sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Veja as evidências do ‘pacto de sangue’ entre Lula e Emílio Odebrecht


No dia 3 de agosto a procuradora da República Isabel Cristica Groba Vieira, da força-tarefa da Operação Lava Jato, anexou ao processo que acusa Luiz Inácio Lula da Silva de receber R$ 12 milhões em propinas da Odebrecht – no caso do terreno do Instiuto Lula e do apartamento de São Bernardo do Campo – o registro do encontro entre o ex-presidente e o empresário Emílio Odebrecht, que conteceu no dia 30 de dezembro de 2010.



Foi o encontro entre Lula, a presidente eleita Dilma Rousseff e o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli em que teria sido efetivado o “pacto de sangue” entre o petista e o empresário, acordado dias antes que previa o repasse de R$ 300 milhões de propinas em troca de uma relação “fluída” no governo de sua sucessora.




O documento entregue com outros pela Odebrecht ao Ministério Público Federal, dentro do acordo de delação premiada e leniência do grupo, tem o registro de temas a serem tratados por Emílio com Lula e Dilma e só com Lula. Entre os temas exclusivos a serem discutidos com o ex-presidente, “Instituto”, “Obras sítio (15/1)”, “1ª palestra Angola” e “Estádio Corinthians”.
Palocci revelou em interrogatório ao juiz federal Sérgio Moro, na quinta-feira, 6, que na troca dos governos Lula e Dilma, em 2010, Emílio Odebrecht buscou Lula e fez um “pacto de sangue” com ele.

“Foi nesse momento que o doutor Emílio Odebrecht fez uma espécie de pacto de sangue com o presidente Lula.  Ele procurou Lula nos últimos dias de seu mandato e levou um pacote de propinas para o presidente Lula esse terreno do Instituto, que já estava comprado e seu Emílio apresentou ao presidente Lula, o sítio para uso da família, que estava fazendo a reforma em fase final e disse ao presidente que estava pronto e disse que tinha a disponsição para o presidente fazer sua atividade política dele, R$ 300 milhões.”

Durante o interrogatório, o advogado Cristiano Zanin Martins, defensor de Lula, questionou Palocci sobre o encontro. O ex-ministro reafirmou: “O Emílio o abordou, no final de 2010, não foi para oferecer alguma coisa, Dr., foi para fazer um pacto, que eu chamei de pacto de sangue, porque envolvia um presente pessoal, que era um sítio, envolvia o prédio de um museu, pago pela empresa, que envolvia palestras pagas a R$ 200 mil foram impostos, combinadas com a Odebrecht para o próximo ano, várias palestras, envolvia uma reserva de R$ 300 milhões”.

Palocci disse que foi chamado por Lula para que “recebesse” o dinheiro e que o encontro estava registrado nos autos. O material foi anexado ao processo no dia 3 de agosto.

O registro comprova, segundo a força-tarefa, o segundo encontro entre Emílio e Lula, dessa vez com Dilma e Gabrielli. Nele, Palocci diz que o ex-presidente teria pedido que fossem mantidas as relações do governo, “lícitas e ilícitas”, com a Odebrecht. “(Emílio) Ele confirmou os R$ 300 milhões e falou que pode ser mais se necessário”, teria dito Lula a Palocci, no dia seguinte.



A Odebrecht entregou também o arquivo da agenda da secretária do empresário Marcelo Odebrecht, Darci Luz, que registra a “Reunião Palácio do Planalto”, com a anotação “Dr. EO/ Pres. / Pres. Eleit”.

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Mentiu. Confrontado nesta quarta-feira, 13, por Moro e pelo Ministério Público Federal sobre o encontro e o registro dos temas apresentados pela Odebrecht, Lula desqualificou Palocci e os elementos de provas apresentados.

“Essa agenda é mentirosa, ela não existiu. Se alguém escreveu isso, esqueceu, sabe, de colocar um pingo de verdade aí”, afirmou Lula. Ele confirma o encontro, mas diz que não houve discussão de ilícitos.

“Eu conversei com Emílio Odebrecht no dia 30 de dezembro, era o penúltimo dia; eu tinha ido à Bahia inaugurar um milhão de contratos do Minha Casa, Minha Vida e o Emílio Odebrecht me pediu o seguinte: ‘Presidente, eu tô em Brasília, eu tô passando o comando da empresa para o Marcelo Odebrecht e eu estava querendo ver se a presidenta Dilma nos recebia’. Eu falei com a Dilma: ‘É possível receber?’. Recebeu. Eu acho que não durou dez minutos essa conversa.”

A procuradora da Lava Jato – que foi chamada na audiência pelo petista de “querida” e exigiu que ele a tratasse de forma protocolar – questionou se no encontro do dia 30 de dezembro teria falado com Emílio sobre “Instituto e sítio”.

“Não tratei! Jamais! Jamais! Eu vou dizer para a senhora aqui, jamais o Emílio Odebrecht, que é um empresário que eu tenho profundo respeito, tratou comigo de qualquer dinheiro para o PT. Jamais!, respondeu Lula irritado.

A procuradora diz que documento entregue pela Odebrecht cita “disponibilizar apoio junto ao Congresso” e os temas a serem tratados “Com ele”, sobre instituto, sítio palestras e estádio.

Nesse momento da audiência, o advogado de Lula interrompe e afirma que documento é apócrifo e “objeto de um incidente de falsidade” ainda não solucionado.

No documento, há registro ainda de um tema a ser tratado com Lula e Dilma: “3) Convite (para os 2) evento Padres e Hijos”. A anotação é referente ao evento patrocinado pelo mexicano Carlos Slim, no hotel Transamérica, na Ilha de Comandatuba, chamado “Brasil e América Latina: Presente e futuro”, em que Lula fez palestra no dia 18 de maio de 2011, paga pela Odebrecht. O evento é voltado para bilionários e seus herdeiros. Foi a Odebrecht também que custeou o jato usado por Lula para viajar para a Bahia e depois para o Panamá, para uma segunda palestra.


As palestras da Bahia e do Panamá foram as duas primeiras patrocinadas, indiretamente, pela Odebrecht, mas as oitava e nona da atividade profissional de Lula, pós-Planalto. Por cada evento, o petista cobra o valor fixo de US$ 200 mil. São 72 palestras realizadas em seis anos, segundo documento produzido pelo Instituto Lula, em março de 2016 – quando o ex-presidente foi alvo da 24ª fase da Lava Jato e levado coercitivamente para depor, em São Paulo.

A Odebrecht é a maior contratante das palestras da LILS, que estão na mira da Lava Jato. A empreiteira contratou e pagou diretamente para a empresa de Lula R$ 2,84 milhões por oito palestras realizadas depois dessas primeiras, feitas em maio de 2011, na Bahia e no Panamá, declaradas como palestras contratadas pela Telos. São dois eventos em Angola e o restante na Argentina, em Cuba, Peru, Portugal, Republica Dominicana e Venezuela.

O valor pago pela Odebrecht representa 10% do que a LILS recebeu desde que foi aberta, aproximadamente R$ 28 milhões. São eventos para grandes empresas e corporações. Quase metade desses valores pagos por empreiteiras e empresas  acusadas de corrupção na Petrobrás ou sob investigação da Lava Jato.

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Ricardo Brandt, Julia Affonso, Fausto Macedo e Luiz Vassallo
O Estado de S. Paulo
Editado por Política na Rede
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