quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

'Quem roubou, tem que ser condenado e preso', diz senador Álvaro Dias sobre candidatura de Lula


Imagem: Reprodução / Redes Sociais
O senador e pré-candidato à Presidência Álvaro Dias, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, lembra que a eleição não está definida. Para o senador, a suposta polarização entre Lula e Bolsonaro não define as eleições, já que há muitos eleitores que não pretendem votar nem em um nem em outro e podem definir as eleições, havendo espaço para crescimento de candidatos que se opõem à corrupção. Questionado sobre a candidatura de Lula, Dias respondeu: "Defendo a legislação. Quem roubou, tem que ser condenado e preso. Cabe à Justiça decidir. Se queremos dar sustentação ao Estado de Direito democrático devemos pensar dessa forma".




Leia abaixo a entrevista de Álvaro Dias: 

Por que a Presidência agora?Estamos vivendo uma tragédia política e as pessoas lúcidas não podem se omitir. A omissão pode significar a reedição desta tragédia. Há que se exercitar o protagonismo. Fui convocado e aceitei essa incumbência de apresentar uma alternativa de projeto.
O Datafolha indica que o ex-presidente Lula (PT) e o deputado Jair Bolsonaro (PSC) lideram a corrida presidencial. Como sua candidatura tentará trazer o eleitor para o centro do espectro político?Não há necessidade de trazê-lo. Setenta por cento não querem votar nem em um, nem em outro. Fazem uma leitura parcial da pesquisa. Essa análise teria que partir do quesito rejeição, que é quase irreversível.Eu não acredito na polarização. Sei que nesse primeiro momento há uma manifestação do fígado das pessoas. Vem um pouco de raiva, de revolta. Mas depois vem a reflexão, um refluxo dessa ira, "preciso pensar em construção, não em incêndio".
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O senhor defende que Lula dispute as urnas?Defendo a legislação. Quem roubou, tem que ser condenado e preso. Cabe à Justiça decidir. Se queremos dar sustentação ao Estado de Direito democrático devemos pensar dessa forma.
O senhor aparece empatado tecnicamente em alguns cenários com candidatos de maior expressão, como o governador Geraldo Alckmin. Foi uma surpresa?Não. O que me surpreendeu mesmo foi o baixo percentual de conhecimento. Sou desconhecido por 53% da população. Isso me levou a concluir que até 2014 a maioria dos brasileiros não estava muito ligada à atividade política. Parece que hoje as estruturas partidárias estão sendo condenadas não só pela Lava Jato, mas também pela população. Nessa eleição, além do eleitor questionar o candidato, vai questioná-lo sobre seu partido. Me deixou satisfeito o baixo índice de rejeição. É o que mais me anima nesse enfrentamento desigual, com grandes estruturas.
A baixa rejeição representa um espaço de crescimento?Sim. Até porque se tivesse assaltado a Petrobras, seria conhecido por 120% dos brasileiros. Os que praticaram corrupção são mais conhecidos do que os que denunciaram. Alguns querem combater a corrupção agora, quando não combateram quando deviam. Chegaram muito atrasados. O oportunismo sempre traz vantagens a alguns, e isso tem ocorrido nesse início de enfrentamento.
Alguns?Prefiro não citar por uma questão de formação, não gosto de atirar pelas costas. Se tiver que desconstruir um concorrente, será no debate, frente a frente.
O senhor levanta a bandeira anticorrupção de forma ostensiva. Em tempos de Lava Jato, essa também é uma estratégia eleitoral?Não, sempre usei esse discurso. O fim do foro privilegiado [o senador é autor da PEC que tenta acabar com o mecanismo] tornará a Lava Jato uma operação completa, porque não restará impunidade. Não é uma estratégia eleitoral, é uma prática constante, compromisso de vida. Desmontei cartel de empreiteira em obras públicas [quando governador do Paraná].
O senhor está se movimentando para a formação de alianças?Em fevereiro, será possível verificar que tipo de aliança, quem vai se dispor a fazer uma aliança com o Podemos. A gente também está preocupado com a natureza, tem que ser uma que não comprometa a proposta. Esses grandes partidos, nem eles desejam, nem nós gostaríamos. Esses que estão condenados na Lava Jato.
Quais?Esses que estão, inclusive, rejeitados na opinião pública. PMDB [atual MDB], PSDB, PT Enfim, esses partidos que conduziram a administração pública nos últimos anos.
O senhor fez parte do PSDB por muito tempo. Nas duas passagens, cerca de 20 anos. Ao mesmo tempo, não chegou a alcançar a projeção nacional de políticos como o Alckmin ou o Serra [José, senador]. O que faltou?Na verdade, o PSDB é um partido paulista. Graças à liderança do presidente Fernando Henrique Cardoso, o Aécio [Neves, senador] prevaleceu porque conquistou o grande eleitor do partido, que era o FHC. Por essa razão, sempre fui limitado à atuação no Senado. Apenas não tinha espaço para a disputa eleitoral.Em 2010, me ofereceram a possibilidade de vice do Serra, mas retiraram no último momento, em uma madrugada, às vésperas de uma convenção do DEM. Fiquei à margem porque não disputei no Paraná e também não fui aproveitado na chapa nacional.
O senhor guarda mágoas?Não, eu acho que é da atividade. Temos que assumir o ônus. Por exemplo, eu combato os privilégios e abro mão deles para ter autoridade de combatê-los. Me refiro à aposentadoria de ex-governador, verba indenizatória, auxílio-moradiaTenho noção de que minha trajetória poderia ter sido diferente se compactuasse com o sistema. A expulsão [do PSDB, em 2001, no governo FHC, quando assinou a CPI da Corrupção] me levou a uma desestruturação completa, a uma derrota na eleição [para o governo do Paraná, que disputou pelo PDT]].Se eu combato corrupção, não é só na casa do vizinho. Isso custou caro. Me levou a uma aliança que não coadunava com meu discurso [com o ex-presidente Lula] e eu perdi a eleição no Paraná.
Hoje vemos uma rejeição da população à velha política. O senhor é político há meio século. Como contornar essa questão?Quando alguém me coloca no campo da velha política me sinto injustiçado. Na verdade, sou um velho contestador do sistema que é denominado de velha política. Quando tive oportunidade de ser governo, fui para a oposição. Sou um antigo defensor da nova política. Por isso sempre fui inquieto, inconstante... Quantas vezes mudei de sigla, procurando um partido que não encontrei até hoje. Hoje me encontro em um movimento, que um dia pode se tornar um partido político.
É possível transitar por tantas legendas e ao mesmo tempo manter uma coerência político-ideológica?Mudei de sigla para não mudar de lado, exatamente para preservar a coerência. Os partidos é que são incoerentes. Fui expulso do PSDB porque quis instalar uma CPI para investigar a corrupção no governo do meu próprio partido [na Presidência de Fernando Henrique Cardoso]. Comprometi minha trajetória política com essas mudanças, mas optei pela coerência.
De quais reformas o Brasil precisa?É uma nação em espera de reformas. Política, do Estado... A tributária é fundamental para a retomada do desenvolvimento econômico com justiça social. O modelo tributário tem que ser um instrumento de distribuição de renda. Os governos não fazem reforma tributária com medo de perder receita, porque não possuem visão de futuro.A reforma da Previdência, que não pode ser simplista como a proposta do presidente [Michel] Temer. Tem que alcançar a complexidade social do país.A reforma trabalhista [Dias foi contra] será testada até 2019 e aí temos que decidir se cabe uma reforma da reforma ou se dá para esperar mais. Mas a principal é a da postura política.O ambiente de otimismo para atração de investimentos certamente começará com as reformas. Elas passarão a ideia de modernização do Estado, darão a noção de que é possível investir. O combate à corrupção também é essencial porque os grandes conglomerados econômicos escolhem para seus investimentos países com os menores índices de corrupção.
O Brasil ainda precisa de medidas de austeridade?Sim, tem que ser um governo de austeridade, que leve em conta a necessidade de estabelecer a relação correta entre o custo benefício dos investimentos realizados.
A quem cabe o ônus da austeridade?O ônus deve ser compartilhado. O exemplo deve vir da classe política. Não teremos autoridade para impor austeridade se não dermos o exemplo cortando na própria carne.
No que consiste a reforma do Estado?A refundação do Estado passa principalmente pela ruptura com esse sistema de governança promíscuo, que chamo de balcão de negócios. Ele foi clonado e transportado para Estados e municípios e se generalizou a promiscuidade. Com a abertura das portas da administração pública para a corrupção e com o comprometimento da eficiência administrativa em razão das indicações político-partidárias.
Pode o presidencialismo de coalizão não ser um balcão de negócios?Nós temos que romper com o presidencialismo de coalizão. É uma das causas fundamentais da tragédia. Temos que desprezar a política de alianças construídas com objetivos fisiológicos. Tive uma experiência limitada a um Estado, aqui no Paraná, como governador. Não pratiquei essa política do conluio partidário, das nomeações, sempre combati isso.
Enquanto presidente não seria muito mais difícil?Se chegar à Presidência, você não tenha dúvida de que o momento mais importante do governante é o da escolha da equipe. Se ele escolhe qualificando técnica e profissionalmente, abre perspectivas de sucesso. Acho que isso se faz buscando o apoio da sociedade, invertendo o processo. O Congresso não rema contra a correnteza da opinião pública.
Há um episódio, durante seu governo no Paraná, pelo qual o senhor foi muito criticado. Me refiro ao uso da cavalaria pela Polícia Militar, durante uma manifestação de professores em Curitiba, em 1988. Hoje o senhor agiria diferente?Faria a mesma coisa. Houve um factoide, produzido politicamente. Todos os cuidados foram adotados. Quando um policial usou a bomba, foi para proteger um colega que estava sendo acossado. As pessoas correram para onde estava a cavalaria. Não houve ninguém ferido, não há registro em nenhum posto de saúde.
À época foram noticiados dez feridos.Não há registro. Inventam dez feridos porque ninguém sabe.

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