1448121”, escreveu os investigadores de Andorra. O pedido foi atendido e a investigação, segundo o Estado apurou, está em andamento. 

Procurado, Duran não respondeu à reportagem. Desde a homologação do acordo de colaboração de seus executivos, a Odebrecht informa que "está colaborando com as autoridades no esclarecimento de todos os fatos por ela revelados. E reafirma o seu compromisso com a verdade, com o combate à corrupção e com uma atuação ética, íntegra e transparente, no Brasil e em todos os países em que atua".


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Jamil Chade
O Estado de S.Paulo
Editado por Política na Rede
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